The Revenant: O Renascido, em análise

 

O sexto filme de Alejandro González Iñárritu interpretado por Leonardo DiCaprio é uma obra de arte, que pode levar o mexicano a ganhar consecutivamente em dois anos os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador e a consagrar pela primeira vez o talento e maturidade de um dos atores mais incompreendidos de Hollywood.

 

FICHA TÉCNICA

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Título Original: The Revenant
Realizador: Alejandro G. Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy,  Will Poulter, Domhnall Gleeson.
Género:  Drama
Big Pictures | 2015 | 156 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

Com ‘The Revenant: O Renascido’, o mexicano Alejandro G. Iñárritu tornou-se definitivamente um cineasta global. Longe vai o tempo do inesperado e notável ‘Amor Cão’, uma história passada na cidade do México, e uma bem sucedida colaboração com o argumentista Guillermo Arriaga, que se prolongou pelos filmes seguintes de Iñarritu e terminou antes de ‘Biutiful’. E se havia qualquer dúvida sobre os Óscares do ano passado para ‘Birdman (A Inesperada Virtude da Ignorância) e para o talento do realizador mexicano, sem o seu argumentistas de eleição, ela ficou definitivamente encerrada, com ‘The Revenant: O Renascido’, a segunda colaboração curiosamente com o director de fotografia Emmanuel Lubezki (já tinham trabalho juntos em ‘Birdman’) e a primeira com Leonardo Di Caprio, o actor que talvez mais Óscares tem dado a ganhar aos realizadores com que trabalha, sem efectivamente ele próprio nunca ter ganho nenhum. Certo é que a carreira de 15 anos de Alejandro G. Iñárritu, está sólida que nem uma rocha em Hollywood e o cineasta pode ficar na história dos Óscares por se tornar o primeiro cineasta a ganhar em dois anos consecutivos o Óscar de Melhor Filme e Melhor Realizador.    

The Revenant
Um dos filmes mais difíceis da carreira.

‘…Leonardo Di Caprio, o actor que talvez mais Óscares tem dado a ganhar aos realizadores com que trabalha, sem efectivamente ele próprio nunca ter ganho nenhum.’

Numa América profundamente selvagem, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador de peles é atacado e ferido gravemente por um urso. Abandonado pelos seus companheiros é deixado às portas da morte. Mas Glass recusa-se a morrer. Ferido mas impulsionado pelo amor que dedica a memória da sua esposa e do seu filho barbaramente assassinado, Glass enceta uma dolorosa viagem de mais de 300 km num ambiente hostil e gelado, no rasto de Fitzgerald (Tom Hardy), o homem que o traiu. A sua sede de vingança vai transformar-se numa luta heróica para enfrentar todos os obstáculos, regressar a casa e encontrar a redenção.

Ver Trailer de ‘The Revenant: O Renascido

‘The Revenant: O Renascido’ é um belo filme, tecnicamente perfeito e complexo, que obedece a uma linha narrativa simples de fios muito finos e muito próximos de um conto bíblico. Por essa razão é uma obra que pode ter vários níveis de leitura. Pode traduzir-se numa simples história de vingança, passada num contexto épico e de aventura; num filme que deslumbra pelas suas imagens e silêncios ou pela natural identificação do espectador com um homem só e perdido nas florestas geladas, lutando pela sobrevivência; uma viagem sensorial, que nos faz sentir as flechas assobiando atrás das orelhas como nos western ou um imenso mergulho de vida, com conto existencialista que mostra a vastidão do mundo, a natureza humana, a nem sempre pacífica relação do homem com a natureza e mais uma procura de respostas para as grandes questões que o seres humanos fazem desde o início dos tempos. ‘The Revenant: O Renascido’ é um filme com várias dimensões e sobretudo ao nível da cosmogonia e do realismo fantástico (algo sempre presente na ‘cultura ameríndia) onde as respostas parecem surgir nas respirações e nos silêncios de DiCaprio, o homem que renasce a partir da barriga de um cavalo.

The Revenant
Um western com índios mas sem cowboys.

