"Mr. Leather" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’20 | Mr. Leather, em análise

O segundo trabalho de Daniel Nolasco a ser apresentado no 24º Queer Lisboa é um documentário irreverente pelo nome de “Mr. Leather”. O filme integra a secção Queer Focus do festival lisboeta.

À medida que nos aventuramos pela programação do Queer Lisboa 24, mais a membrana porosa que separa a Arte da pornografia se torna mais indefinida e transponível. Já antes falámos das alucinações eróticas do “Vento Seco” de Daniel Nolasco, mas agora investigamos uma obra mais antiga do cineasta brasileiro. Em 2018, aquando da feitura do concurso para o Mr. Leather Brasil, o realizador levou a sua câmara à comunidade gay fetichista e documentou a teatralidade da competição que dá nome ao filme.

Contudo, “Mr. Leather” não se trata de uma simples exposição do facto. Seguindo o exemplo dos seus sujeitos de estudo, o filme rende-se ao teatro e ao faz de conta, ao espetáculo do sexo e do figurino de couro. Logo no início, Nolasco propõe uma lição de história sobre as origens do concurso. Ao invés de usar filmagens de arquivo ou fotos dos eventos em si, o cineasta encena tableaux com um ator que a própria narração diz não ser ator. Virado para a câmara, ele não fala, mas lambe os lábios, seduz-nos com o olhar e com os vislumbres de um piercing na língua.

mr leather critica queer lisboa
© Queer Lisboa

Ele é primo de algum membro da equipa do filme que, por ser bonito e ficar bem em cabedal, foi escolhido para representar o fundador da iniciativa. Nolasco brinca com o espetador, chama atenção para o artifício do seu engenho e, de certa forma, convida a audiência a entrar na onda de erotismo teatral tipificado por esta competição. Apesar de ser um documentário, “Mr. Leather” olha para a realidade através do prisma da fantasia e não do jornalismo.

O prólogo assim serve para situar quem vê esta obra num contexto tonal muito específico. Há a seriedade do desejo, mas também humor e uma vontade de celebrar o artifício descarado assim como iconografias marginalizadas pela sociedade e cultura mainstream. Trata-se de um exercício divertido de mitificação e simultânea desmitificação, um holofote que ilumina o glamour de um cenário, mas também nos deixa ver os alicerces inestéticos da construção. É sexy e é entretenimento, informação e júbilo.

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O resto do filme vive nesse estilo e nesses alicerces concetuais, mesmo quando a forma da obra entra num paradigma mais convencional. Apesar de ainda ter alguns devaneios pelo meio, inclusive um sonho cinematográfico com narração ficcionada de Tom of Finland, “Mr. Leather” estrutura-se como um perfil da competição e seus quatro concorrentes. Examinamos a primeira noite da festa e ouvimos palavras do primeiro Mr. Leather Brasil, mas o centro do documentário são os retratos dos pretendentes ao título.

Nolasco peca um pouco pela seriedade sombria da entrevista, mas tem sempre alguns truques na manga para dissipar o mofo da convenção documental. Uma conversa no carro ou num estúdio pode descambar numa fantasia noturna. Fala-se de domínio e submissão e, de repente, entramos num sonho fetichista que leva o couro e o pup play às ruas do Rio de Janeiro. Há assim a vertente direta do testemunho proferido para a câmara, em consonância com algo mais íntimo, algo mais próximo do desejo materializado em cinema.

mr leather critica queer lisboa
© Queer Lisboa

Tudo isto culmina na noite da competição em si, quando o vencedor é anunciado e recebe uma faixa de cabedal para lhe adornar o esbelto torso. Se, no início do filme, nos podíamos dizer desinteressados no fado dos concorrentes, chegada a conclusão estamos a torcer pelo seu sucesso. “Mr. Leather” é um triunfo, mesmo que possa ser um pouco superficial. Há certos temas subjacentes à iconografia do couro e do BDSM que podiam ser mais bem estudados e desenvolvidos. Contudo, isso provavelmente tiraria alguma da leveza do projeto, alguma da diversão. Se temos de sacrificar complexidade em nome da folia, talvez isso seja desculpável uma vez ou duas.

Mr. Leather, em análise
mr leather critica queer lisboa

Movie title: Mr. Leather

Date published: 25 de September de 2020

Director(s): Daniel Nolasco

Actor(s): Dom Barbudo, Leandro Rebello, Heitor Werneck, Francine Zaqui

Genre: Documentário, 2019, 85 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Mr. Leather” tanto diverte como informa. Excita também. Com suas fantasias de cabedal e aço, de fivelas e chicotes, de beijos e orgasmos em público. Daniel Nolasco continua a afirmar-se como um dos grandes cineastas queer da contemporaneidade brasileira. Um artista ousado cujo trabalho seguiremos com interesse.

O MELHOR: Como sempre no cinema de Daniel Nolasco, a fotografia é impecável. Através da câmara orientada por Larry Machado, o mundano torna-se numa fantasia entesada e o mundo do fetiche vira em espetáculo acessível.

O PIOR: A vaga superficialidade deste empolgante documentário.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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