©20th Century Studios

Em “Na Companhia das Estrelas” (The Dog Stars), Jacob Elordi sobrevive a uma pandemia, à culpa, à solidão e aos outros seres humanos. Ridley Scott troca os grandes impérios por um aeródromo abandonado, um velho avião e um cão chamado Jasper. O resultado não é um grande filme, mas sabe exactamente onde encontrar alguma humanidade depois do fim do mundo.

Ridley Scott tem 88 anos e continua a filmar com a pressa de quem suspeita que a reforma é apenas outro nome para os créditos finais. Em Na Companhia das Estrelas, contudo, não precisa de imperadores, exércitos romanos, extraterrestres nem cidades futuristas. Dá-lhe um pequeno aeródromo no Colorado, um velho Cessna, algumas armas, meia dúzia de sobreviventes e, sobretudo, um cão. Às vezes chega.

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Baseado no romance The Dog Stars, de Peter Heller, publicado em 2012, o filme passa-se em 2035, depois de uma epidemia de gripe ter eliminado grande parte da população mundial. Hig (Jacob Elordi, de Frankenstein, 2025) era mecânico e piloto. Agora vive com Bangley (Josh Brolin, de Este País Não É para Velhos, 2007), antigo militar e sobrevivencialista profissional antes mesmo de o mundo precisar de sobrevivencialistas.

Os dois partilham o espaço, os mantimentos e uma amizade que nenhum deles parece interessado em admitir. Bangley tem armas suficientes para iniciar uma pequena guerra civil e uma filosofia bastante simples: primeiro dispara-se, depois logo se vê quem era. Hig ainda conserva uma característica extremamente perigosa naquele mundo: curiosidade pelos outros. E tem Jasper.

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Um homem, um cão e aquilo que ficou para trás

Jasper é muito mais importante para Na Companhia das Estrelas do que boa parte das personagens humanas. Para Hig, não é apenas companhia. É memória. Antes da epidemia, Hig já tinha perdido um filho e depois a mulher, gravemente doente, cuja máquina teve de desligar. A catástrofe mundial chega, portanto, a um homem que já transportava a sua catástrofe privada. Sobreviveu ao vírus, mas não conseguiu sair intacto do passado. É por isso que aquelas cenas aparentemente insignificantes de Hig deitado na relva com Jasper, olhando para as estrelas, dizem mais sobre a personagem do que muita explicação do argumento. O cão é o último elo com uma vida que desapareceu. Uma espécie de filho, amigo, confidente e testemunha silenciosa de tudo aquilo que já não existe.

Jacob Elordi percebe isso e não tenta transformar Hig num Mad Max mais bem-comportado. A personagem tem armas, sabe matar e pilota um avião, mas continua vulnerável. Há culpa, melancolia, necessidade de movimento. Hig voa porque ficar parado significaria talvez começar a pensar demasiado. O Cessna torna-se assim o verdadeiro cavalo deste western pós-apocalíptico. Hig sobrevoa o território, procura mantimentos, observa quem se aproxima e mantém contacto com uma comunidade agrícola sobrevivente. Até ao dia em que uma voz no rádio lhe indica que pode existir alguma coisa para além daquele pequeno universo. E parte. Claro que isto é cinema e ninguém atravessa as Montanhas Rochosas apenas para encontrar pessoas simpáticas à espera com café quente.

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Depois da Covid, o apocalipse mudou de morada

Ridley Scott não queria fazer mais um filme de zombies. Disse-o claramente. E durante boa parte do filme consegue evitá-lo. Depois aparecem os Reapers, bandos de saqueadores que avançam, atacam, cercam e matam com uma energia suficientemente próxima de uma horda de mortos-vivos para percebermos que os zombies, afinal, continuam por ali. Só não estão mortos. Talvez seja essa uma das ideias mais interessantes do filme. Quando desaparecem o Estado, a polícia, os tribunais, os supermercados e a vizinhança organizada no WhatsApp, a civilização pode transformar-se muito rapidamente na lei de quem tem a espingarda maior. Bangley percebeu isso antes de todos. Mas existe outro elemento que torna Na Companhia das Estrelas bastante mais perturbador hoje do que seria quando Peter Heller publicou o romance em 2012. A Covid-19 aconteceu. Durante décadas o cinema ensinou-nos a imaginar o fim da Humanidade através da bomba nuclear, do meteorito, da invasão extraterrestre, da alteração climática ou do monstro que acordou no fundo do oceano. A pandemia de 2020 acrescentou uma hipótese menos espectacular e bastante mais plausível: um vírus.