‘… é um filme com várias dimensões e sobretudo ao nível da cosmogonia e do realismo fantástico, algo sempre presente na ‘cultura ameríndia…’

É quase sem diálogos, que Leonardo DiCaprio desempenha com expressividade e esforço (diga-se em abono da verdade e mesmo à custa dos ‘stunts’, o actor deu o corpo ao manifesto!) a jornada de Hugh Glass, um homem que perdeu tudo e sobrevive para tentar fazer justiça, a si próprio, ao seu filho e à memória da mulher amava. Quando um homem simples perde tudo é capaz de olhar para o mundo com reverência e interrogar-se mais sobre o sentido das coisas: desfrutar de uma fogueira que o aquece na paisagem gelada, do floco de neve que cai na língua e mata a sede, com a chegada de um estranho que o ajuda e o faz sentir a emoção limite de comer carne crua com as mãos, para matar a fome. À primeira vista nesta viagem de volta da morte tudo parece horrível e não haver lugar para a bondade humana, alegria ou redenção. No entanto, é na dor mais profunda e no sofrimento de um homem que ‘The Revenant: O Renascido’, e Iñárritu nos fazem sentir uma profunda beleza e magia. Na sua essência ‘The Revenant: O Renascido’ faz lembrar ‘Apocalypse Now’, os filmes de Werner Herzog ou Akira Kurosawa e ‘Gravidade’, do realizador (mexicano) Alfonso Cuarón, um filme com argumento simples que se desenvolve igualmente num contexto de uma situação limite e redentora.

‘The Revenant: O Renascido’, são pouco mais de duas emocionantes horas e meia e depois um fascinante passeio através das belas paisagens das florestas, montanhas rochosas e geladas da América do Norte (algumas das cenas por razões climatéricas tiveram que ser feitas a Sul na Patagónia argentina) fotografadas com uma técnica quase sem paralelo, e ao mesmo tempo uma viagem selvagem e tensa sobre a natureza e a maldade humana, sempre numa escalada de emoções acompanhada ao ritmo da banda sonora de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto. É verdade que se trata de um filme de excessos  mas depois de uma escalada de emoções ao longo dos primeiros cem minutos de situações cada vez mais extremas, rígidas e sanguinárias, chega-se a um momento em que se deixa de sentir e sofrer com tantas atrocidades e tudo nos parece normal, como para o protagonista.

Tom Hardy, um brilhante mau-da-fita.
Tom Hardy, um brilhante mau-da-fita.

‘…uma viagem selvagem e tensa sobre a natureza e a maldade humana, sempre numa escalada de emoções…’

Leonardo DiCaprio e Tom Hardy (igualmente brilhante e com justiça nomeado para Melhor Actor Secundário), fazem o jogo dos antagonismo que culmina num extraordinário duelo final, cru, emocional e selvagem, um duelo entre o bem e o mal, já que a vingança está nas mãos de Deus.

O filme, senão tivesse Leonardo Di Caprio como protagonista, nem as doze nomeações aos Óscares é tão radical que decerto não teria tanto apelo comercial. Contudo ‘The Revenant: O Renascido é acima de tudo um convite ao espectador para se reconciliar com o grande cinema de Hollywood, isto é para renascer como pioneiros nas montanhas rochosas, para desfrutar e experimentar uma pequena história humana, para se emocionar com uma história de amor paternal, num contexto espetacular, com índios e sem cowboys. E depois é um filme que pode ser visto segundo a perspectiva humanista de sermos tão infinitamente pequenos que bem poderíamos estar mais gratos pela imensidão e generosidade da natureza que nos acolhe. Nesse aspecto ‘The Revenant: O Renascido’, além de um filme ecologista e que reforça o respeito pelas civilizações indígenas é um grande hino à Vida.

 

THE REVENANT: O RENASCIDO | CURIOSIDADES

The Revenant

De Park Chan-wook para Iñarritu: Depois de passar pelas mãos do realizador coreano Park Chan-wook (‘Old Boy-Velho Amigo’), do australiano John Hillcoat (‘A Proposta’) e do francês Jean-François Richet (‘Inimigo Público’), o filme acabou por ser dirigido por Alejandro González Iñárritu, cujo nome é mencionado desde 2011.

O elenco inicial: Christian Bale esteve a dada altura ligado ao projecto, para o papel de Hugh Glass quando John Hillcoat era para fazer o filme, tal como Samuel L. Jackson voltando a ser Bale quando Park Chan-wook foi considerado para ser o realizador. O papel de Tom Hardy foi, entretanto, proposto principalmente a Sean Penn, que teve que se retirar por causa de horários considerados incomportáveis, com a produção.

