Roma

75º Festival de Veneza | O Leão é de ‘Roma’ e os Prémios

Confirmando o seu favoritismo ‘Roma’, do mexicano Alfonso Cuarón (‘Gravity’) ganhou o Leão de Ouro de Veneza 75. A grande vencedora da noite foi a plataforma Netflix, que arrecadou três prémios nas suas produções a concurso, incluindo o Leão de Ouro. O palmarés de Veneza 75 foi diversificado mas praticamente sem surpresas.

Coube ao júri liderado por Guillermo del Toro, juntamente com Christoph Waltz, Taika Waititi, Naomi Watts, Malgorzata Szumowska, Trine Dyrholm, Nicole Garcia, Guillermo del Toro, Sylvia Chang e Paolo Genovese, escolher o Leão de Ouro de Veneza 75, que foi sem surpresa para ‘Roma’, de Alfonso Cuarón. Era o filme que estava à frente nas escolhas das tabelas da crítica. E talvez seja das poucas vezes que existiu uma unanimidade clara entre o júri e a crítica, no que diz respeito aos favoritos aos prémios.

The Nigthingale
‘The Nightingale’, da australiana Jennifer Kent ganhou dois prémios.

Estes, acabaram por ser mais ou menos evidentes, e sem surpresas, excepto um Prémio Especial do Júri e Prémio Actor Revelação (Baykali Ganambarr), para ‘The Nightingale’, de Jennifer Kent.  Mas mesmo estes dois prémios, não foram tão surpreendentes assim e até soa a um favorecimento algo politicamente correcto, já que a cineasta australiana era a única mulher com um filme a concurso. Ou talvez ainda porque se trata de um filme que conta a história de vingança de uma mulher (boa interpretação da jovem Aisling Franciosi), com muito sangue e laivos de filme fantástico, bem ao gosto do presidente do júri Guilherme del Toro.

Roma
O realizador na rodagem com a actriz mexicana Yalitza Aparício.

‘Roma’, do mexicano Alfonso Cuarón — produzido a partir da Netflix, e a primeira vez que um Leão de Ouro vai para a plataforma —, conta a preto e branco a vida de uma família de classe média — a do próprio realizador que já abriu Veneza e ganhou um Leão de Ouro com ‘Gravity’, em 2013 — e da sua serviçal de origem indígena, passado num bairro da cidade do México, no início dos anos setenta. O Leão de Prata, do Grande Prémio do Júri, também mais ou menos inevitável foi para um dos filmes mais arrojados a concurso: ’The Favourite’, do grego Yorgos Lanthimos, um triângulo lésbico inspirado por eventos que realmente ocorreram na corte da rainha Anne (Olivia Colman, que ganhou a Taça Volpi, para Melhor Interpretação Feminina), na Inglaterra no início dos anos 1700. No centro de toda a pérfida rivalidade estão as duas belas cortesãs: Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e Abigail (Emma Stone).

The Sisters Brothers
The Sisters Brothers, Leão de Prata de Melhor Realizador para Jacques Audiard.
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O realizador francês Jacques Audiard, ganhou com ‘The Sisters Brothers’, o Leão de Prata para Melhor Realizador. Trata-se de um western-noir baseado no romance homónimo do canadiano Patrick DeWitt, passado no Oregon em 1850, com Joaquin Phoenix, John C. Reiley e Jake Gyllenhaal, em que os cowboys têm sentimentos e até escovam os dentes. Mais um filme de produção da Netflix. E como se não bastasse a plataforma arrancou igualmente o Prémio de Melhor Argumento, para ‘The Ballad of Buster Scruggs’, de Joel e Ethan Coen. Protagonizado por Tim Blake Nelson, James Franco, Liam Neeson e Tom Waits,  o desvairado ‘A Ballad of Buster Scruggs’ é um filme em seis partes, a partir de uma série de contos — aliás bem adequados a uma adaptação ao formato de serie de televisão — sobre a fronteira americana, contada através do humor negro e da voz única e incomparável de Joel e Ethan Coen. Cada capítulo conta uma história distinta sobre o oeste americano, inspirada na estética dos western spaghetti rodados em Itália e no sul de Espanha, na década de sessenta.

'At Eternity's Gate'
Willem Dafoe está espantosamente igual a Van Gogh.

Sem surpresas e quase como uma espécie de consagração em Veneza, foi a Taça Volpi de Melhor Interpretação Masculina, atribuída a Willem Dafoe, em ‘At Eternity’s Gate’, de Julien Schnabel (‘O Escafandro e a Borboleta’) O filme vale sobretudo pelo actor que com sua barba ruiva, uma expressão triste e magoada, parece-se assombrosamente com Vincent Van Gogh. A interpretação ou a concorrência de outros actores nem está em causa porque Dafoe é em qualquer papel, um actor do outro mundo. ’At Eternity’s Gate’ começa mostrando um Van Gogh empobrecido em Paris nos anos 1880, quando suas pinturas são ignoradas ou pouco reconhecidas. O drama acompanha-o ao sul da França, entrando e saindo de instituições psiquiátricas, e termina com sua morte alguns anos mais tarde, aos 37 anos, com uma bala no estômago que, no filme, não é o resultado do suicídio, que os historiadores  de arte têm especulado sobre a causa da sua morte.

José Vieira Mendes (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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