A Covid não esteve sequer perto de exterminar a Humanidade, mas mostrou com impressionante rapidez como aeroportos podem fechar, ruas podem ficar vazias, fronteiras podem desaparecer atrás de barreiras e populações inteiras podem aprender a desconfiar de um simples contacto humano. Por isso, quando Scott mostra um mundo esvaziado por uma epidemia, já não estamos exactamente no território confortável da ficção científica. Reconhecemos demasiadas coisas. O fim do mundo tornou-se um pouco menos ficção.

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Bonito demais para o fim do mundo

Scott também toma uma decisão visual inteligente: não transforma o planeta numa eterna fotografia cinzenta. A natureza continua magnífica. Há montanhas, vales, florestas, céu aberto, campos verdes. O planeta não morreu. Nós é que quase desaparecemos.

Visto em IMAX, o contraste funciona particularmente bem. Quanto menos pessoas existem, maiores parecem os espaços. A fotografia faz daquele Colorado recriado em parte na paisagem italiana um território simultaneamente belo e ameaçador. A banda sonora de Harry Gregson-Williams habitual colaborador de Scott, ajuda muito. Guitarras, cordas, silêncios, motores e uma melancolia quase de western acompanham a viagem sem tentar transformar cada emoção numa ordem dirigida ao espectador. Até o ruído do Cessna acaba por fazer parte da música: enquanto aquele motor funciona, Hig continua em movimento.

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Quando Margaret Qualley, de A Substância (2024), surge como Cima, abre-se finalmente outra possibilidade. Não apenas a sobrevivência, mas a vida. Hig pode voltar a confiar, desejar, gostar, talvez amar. E é aí que o filme deixa de ser apenas sobre quem escapou a uma epidemia. Passa a ser sobre quem consegue escapar à solidão.

O argumento de Mark L. Smith  (o argumentista também de The Revenant: O Renascido) nem sempre ajuda. Explica demasiado algumas coisas, apressa outras e, quando resolve carregar na acção, aproxima o filme perigosamente de dezenas de histórias pós-apocalípticas que já vimos. Scott filma tiroteios e ataques nocturnos com a eficácia habitual, mas Na Companhia das Estrelas é muito melhor quando guarda as armas e deixa Hig olhar para o céu. Não é um dos grandes Ridley Scott. Nem precisa de ser. É um filme irregular, por vezes demasiado convencional, outras vezes inesperadamente íntimo, que encontra a sua melhor ideia num homem traumatizado, num avião que ainda consegue voar e num cão que continua a acompanhá-lo. Porque depois de uma pandemia exterminar quase toda a Humanidade, talvez a verdadeira vitória não seja continuar vivo. Talvez seja voltar a precisar de alguém.

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  • José Vieira Mendes - 60

Conclusão:

  • Na Companhia das Estrelas não é um dos grandes filmes de Ridley Scott, mas está longe de ser um exercício menor ou descartável. É irregular, por vezes demasiado previsível e excessivamente dependente de códigos que o cinema pós-apocalíptico já gastou até à exaustão. Ainda assim, encontra força quando abandona a mecânica do género e se concentra em Hig, Jasper e nessa ideia simples de que sobreviver não chega. É preciso voltar a confiar, voltar a desejar companhia e aceitar que o risco de perder alguém é também o preço de continuar vivo. Scott percebe isso e, aos 88 anos, continua pelo menos a procurar alguma coisa para dizer sobre os seres humanos.
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  • A relação entre Hig e Jasper, a fotografia das paisagens, a banda sonora de Harry Gregson-Williams e a forma como o filme transforma o apocalipse numa história sobre solidão, memória e necessidade de comunidade.

Cons

  • Um argumento demasiado convencional, que explica em excesso algumas ideias e, quando aposta na acção, aproxima o filme de muitos outros títulos pós-apocalípticos que já vimos melhores.

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