"Toutes les vies de Kojin" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’20 | Toutes les vies de Kojin, em análise

Toutes les vies de Kojin” é um urgente retrato da homofobia política, social e cultural que se vive nas nações islâmicas do Médio Oriente. Trata-se de um documentário sobre preconceito e dissonância cognitiva, sobre o sofrimento de uns e a desonra de outros. A obra integra a competição de longas-metragens do Queer Lisboa 24.

Alguns anos atrás, o realizador curdo iraniano Diako Yadani emigrou para fora do seu país de origem. Mais especificamente, Yadani vive em França na atualidade. Foi aí, nessa nação europeia, que o cineasta veio a questionar algumas das crenças fundamentais que haviam orientado o modo como via o mundo. Lá, Yadani veio a conhecer, pela primeira vez, pessoas abertamente gay, indivíduos que muitos islâmicos denigrem como contranatura, doentes ou pecadores.

Na sua posição enquanto um aliado hétero da comunidade LGBT+, Diako Yadani propôs-se a regressar ao Irão, documentando sua viagem em forma de filme. Acompanhado pela sua leal câmara, ele interroga os preconceitos da população curda, entra em diálogos religiosos e tenta mostrar como uma nação pode ser homofóbica tanto ao nível das instituições como da perceção individual da realidade. Dizemos isto pois, para muitas das pessoas que Yadani entrevista, parece que a homossexualidade não existe no Irão.

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© Queer Lisboa

Tal dissonância cognitiva é ainda mais evidente quando o filme confronta essas mesmas pessoas com a prova viva de que estão erradas. Yadani não faz a sua odisseia de descoberta acompanhado somente com o equipamento de filmagens. Ao seu lado está Kojin, um jovem de 23 anos cujo nome dá título a “Toutes les vies de Kojin”. Tal como o realizador, ele provém da comunidade curda do Irão, mas Kojin é assumidamente homossexual.

Há tanto génio como há crueldade no modo como o filme coloca Kojin na linha da frente do ódio. Por um lado, vermos este afável rapaz ser exposto a tanto desrespeito e abuso dissimulado de tolerância, dá uma necessária dimensão humana aos problemas sociais do Irão moderno. Os temas do filme jamais caem no abstrato desumano quando Kojin está lá para dar a cara. Contudo, não é fácil observar o sofrimento humano espelhado no ecrã, nem mesmo quando a dor é escondida atrás de um sorriso educado.

Afinal, a homofobia raramente se expõe em despida agressão, mesmo num país como o Irão. Antes de ouvirmos um homem irritado dizer que mataria o irmão se este fosse gay, vemos muita bondade com uma lâmina escondida. Homens religiosos, em particular, são peritos em traçar medo e ódio com palavras doces. Quando Kojin lhes fala, eles ripostam com preocupação, com a simpatia falsa de quem diz que, antes de se recorrer ao homicídio por honra, se tenta a cura.

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Numa das passagens mais acutilantes da obra, Kojin fala com um grupo de homens heterossexuais da comunidade curda no Irão. A cena toma a forma de uma espécie de fórum de discussão pública, mas os ânimos rapidamente se levantam. É daí que vem a história do homem que cometeria fratricídio em nome da homofobia. O que fascina aí é como há heterogeneidade de opiniões, mas até nas palavras dos mais tolerantes se denotam os sintomas de uma educação que sempre pintou o homossexual como um “outro”, uma anomalia, um monstro.

“Toutes les vies de Kojin” não é daqueles filmes que se recomendam levemente. Ver o filme é doloroso e pode causar raiva, tristeza e um sentimento de asfixia moral. A indignação amontoa dentro de nós e só há vontade de abraçar Kojin e seus amigos queer que vivem no Irão também. Esses outros marginalizados que não mostram a câmara em frente à câmara, amedrontados com a potencial retribuição violenta caso sua identidade se tornasse pública. Este é um daqueles filmes que pode por em risco as vidas de quem o fizeram.

Como nota final, gostaríamos de felicitar a obra por não ser cegamente antipatriótica. Seria fácil para Yadani pintar o Irão com um verniz de desassossego simples e poderoso, estabelecendo um contraste com a Europa que beneficiaria em demasia este velho continente. É quiçá verdade que somos mais tolerantes para com a comunidade LGBT+ nesta zona do mundo, mas a igualdade tem limites até na Europa.

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O epílogo trágico de “Toutes les vies de Kojin” mostra-nos o jovem protagonista do documentário vivendo como um refugiado em busca de asilo. Nem mesmo o facto de que a sua sexualidade o põe em risco no Irão parece suficiente para que as autoridades europeias lhe deem abrigo, relegando-o a viver num campo de refugiados, vítima do preconceito de outros emigrantes árabes assim como dos europeus xenófobos. A igualdade de nada serve enquanto valor político se for limitada a só alguns membros da população. Ou todos são iguais ou ninguém é. Ou todos são livres ou ninguém é.

Toutes les vies de Kojin, em análise
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Movie title: Toutes les vies de Kojin

Date published: 25 de September de 2020

Director(s): Diako Yazdani

Genre: Documentário, 2019, 88 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Toutes les vies de Kojin” é um importante documentário político que todos deviam ver. Diako Yazdani pode não primar pelo engenho audiovisual, mas seus instintos jornalísticos são louváveis.

O MELHOR: A resiliência heroica de Kojin, mesmo face à adversidade. Isso e o balde de água fria que o epílogo acaba por ser para as audiências europeias.

O PIOR: Como muitos documentários semelhantes, há uma enorme displicência formal que prejudica os argumentos sólidos de “Toutes les vies de Kojin”. O exposé não tem de ser inestético. O poder da linguagem formal poderia ter ajudado Yazdani a elevar o seu filme a outro patamar de qualidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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