Jessica Chastain em "Mulher Que Segue à Frente" © NOS Audiovisuais

Mulher Que Segue à Frente, em análise

Jessica Chastain viaja pelas planícies pitorescas do Oeste Americano em busca de liberdade e justiça em “Mulher Que Segue à Frente”, um drama histórico da realizadora Susanna White.

No panorama do cinema sobre os povos nativos-americanos, o complexo do salvador branco é terrivelmente comum. Referimo-nos ao fenómeno caracterizado por histórias em que a audiência é convidada a simpatizar com alguma minoria étnica, mas somente através da perspetiva de um protagonista caucasiano cujas ações servem como salvação, ou mesmo só inspiração, para essas mesmas minorias. “Danças com Lobos” é o suprassumo exemplo disto mesmo, mas não é nem por sombras o único. Afinal, temos agora nos cinemas mais um exemplo do fenómeno, com “Mulher Que Segue à Frente”, um filme biográfico sobre a pintora suíço-americana Catherine Weldon.

Ela que, em 1890 e segundo o filme, foi praticamente a singular responsável pelo envolvimento do Chefe Touro Sentado no movimento político conhecido como A Dança dos Fantasmas. O que fascina neste retrato histórico é quanto os cineastas manipulam os factos para exacerbar o papel crucial desta mulher na reivindicação de direitos pelos povos nativo-americanos, mas também altera a verdade histórica de modos que menorizam o seu papel, como que tentando inocular a sua agência política e a relação que as suas ações possam ter tido no Massacre de Wounded Knee, um dos capítulos mais vergonhosos na relação entre o governo dos EUA e seus povos indígenas.

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Com suas magníficas paisagens, o filme parece uma pintura viva.

Por exemplo, na realidade, Weldon viajou até ao Dakota do Norte como parte Associação Nacional de Defesa Índia. No entanto, no filme, ela é explicitamente apontada como não pertencente a esse a grupo ativista e as suas motivações para a viagem e relação com Touro Sentado são muito mais exotéricas. Se acreditarmos nesta narrativa, depois de anos presa a um casamento infeliz, a artista recentemente enviuvada decidiu pintar o famoso Chefe Sioux depois de ter visto a beleza e magnificência dos povos indígenas em pinturas de outro colega seu. Pinturas essas, em que Weldon perscrutou o tipo de liberdade absoluta que passou toda a vida a procurar.

Pela sua parte, Jessica Chastain e a realizadora fazem o que podem para justificar tais manipulações textuais da História. A atriz, que tem passado grande parte da sua carreira a defender valores feministas, pega no não-conformismo da personagem e quase força o espectador a entender a sua luta interna e externa contra o status quo social. Durante um monólogo em que Weldon fala da sua relação com um pai tirânico que a queria quebrar, como a um cavalo rebelde, Chastain é especialmente boa, trazendo absoluta sinceridade a palavras que, nas mãos de outra atriz, poderiam transpirar a natureza calculada do proto feminismo comercial de Hollywood que de feminismo pouco ou nada tem.

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No que diz respeito aos esforços da realizadora Susanna White, o principal veículo da legitimação de Weddon enquanto protagonista e figura romantizada da História é a abordagem formalística que torna o olhar apaixonado da pintora no filtro pelo qual audiência experiencia o Velho Oeste americano. Logo num momento inicial, quando Weddon primeiro vislumbra as paisagens majestosas do Dakota através da janela do comboio, a realizadora dá tanta atenção ao gesto e olhar contemplativo da atriz como à materialização do esplendor paisagístico, efetivamente forçando-nos a ponderar o modo como a pintora vê o mundo e depois maravilhando-nos com essa mesma perspetiva. Escusado será dizer que, com tal narrativa e as paisagens naturais americanas, “Mulher Que Segue à Frente” parece uma pintura viva.

Se a determinação de Chastain e a beleza pictórica no trabalho do diretor de fotografia Mike Eley são as grandes mais-valias do filme, tal não significa que sejam as suas únicas qualidades. O resto do elenco deste docudrama é tão ou mais admirável que a protagonista obstinada, tendo de dar vida a um conflito sociopolítico a que Weddon tem o privilégio de abordar enquanto observadora heróica. Do lado dos nativos-americanos, Michael Greyeyes retrata Touro Sentado com uma inspirada mistura de modéstia e carisma, sugerindo tanto um homem comum que em nada reflete a grandiosidade mítica da História, assim como o líder imortalizado pelo seu legado. A sua química com Chastain produz aqueles que são os melhores momentos do filme.

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O filme mistura romantismo de Hollywood com desavergonhada manipulação histórica.

Do outro lado do conflito entre os nativos-americanos e o Governo decidido a aniquilar o seu legado histórico e adquirir os seus territórios ancestrais, o filme apresenta-nos um grupo de agentes militares e governamentais, com Ciarán Hinds, Sam Rockwell e Bill Camp em posições de destaque. Os atores são todos bem aptos às exigências dos papéis, mas pouco fazem para aprofundar o que texto sugere. Pelo menos no que se refere a Camp, o ator sacrifica subtileza em nome de uma presença pesada e uma quietude venenosa que muito fazem para dar dramatismo necessário a um filme que, à medida que avança para a sua conclusão, mais amorfo fica.

Chegado o fatídico final, que posiciona “Mulher Que Segue à Frente” como uma espécie de prólogo ao Massacre de Wounded Knee, White há muito perdeu controlo da coerência tonal do filme, não conseguindo nem construir um retrato do facto histórico ou uma romantização dramática do mesmo. Com isso dito, é o seu tratamento dos elementos políticos que o texto tanto tenta ignorar que salta à vista. White não nos dá nenhum tipo de mecanismo pelo qual ler uma resolução moral definitiva nos acontecimentos do filme. Recusando-se a defender o status quo, ou a celebrar a violação do mesmo, considerando as suas consequências sangrentas. É nesta ambivalência moral que o filme deixa a sua audiência e aí manifesta o mais obstinado e arriscado dos seus gestos, pois é raro o projeto americano que ousa olhar para a História e nela apenas encontrar questões cujas respostas ainda hoje em dia são impossíveis de encontrar.

Mulher Que Segue à Frente, em análise
Mulher que Segue à Frente

Movie title: Woman Walks Ahead

Date published: 2018-09-06

Director(s): Susanna White

Actor(s): Jessica Chastain, Michael Greyeyes, Sam Rockwell, Ciarán Hinds, Rulan Tangen, Bill Camp, Chaske Spencer

Genre: Biografia, Drama, História, 2017, 101 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO

“Mulher Que Segue à Frente” é um filme a transbordar de boas intenções que, infelizmente, se deixa cair em poços de desnecessária manipulação histórica e romantismo antidramático. Um elenco empenhado e uma construção visual que exacerba a beleza das paisagens naturais elevam o filme acima da mediocridade do drama histórico comum.

O MELHOR: A fotografia que torna as planícies em pinturas vivas e noites cheias de neve em paisagens oníricas. Do lado dos atores, gostaríamos ainda de destacar um nome não referido na crítica, em si, Rulan Tangen. Ela interpreta uma mulher nativa que, pelos laços do matrimónio, se encontra na difícil posição de estar do lado do Governo no conflito territorial, algo que a atriz telegrafa com tanto desconforto visível como uma constante aura de solene dignidade.

O PIOR: A banda-sonora monstruosamente banal e as manipulações históricas que somente tornam o filme numa história menos interessante que a complicada realidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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