Neruda, em análise

Pablo Larraín volta a mostrar que é um mestre do cinema moderno ao tornar Neruda num dos mais bizarros exercícios históricos que já passaram no grande ecrã.

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Nos tempos que correm é raro encontrar um realizador que consiga estrear dois filmes no mesmo ano. Acrescentamos a isso, o facto de que os filmes em questão são obstinadas obras-primas e a raridade apenas aumenta. Se considerarmos ainda que ambos esses triunfos estão superficialmente incluídos no odioso subgénero cinematográfico que é o docudrama biográfico, então chegamos a um patamar de raridade tão rarefeito que se o mundo fosse justo o realizador em questão já estaria a ser considerado como um dos indiscutíveis mestres modernos da sétima arte. Para alguns críticos e cinéfilos, o chileno Pablo Larraín é isso mesmo, mas, infelizmente, existem tantas outras pessoas que ignoram a sua miraculosa genialidade, mesmo depois de terem experienciado Jackie e Neruda.

Ambos os filmes estão, de momento, nos cinemas portugueses, oferecendo duas visões loucamente inspiradas do que pode ser o cinema biográfico fora dos padrões convencionais do mesmo. Já anteriormente se falou na natureza de Jackie enquanto um retrato cubista da viúva de John F. Kennedy (vem ler a nossa análise), mas, se possível, o trabalho de Larraín sobre a figura do poeta, político chileno e ativista comunista Pablo Neruda é ainda mais peculiar. Na sua essência, poderíamos caracterizar Neruda como um filme que, apesar do seu título, pouco tem que ver com uma documentação factual da vida da figura histórica e é, pelo contrário, uma espécie de desconstrução pós-moderna da própria ideia de dramatizar personalidades históricas no cinema. Para além de tudo isso, também tem ares de divertido thriller policial com uma boa dose de humor negro.

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Não queremos com esta descrição sugerir que Neruda é um objeto artístico de impenetrável densidade intelectual ou que é uma provocação descompensada e indisciplinada. Aliás, quando tem início, o filme parece ir ser uma mostra de virtuosismo técnico e ousadia política da parte de Larraín. Mais especificamente, a cena de abertura de Neruda propõe à audiência uma cena de agressivo debate político no seio do Senado chileno em 1948, que é filmada pela câmara de Larraín num registo de vistoso plano sequência em constante movimento e encena as fogosas trocas de palavras no insólito cenário de uma casa de banho faustosa. Política entre dejetos e formalidade cinemática elegante – é um ótimo começo, mas nada de verdadeiramente estranho ou inovador.

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Pouco depois destes eletrizantes momentos iniciais, que nos apresentam a crise política e crescente perseguição anticomunista sentidos no Chile da época, é que Larraín nos começa a dar indicações de que não estamos perante nenhum filme biográfico comum. Para começar, temos a bizarra construção de diálogos estilhaçados em sequências de planos que desobedecem a quaisquer regras de continuidade espacial, tonal ou estética. Por exemplo, uma conversa entre Neruda e o líder do Senado começa com uma conversa dentro de um mausoléu de luxo aristocrático rodeado por outras pessoas mas, dentro da mesma frase, corta para uma escadaria onde os dois homens falam encobertos por sombras, antes de, ainda na mesma conversa, Larraín cortar para um plano geral no meio do Senado vazio.

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Tal mecanismo sugere imediatamente que o realizador está interessado em explorar ritmos idiossincráticos e a própria forma de apresentar estes diálogos históricos. Mas esse é somente o primeiro sinal de experimentação, pois Neruda perde qualquer hipótese de ser um drama convencional quando Larraín nos apresenta à figura do narrador que passa todo o filme a martelar os ouvidos da audiência com uma pomposa voz-off. Referimo-nos a Óscar Peluchonneau, o inspetor fascista que está responsável por liderar a perseguição a Pablo Neruda sancionada pelo governo. Qual Javert misturado com um detetive antagónico de um film noir, Óscar é quase uma força da natureza no seu invariável e obsessivo empenho em capturar Neruda, custe o que custar.

Há algo importante a mencionar sobre Óscar: ele é completamente fictício e não existem nenhuns análogos históricos à sua personagem. Mais importante ainda, o próprio Óscar parece saber que é uma construção fictícia e que, como é abertamente dito numa conversa metatextual com a fiel companheira de Pablo Neruda, é essencialmente uma figura secundária que orbita em volta do sol que é o poeta comunista. Fora de comédias surrealistas, este tipo de admissão pós-moderna raramente se manifesta no cinema narrativo e muito menos num contexto de biografia histórica, mas, no final, Neruda não é uma biografia. Na verdade, por detrás da fachada de docudrama, este é um film noir apimentado com o drama existencial de uma personagem que se apercebe da sua própria inexistência.

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Será que Óscar é a criação de Pablo Neruda que parece obcecado com livros policiais (outra invenção do filme?) e sedento da excitação extática que germina de uma perseguição saída de um filme de Hollywood? Ou será ele uma criação de um argumentista a tentar escrever sobre Pablo Neruda em pleno século XXI? O filme não esclarece isso nem tem de esclarecer para oferecer ao espetador uma experiência deliciosa. No final, só temos de saber que Neruda é, acima de tudo, um “autor”, uma força criativa, e que Óscar é a personificação de tudo e todos os que o querem calar. Pela sua parte, os atores são magníficos na sua encarnação destas ideias. Luis Gnecco dá vida a esta visão hedonista e rebelde de Neruda com uma perfeita mistura de carisma ostentoso e recriação histórica da figura real, enquanto Gael García Bernal faz de Óscar um boneco de ação em carne e osso que, nos seus últimos momentos ilustra de modo aterrador o pânico metafísico de alguém que apenas existe na ficção do filme.

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Tal como aconteceu em Jackie, este tipo de abordagem ao facto histórico acaba por proporcionar algo semelhante a uma autópsia do mito e da lenda em que os factos se acabam por transformar. Este não é o verdadeiro Pablo Neruda, mas sim uma possível interpretação do seu mito; este não é o verdadeiro Chile dos anos 40, mas sim uma dramatização operática dos seus pesadelos reais; esta não é a história da verídica fuga de Neruda do seu país natal em 1948 mas sim uma interpretação subjetiva de uma personagem abertamente falsa. Talvez o aspeto mais perverso em tudo isto é que, apesar de ser narrativamente secundário à figura do poeta, o odioso Óscar acaba por ser a personagem concetual e estruturalmente principal deste filme intitulado Neruda, mesmo que esteja longe de ser o seu herói.

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O MELHOR: O corajoso intelectualismo e mutilação histórica do argumento de Guillermo Calderón e a bizarria inerente à montagem de Hervé Schneid.

O PIOR: A natureza levemente alienante que toda a experiência pode ter para um espetador à espera de um filme biográfico mais convencional ou de uma nobre elegia à importante figura histórica que foi Pablo Neruda.



Título Original: 
Neruda
Realizador:
Pablo Larraín
Elenco:  
Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán, Alfredo Castro
Alambique | Drama, Biografia, Crime | 2016 | 107 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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