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Estreou esta quinta-feira 8 de outubro nas salas de cinema portuguesas “Noite e Dia” (2026, Tina Gharavi), uma coprodução entre o Reino Unido e Alemanha que chega até nós com distribuição da Outsider Films.

A longa-metragem, drama de época, é adaptada do romance homónimo de Virginia Woolf publicado em 1919. Conta a história de uma jovem apaixonada por astronomia num mundo (ainda) governado por homens.

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Qual a narrativa de Noite e Dia?

“Noite e Dia” conta a história de Katharine Hilbery (interpretada por Haley Bennett), uma jovem com um gosto particular: a astronomia. Com a narrativa a decorrer em Londres, nas vésperas da I Guerra Mundial, Katharine tem grandes dificuldades em seguir a sua paixão.

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O seu pai (Timothy Spall) não aceita que ela troque a instabilidade da astronomia pela certeza do casamento com o seu mais antigo amigo William Rodney (Jack Whitehall). Isto mesmo com William a pretender seguir uma carreira igualmente incerta: a poesia.

Num mundo governado por homens, Katharine não desiste da sua paixão e pretende fazer investigação científica. Tudo culmina, por fim, com a sua inscrição na Universidade de Cambrige, fingindo ser um homem a inscrever-se.

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Uma narrativa menos experimental de Virginia Woolf, mas com grande poder

Devo, desde já, informar o leitor de que não vou fazer a crítica a este filme numa visão comparativa entre o material original literário e o material cinematográfico que acaba de estrear. Desde logo não conheço sequer o material literário da autoria de Virginia Woolf, embora conheça parte da sua obra.

Em todo o caso, sou da opinião que, mesmo conhecendo o material literário, uma análise sobre uma obra cinematográfica não pode ser simplesmente uma análise comparativa entre materiais. Um livro é um livro e um filme é um filme. Cada um deles tem a sua visão própria, a do seu autor.

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Dito isto, Virginia Woolf é mais conhecida pelas suas narrativas baseadas no fluxo de consciência e de cariz algo experimental. “Noite e Dia” não é um desses casos, tratando-se de uma obra bastante linear mas que, ainda assim, remete para características da autora. Desde logo, o facto de ter uma protagonista feminina de grande poder e que luta pelo seu reconhecimento. Efetivamente, a obra literária “Noite e Dia” é uma das primeiras escritas por Virginia Woolf. Desse modo, isso também justifica que o seu estilo literário ainda não estivesse tão apurado quanto em obras que ficaram muito mais conhecidas e que a autora lançou mais tarde. Por exemplo, “Mrs. Dalloway” (lançada em 1925), “Orlando” (1928) ou “As Ondas” (1931).

A reconstituição histórica destaca-se mas há belos pormenores visuais

A adaptação cinematográfica de “Noite e Dia” surge também num ano em que se comemoram os 85 anos sobre a morte da autora inglesa. A nível temático, tal como já referi, existe a preocupação em demonstrar a importância da mulher na sociedade do início do século XX. Apesar de tudo, sente-se igualmente uma preocupação da realizadora para transformar os pensamentos da escritora numa longa-metragem bastante coesa e mágica. Posso, inclusive, assumir existe da parte da realizadora um cuidado para mostrar ao espectador todas as preocupações e pensamentos da protagonista do filme, aproximando-se assim da ideia do fluxo de consciência.

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Embora não se possa considerar “Noite e Dia” como uma obra-prima, a verdade é que este é um filme muito bem planeado por parte da sua realizadora. Sente-se, por isso, da parte da realizadora, uma paixão notória pela narrativa que está a contar. A apresentação das personagens é feita com todo o cuidado, desde logo com a nossa protagonista Katharine. Ela surge nos primeiros momentos do filme logo apaixonadamente ligada à astronomia. De noite a olhar para os céus, este é um início de filme realmente mágico e que nos deixa logo presos para querermos saber mais sobre esta personagem.

Depois, temos a personagem do pai de Katharine, interpretada por um Timothy Spall que já não precisa de provar nada enquanto ator, mas que tem uma profundidade bastante interessante. A sua personagem é rígida. No entanto, acima de tudo, prestes a chegarmos ao desfecho da história, percebemos que ele só quer o melhor para a sua filha e que gosta realmente dela.

