Moullinex

Moullinex à MHD | “Encontrei uma abordagem punk na música eletrónica”

Durante o Rock in Rio Lisboa estivemos à conversa com Moullinex, o ‘alter-ego’ de Luís Clara Gomes, e falamos sobre o início da sua carreira, o seu último álbum e sobre as semelhanças entre o punk e a eletrónica.

É co-criador da editora Discotexas, ao lado de Xinobi, e uma das mais conhecidas referências da música electrónica portuguesa. O seu último álbum “Hypersex” é uma celebração dos ideais da cultura e da música eletrónica, mas Moullinex não o considera “uma bandeira” a este género musical.

Depois de apresentar o seu terceiro disco de originais numa digressão internacional e no Primavera Sound, Moullinex subiu pela primeira vez em nome próprio ao palco do Rock in Rio. Horas antes da sua estreia no Music Valley, falamos com Luís Clara Gomes sobre as suas influências, a escolha pela música eletrónica e pelos ideais deste género musical.

Moullinex

Magazine.HD: Este ano já atuaste no Primavera Sound e agora no Rock in Rio Lisboa. O alinhamento dos concertos é diferente?

Moullinex (M): Sim tenho, porque vou ter convidados no concerto [do Rock in Rio]. Temos os suspeitos do costume – Da Chick e o Xinobi –, mas também Fritz Helder que vai cantar connosco a “Work it Out”, na qual ele canta na música original. Por isso, o alinhamento vai ser diferente.

 

MHD: Tiveste necessidade de o adaptar devido ao público?

M: Para mim, é um desafio com a mesma setlist conquistar o público seja ele qual for.

Hoje em dia, vejo muitos concertos em que os alinhamentos são sempre muito parecidos e há um distanciamento muito grande entre os artistas e o público. Assim, eu tento evitar isso.

 

MHD: Um facto curioso é que antes de seres músico, tiraste o curso de Engenharia e chegaste a exercer funções. Como é que aconteceu a transição da Engenharia para a música?

M: Foi um fade in, fade out. Há algo que me cativa nas duas áreas e é comum em ambas: são áreas que me fascinam como uma criança, na medida em que todos os dias aprendo algo novo.

Antes de seguir a minha paixão queria ter um plano B, um plano de segurança. Felizmente, com a minha música consigo dedicar-me a ela profissionalmente a tempo inteiro. Mas tenho muitas saudades da área de investigação e da astronomia, mas é isto que eu gosto mesmo de fazer.

MHD: Trouxeste algo da engenharia e da astronomia para a música?

M: Sim, a vontade de aprender. Mas também o facto de ser engenheiro informático ajuda-me imenso na produção, estou sempre envolvido nas partes do vídeo e na parte das redes sociais, do site. Faço também alguns softwares para a parte dos instrumentos.

Mas sobretudo o mindset. Aquela maneira de ser, na qual com os recursos que tens tentar conseguir fazer algo que te surpreenda a ti e aos outros.

 

MHD: E por quê a música eletrónica?

M: Era o que estava mais perto para mim. Nunca tive muito jeito para um instrumento em particular. Entretanto aprendi de forma sozinha vários instrumentos, mas não ao ponto de ser virtuoso em nenhum. Mas a eletrónica é a música que me deixa mais em casa.

 

MHD: Ouvias este género de música na tua adolescência?

M: Nem por isso, ouvia mais música com guitarras, muito soul, muito R&B, muita música brasileira – Chico Buarte, Nara Leão. E a eletrónica apareceu depois, só com os The Chemical Brothers e Daft Punk.

Como naquela altura também ouvia muito punk, encontrei uma abordagem punk na música eletrónica: estrutura pequena e independente, que fazia os seus próprios discos, sem depender de grandes máquinas. Isso é uma herança do punk que está bem presente na música eletrónica.

Além disso, nos concertos, os músicos e o público estão muito próximos, situação que é uma herança do punk. Não são precisos muitos instrumentos para tocar punk, e o mesmo acontece atualmente na música eletrónica. Apenas são necessários se quiseres fazer algo com mais nuances, mais layers, o que me encanta.

MHD: O teu último álbum, “Hypersex”, é um disco muito social. Achas importante que a música aborde as temáticas sociais?

M: Sim, a música de dança tem esta herança como movimento social. Foi feita por pessoas que estavam à margem da sociedade e que não encontravam uma associação na sociedade. Foi um espaço não só na música, mas também físico, nas discotecas, em que as pessoas tinham felicidade momentânea.

Mas tornou-se num movimento massificado, com eventos para milhares de pessoas, e essa componente revolucionária da música eletrónica perdeu-se um pouco – o que é normal quando se massifica as coisas. Mas a verdade é que eu sinto que tenho um dever para esta cultura, graças à qual eu tenho uma profissão, e achei que necessitava de fazer um disco a celebrá-la. Mas não é uma bandeira, é uma celebração.

Acho que estas ideais, estes pensamentos têm que estar na frente daquilo que eu faço e a forma como me sentia confortável para fazer isto foi através de um disco.

 

MHD: Nos próximos álbuns tencionas continuar com este ideal?

M: Claro e mesmo nos concertos tento ter uma componente social.

Para mim é muito importante que o concerto seja participativo, que as pessoas fechem os olhos e possam ser levadas para outro lugar.

MHD: Este é um ótimo mote para terminar a nossa entrevista. Muito obrigada! 

Catarina Fernandes

Mestre em Ciências da Comunicação e fotógrafa amadora. Seriófila compulsiva e apaixonada por literatura, assim como pelo cinema e pela sua história. (Extremamente) Viciada em música e concertos.

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