MOTELx ’18 | Unsane, em análise

Em “Unsane”, Claire Foy é uma mulher que construiu uma nova vida para fugir do seu stalker, mas que acaba por ser internada à força num hospital psiquiátrico onde trabalha um homem que é a cara chapada do seu perseguidor do passado. Este filme de Steven Soderbergh foi totalmente filmado com um iPhone e faz parte da secção Serviço de Quarto do 12º MOTELx.

Aquando da passagem de “Unsane” pela Berlinale, Steven Soderbergh defendeu a sua peculiar escolha de filmar todo o projeto com um iPhone ao invés de uma câmara tradicional, dizendo que este é o futuro do cinema e que uma audiência que não saiba os detalhes da produção nem vai reparar na diferença. Segundo Soderbergh, projetado no grande ecrã, a imagem é como veludo, indistinguível dos visuais obtidos com câmaras profissionais. Ou Soderbergh está a mentir deliberadamente, está a ficar cego ou então enlouqueceu.

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Não obstante o modo como as imagens capturadas pelo iPhone podem ou não contribuir para o sentimento de voyeurismo e claustrofobia fomentado nesta história de uma mulher encarcerada num hospital psiquiátrico e atormentada pelo seu stalker, uma coisa é certa – “Unsane” é feio que dói. Parte do problema deve-se ao modo como o realizador, que também trabalhou como diretor de fotografia, pareceu construir o filme em volta de localizações com iluminação abismal que testa os limites tecnológicos do iPhone. Não há aqui nenhuma da estilização pop com luz artificial e natureza garrida que Sean Baker tão bem usou em “Tangerine”, que também foi filmado em iPhone.

Motelx unsane critica
Um dos filmes mais esteticamente repugnantes dos últimos tempos.

Mesmo assim, nem as mais brilhantes condições luminosas conseguiriam dar mais definição à imagem ou delinear tridimensionalidade no seu jogo focal. Na sua presente forma “Unsane” é um filme incrivelmente plano, sem profundidade, onde distorções bulbosas tudo dominam, tanto em momentos dramaticamente apropriados como em ocasiões em que as características da câmara colidem ruidosamente com as composições orquestradas por Soderbergh. O movimento elegante da imagem lá redime algumas passagens, e os dois primeiros planos são legitimamente belos, mas, de modo geral, este filme é um crime contra o cinema enquanto uma arte visual.

Enfim, a fotografia do filme é cataclismicamente má, mas isso não significa que toda a obra seja um zero à esquerda em termos formais. Afinal, este é um filme de Steven Soderbergh e, excetuando a sua presente loucura ou potencial cegueira, ele é um dos grandes mestres do cinema americano dos nossos dias. Tal mestria manifesta-se principalmente na montagem, também assinada por ele, com que o cineasta joga com continuidade e desorientação de modo a nos mergulhar no estado psicológico da protagonista, tão acusada de ser mentalmente instável que a certo ponto ela mesma começa a pensar que isso pode ser verdade.

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Infelizmente, em termos textuais, “Unsane” está mais ao nível da sua fotografia do que da montagem. Sendo este o primeiro filme de terror do realizador e o seu gosto pelo cinema de série B de outros tempos, não surpreende que a premissa narrativa de “Unsane” acabe por ser meio pateta, dando azo a tantas falhas de lógica interna como a epítetos de histrionismo tonal. O problema não é a condição lúgubre da história, mas sim as suas ocasionais tentativas de ser uma obra séria com algo importante a dizer sobre a nossa sociedade.

A mensagem séria de Soderbergh incide sobre dois pontos de foco e ambos são traídos pela necessária falta de nuance que este thriller de manicómio exige em termos de tom. Primeiro, temos uma tentativa de criticar o sistema de saúde americano e o modo como este é gerido nas linhas de um negócio, onde dinheiro é sempre posto à frente do bem-estar dos pacientes. Aí, o filme falha hilariantemente, mesmo que ofereça algumas boas cenas às personagens de um subenredo jornalístico. O outro ponto refere-se à crítica de privilégio masculino que presume que se um homem é simpático para uma mulher, ela deve-lhe atenção, afeto, devoção ou algo mais ainda.

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Os esforços de alguns membros do elenco quase salvam o filme.

Aqui, Soderbergh aproxima-se do triunfo, construindo na figura do stalker uma figura tão patética como perigosa, dissecando as suas inseguranças e machismo virulento com gosto e espetáculo. Infelizmente, as reviravoltas do final, onde a pequenez mesquinha deste homem é substituída pela ameaça ominosa de um vilão de slasher com aparentes poderes de teletransporte. Repentinamente, toda a interessante crítica sociocultural do cineasta começa a ruir.

Boas ideias, pesquisas tonais interessantes, registos extremos, tudo isto se mistura no filme que ocasionalmente parece mais um esboço que uma obra final. Isso nunca é mais flagrante que no trabalho do elenco, com atores a explorarem registos diametralmente opostos, do realismo modesto até à estilização gritada de um filme de terror clássico. Juno Temple, por exemplo, parece achar que está num gótico americano que necessita de voluptuosidade grotesca e falas cuspidas como uma adolescente imatura a tentar atuar demência psicossexual. Jay Pharoah, pelo contrário, oferece carisma e calma no meio de uma tempestade de exageros performáticos.

Com tudo isto dito, é Claire Foy, ainda mais que a formidável montagem, quem quase consegue salvar “Unsane” dos seus piores impulsos, em parte porque é na figura de Sawyer, a protagonista, que Soderbergh mais arriscou. Basicamente, ela é uma pessoa incrivelmente abrasiva, arrogante, ocasionalmente cruel e sempre dominada por uma postura e timbre que acima de tudo transmitem irritação e até alguma condescendência. Foy, longe de esconder tais facetas menos simpáticas de Sawyer, exacerba-as, mesmo que acidentalmente como ocorre com o seu pueril sotaque americano que resulta numa articulação enfática de todas as palavras que lhe saem da boca. “Unsane” pode cair em muitos clichés do slasher dos anos 80 que acabam por detrair os seus elementos mais sérios, mas Sawyer nunca é uma final girl banal e a sua mera presença em cena eleva todo o projeto.

Unsane, em análise
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Movie title: Unsane

Date published: 2018-09-05

Director(s): Steven Soderbergh

Actor(s): Claire Foy, Joshua Leonard, Amy Irving, Jay Pharoah, Raúl Castillo, Polly McKie, Sarah Stiles

Genre: Terror, Mistério, Thriller, 2018, 98 min

  • Cláudio Alves - 55
  • José Vieira Mendes - 70
63

CONCLUSÃO

Com uma protagonista, com a qual é difícil simpatizar, a passar por tormentos inimagináveis, “Unsane” é um jogo de empatia deliciosamente complicado. Contudo, como um thriller ou filme de terror com mensagens sociais subjacentes o projeto é um fracasso meio esquizofrénico. No que diz respeito à fotografia nem se fala. Um dos trabalhos menores de Soderbergh.

O MELHOR: Claire Foy.

O PIOR: Juno Temple que, por alguma força maligna tão poderosa que talvez venha a comprovar a existência de Satanás, consegue ser um maior detrimento para o sucesso de “Unsane” que a sua fotografia dolorosamente feia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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