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Por fim, destaca-se Jack Whitehall no papel de William Rodney, um grande amigo de Katherine e que se torna no seu tímido noivo. Embora Katharine não queira casar, ela aceita o noivado para que o seu pai a deixe ter alguma liberdade, coisa que lhe falta. Sobretudo, no contexto histórico do ano 1910 que é também brilhantemente reconstruído ao pormenor nos décores e no guarda-roupa.

Noite e Dia, um filme mágico, pela voz das mulheres

Noite e Dia
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As grandes forças de “Noite e Dia” são, portanto, a reconstituição histórica detalhada mas, sobretudo, a apresentação das personagens, nomeadamente nesta dualidade entre a garra de Katharine e a timidez de William. Além disso, há ainda pontos a destacar de cariz mais audiovisual. A saber, o uso de grandes planos em momentos brilhantemente pontuados, a música que “cose” as sequências e ainda dois importantes segmentos que demonstram tudo o que Katharine sente e que se pode sentir como uma versão audiovisual do “fluxo de consciência”.

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Nesse sentido, começamos com uma Katharine que finge ser Kit para poder ser aceite no fechado círculo da ciência onde só estão homens e terminamos com uma Katharine que não só aceita a sua condição, como defende aguerridamente a mudança de mentalidades e a sua presença e importância como mulher da ciência.

Por exemplo, a relação de proximidade com o seu primo Cyril Otway (Misia Butler) é logo um dos pontos altos do filme. Isso é, pois, demonstrado com o uso de grandes planos que não só atesta a sua proximidade, como estabelece um significado mais implícito de duas personagens igualmente vistas com desdém. Nesse aspeto, a realizadora repete os grandes planos logo após a morte de Cyril, quando Katharine sofre juntamente com o namorado do primo.

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Entretanto, quando Katharine conhece Mary Datchet (Lily Allen), a força da protagonista torna-se ainda mais significante. Deste modo, Katharine encontra alguém semelhante a si que também pretende dar voz às mulheres. É também nessa altura que ela decidir candidatar-se à Universidade de Cambridge.

Uma explosão visual que é, em parte, o fluxo de consciência de Katharine

Por fim, quando todo o mundo à sua volta parece reforçar uma visão machista onde Katharine desconfia que a obra literária da sua mãe está a ser reescrita pelo seu editor e com o seu pai a impulsionar isso, tudo explode para Katharine. Em fúria, grita no seu quarto, mas não ouvimos o seu grito. ‘Vemos’ o seu grito através de uma explosão espacial, uma espécie de ‘big bang’ para renovar o mundo. Afinal de contas, (já) estamos no século XX…

Katharine luta ainda mais pelos seus direitos e isso dá-lhe motivação para continuar a trabalhar na ciência. Até que, por fim, na sua apresentação na Universidade de Cambridge – onde volta a ser chacota por ser mulher – , Katherine tem uma nova ‘explosão’ (musical, visual e quase literal). Assim, ela relembra-se de todo o caminho que andou para ali chegar. E não desiste. Há até um pequeno pormenor quando ela percorre os corredores: o reflexo dos vitrais na sua cabeça. Há uma aura de esperança ali e que, mais tarde, culmina com a sua aceitação na universidade.

Todos estes pormenores pensados na narrativa e montagem fazem, por isso, deste “Noite e Dia” um filme mágico. O que acaba por falhar, afinal? A presença ‘lateral’ de Virginia Woolf numa breve cena onde ela apenas ‘existe’. Porquê e para quê? A falta de uma maior presença e desenvolvimento da personagem da mãe de Katharine (interpretada por Jennifer Saunders). E ainda o próprio final onde a música escolhida e o ‘travelling’ entre as estrelas e o planeta Terra aproximam, erradamente, o filme de uma comédia romântica, algo que não é ajudado pelo desabrochar da relação amorosa entre Katharine e o editor Ralph Denham. Em suma, “Noite e Dia” podia estar um pouco mais limado em certos pormenores que, apesar de tudo, não denegrirem necessariamente o filme.

Noite e Dia

Conclusão

  • Apesar de não ser uma obra-prima, “Noite e Dia” é um filme coeso e mágico onde a autora do material literário original, Virginia Woolf não sai defraudada. Nota-se, inclusive, uma paixão da realizadora por esta narrativa e universo com o cuidado que dá a certos detalhes.
  • Contudo, “Noite e Dia” podia ser um pouco mais limado em alguns pormenores narrativos que fragilizam um pouco o filme como um todo.
Overall
7.5/10
7.5/10
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