"Race D'Ep!" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’20 | Race D’Ep!, em análise

Este ano, o Queer Lisboa fez curadoria de uma exposição fotográfica inspirada num documentário dos anos 70. “Race D’Ep!”, originalmente estreado em 1979 quando causou escândalo em França, foi exibido na capital portuguesa numa sessão especial que decorreu na Cinemateda Portuguesa.

Guy Hocquenghem e Lionel Soukaz são dois nomes de grande importância na História de estudos queer e no desenvolvimento do cinema LGBT+. Provocadores e inovadores, artistas e pensadores sem medo de ofender ou desafiar os preceitos da sociedade conservadora, os dois franceses colaboraram num marcante filme. Essa obra esteve muitos anos condenada à sentença do esquecimento, algo exacerbado pela deterioração da película e uma alarmante falta de restauro.

Recentemente, a obra tem vindo a ganhar nova notoriedade e a receber alguma da apreciação crítica e académica que sempre mereceu. “Race D’Ep!” ganhou seu nome do insulto, da invetiva homofóbica, mas é o tipo de trabalho que facilmente ofende e escandaliza. Misturando a análise e a teoria, a História de Arte e a pornografia, este documentário dividido em capítulos pretende relatar um século de homossexualidade enquanto preferência, identificação e enquanto cultura.

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© Queer Lisboa

Se as ambições de Hocquenghem e Souzak fossem somente focadas na documentação fatual, talvez “Race D’Ep!” não mereceria tanta atenção. A parelha não se cinge à mera cronologia, contudo, preferindo detalhar duas Histórias paralelas. Segundo o filme, é possível traçar uma comparação direta e associação íntima entre o desenvolvimento da fotografia e a consolidação da identidade queer. Quer dizer, da identidade do homem homossexual branco.

Por muito admirável que os estudos dos cineastas possam ser, há sempre uma miopia virulenta a afetar o organismo do filme. O papel da comunidade trans, de mulheres queer e outras pessoas que tais raramente é observado e ainda menos se ouve falar das vertentes mais racializadas da História LGBT+. Onde está a Renascença de Harlem que ocorreu em compasso espelhado da República de Weimar?

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Enfim, não podemos esperar que um documentário explore todas as facetas de um assunto, mas um simples apontar para a vastidão da cultura queer seria apreciado. Como já mencionámos, “Race D’Ep!” divide-se em capítulos, desde o virar do século até à contemporaneidade da sua feitura nos anos de 1970. Só uma das suas secções considera a existência de outras identidades que não o homem branco homossexual.

Infelizmente, o contexto de tal reconhecimento ocorre quando a obra fala sobre os Nazis e seu processo de catalogação humana e subsequente extermínio. A História LGBT+ raramente foge durante muito tempo da tragédia. A própria vanguarda libertadora dos anos 70 viria a ser vilmente contrabalançada pela crise da SIDA e a ascensão do conservadorismo na década seguinte. Toda esta conversa sobre desgraças e os aspetos problemáticos do documentário não deveria ofuscar suas qualidades.

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© Queer Lisboa

Afinal, temos de admirar um ensaio cinematográfico tão descarado no seu uso de elementos pornográficos. A própria estética do objeto remete para o vídeo porno, para as cores garridas, o grão da película de baixa resolução e a iluminação desequilibrada. Quando se emparelha tal forma com corpos esbeltos, obtém-se um espetáculo de erotismo em nome do intelecto, cinema analítico que tanto estimula o cérebro como entesa outros órgãos.

O assunto pode ser sério e o discurso complexo, mas o espetador é sempre convidado à diversão, ao orgasmo, ao êxtase da carne e da mente, à folia do cinéfilo e do hedonista. É cinema documental numa vertente epicúria, um alerta para a potencial displicência de uma comunidade que nunca devia abandonar o militantismo. É um hino à beleza do corpo masculino, seu potencial erótico, uma canção sobre a doçura de desejar e o prazer de ser desejado. É um filme sobre o nascimento de novas sensibilidades e seu reflexo em formas de arte que ainda não saíram do berço de tão jovens que são.

Race D'Ep!, em análise
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Movie title: Race D'Ep!

Date published: 25 de September de 2020

Director(s): Lionel Soukaz, Guy Hocquenghem

Actor(s): Elizar Van Effenterre, Gilles Sandier, Pierre Stone , Pierre Hahn, Jean Demélier, Yves Jacquemard, Claire Amiard, Hunks Clements

Genre: Documentário, Drama, História, 1979, 95 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Race D’Ep!” é um manifesto sobre a fotografia e a cultura gay, uma análise dos laços que prendem o erótico à identidade queer. Guy Hocquenghem e Lionel Soukaz merecem ser estudados e este documentário é um dos seus mais importantes trabalhos.

O MELHOR: A mistura inebriante do erótico e do académico. É teoria da Arte com mais nudez do que esperaríamos encontrar num ensaio do género.

O PIOR: Os limites do filme quando se refere à identidade queer vista além dos limites do homem branco cis. Por um lado, trata-se de um manifesto radical. Por outro, é tristemente tradicional na sua visão do mundo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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