O filme mais caro de Iñárritu: O orçamento do filme é estimado em $135 milhões de dólares, sendo o filme mais caro dirigido por Alejandro González Iñárritu, e muito longe, de ’21 Gramas’ (20 milhões), ‘Babel’ (25 milhões), ‘Biutiful’ (35 milhões) e ‘Birdman’ (18 milhões) .

E vão 3 western!: Leonardo DiCaprio está a participar pela terceira vez num western desde que recentemente participou em ‘Django Libertado’ (2012), de Quentin Tarantino, bem como ‘Morto ou Vivo’ em 1995 com Sharon Stone, Gene Hackman e Russell Crowe .

Juntos de novo: marca o reencontro dos dois atores Leonardo DiCaprio e Tom Hardy que interpretaram ‘A Origem’, o filme de Christopher Nolan, em 2010.

Adaptação do real: O filme é uma adaptação do romance de mesmo nome do escritor Michael Punke que incide na história verídica do caçador Hugh Glass brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos companheiros. Desde 2001 que a idéia de adaptar o romance surgiu pela primeira vez quando o produtor Akiva Goldsman  decidiu produzir o filme.

Uma escolha difícil: Estava previsto Leonardo DiCaprio vestir a pele de Steve Jobs, interpretado por Michael Fassbender, o seu grande concorrente na nomeação ao Óscar de Melhor Actor. DiCaprio optou por Hugh Glass e ‘The Revenant: O Renascido’ e fez bem porque o galardão dificilmente lhe fugirá das mãos. Mas mesmo assim vamos ver se é desta!

Um dos trailer mais vistos: Em apenas 36 horas, o trailer do filme foi visto mais de 7 milhões de vezes.

Um filme semelhante: Um western chamado ‘Man in the Wilderness’ (Fúria Selvagem) de 1971, dirigido por Richard C. Sarafian, com argumento de Jack DeWitt, música Johnny Harris, com Richard Narris e John Huston no elenco passado em 1820, no território indígena, quando um homem, ferido por urso, é abandonado pelos seus companheiros, caçadores de pele, que fogem, temendo a chegada do inverno. Como no livro e no filme de Alejandro González Iñárritu, em seguida, este homem procura a vingança nos seus ex-companheiros, enquanto sobrevive na natureza. Mas não se trata de uma adaptação ou remake, os personagens não têm sequer os nomes do romance de Michael Punke.

Uma rodagem complexa: O filme teria normalmente, de acordo com plano de filmagens inicial, 80 dias de rodagem, mas na verdade esta foi sendo distribuída ao longo de nove meses por causa do clima imprevisível, do afastamento dos lugares diferentes de filmagens, (estava a ser rodado em Calgary, no Canadá, mas a produção teve de se mudar para a Argentina em busca de neve), mas especialmente, devido a tenacidade e perfeccionismo do realizador e do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki em conseguirem uma luz real, para acentuar o realismo das cenas.

The Revenant

Tom Hardy forçado a abandonar ‘Esquadrão Suicida’: O período de filmagens aumentou substancialmente e Tom Hardy foi forçado a abandonar o elenco de ‘Esquadrão Suicida’, de David Ayer, pois ele tinha que estar presente, para terminar o filme de Alejandro González Iñárritu.

Nos EUA foi proibido menores de 17 anos: A MPAA (Motion Picture Association of America) atribuiu a classificação R (proibido a menores de 17 anos não-acompanhados) ao filme de Alejandro González Iñárritu para. Além de alguns palavrões e breve momentos de nudez a comissão apontou principalmente para os pesados combates entre caçadores e índios, a ‘agressão sexual’ e ‘imagens sangrentas’.

O filme mais difícil da carreira de DiCaprio: foi o próprio actor que o considerou como o filme ‘mais difícil de sua carreira’ O ator disse que andou por ‘dentro e por fora de rios congelados’, e até ‘dormiu em carcaças de animais’, além de ‘regularmente ter comido fígado de búfalo cru’.

A inspiração para os figurinos: para desenhar os figurinos do filme, a figurinista Jacqueline West inspirou-se nas pinturas e esboços de dois pintores famosos da época: Alfred Jacob Miller, que se instalaram nas montanhas rochosas em meados do século XIX e foi o um dos poucos artistas a capturar o quotidiano desse período; e Karl Bodmer, um pintor suíço famoso pelos seus retratos de índios, particularmente da tribo Mandan no Dakota do Sul.

 

Consulta Também: Guia das Estreias de Cinema | Novembro 2015

 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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