"Vita & Virginia" | © NOS Audiovisuais

Vita & Virginia, em análise

Baseado nas cartas de amor das duas escritoras, “Vita & Virginia” é um peculiar romance de época com dois fascinantes desempenhos de Gemma Arterton e Elizabeth Debicki.

Será que conhecemos verdadeiramente aqueles que amamos? Será que os amamos por que os conhecemos? Ou, em oposição, será que o amor nasce da falta de conhecimento? O mistério seduz e enfeitiça, mas também frustra e enlouquece. O amor é loucura, a loucura de querer entender algo que nunca poderá ser totalmente entendido – a outra pessoa. No meio de tudo isto, também há que se averiguar o que é entender ou conhecer outra pessoa. Estar na posse da essência do outro é uma forma de domínio e de subjugação. Sei quem és e sei como te destruir. Isso é amor. Será?

Tais questões são conversas de jantar no mundo de intelectuais frustrados em que “Vita & Virginia” se desenrola. O filme baseia-se numa peça escrita por Eileen Atkins a partir das cartas de amor trocadas entre as escritoras Vita Sackville-West e Virginia Woolf. Essa peça foi transposta para o cinema pela mão da cineasta Chanya Button que aqui tenta descortinar as divagações filosóficas das duas autoras, dissecar o estranho romance delas e tornar suas angústias numa experiência intensamente moderna e atual. Isso não é tarefa fácil quando consideramos quanto a história destas mulheres é definida pela sociedade inglesa do início do século XX, seus limites e códigos de conduta, suas prisões e seu discurso.

vita & virginia critica
© NOS Audiovisuais

Quase que num gesto de desafio, Button concebe a abertura do filme como uma montra de toda a sua abordagem. Aí, testemunhamos como Virginia Woolf ouve um programa de rádio em que Sackville-West e seu marido falam com candura sobre o matrimónio e a independência feminina. Todo o aparato está cheio de detalhes de época, desde as modas às salas fumarentas em que tudo se passa, passando também pelo sotaque antiquado com que Vita profere suas provocações e define os parâmetros de uma guerra de sexos.

As ideias expressas no diálogo afetado sugerem modernidade e, à medida que Virginia se perde nas vozes radiofónicas, a banda-sonora é consumida por ritmos sintetizados dignos de uma discoteca contemporânea. Os dados estão lançados para uma colisão entre o passado e o presente, entre o arcaico e o moderno, uma conflituosa paixão que é tão ou mais intensa que aquela que consome as protagonistas. O mesmo ocorre quando Vita primeiro vislumbra a outra escritora numa festa de máscaras. De repente, é como se o mundo parasse e a Inglaterra dos anos 20 se transmutasse num clube noturno do século XXI à medida que Virginia dança em câmara lenta ao som de sinfonias eletrónicas.

A atração como que transmuta e corrompe os limites do tempo e da História. No meio de tais contradições estilísticas, só há uma certeza e ela é a paixão que brota da obsessão, o modo como a vontade de captar a atenção e descobrir outra pessoa se transfigura em amor. O que é interessante nesta narrativa é como este jogo de atração e busca de amor recíproco se torna numa espécie de perseguição entre gato e rato em que os papéis estão sempre a ser trocados. No início, vemos como Vita persegue Virginia, como quer ser o centro do mundo para os olhos daquele génio misterioso que assinou livros tão marcantes como “Mrs. Dalloway”.

Lê Também:
A emancipação das personagens lésbicas no Séc. XXI

Contudo, quando as atenções se tornam recíprocas, é como se o filme desse uma cambalhota em termos de perspetiva e subjetividade. De repende, Virginia já não é um mistério e é a partir dos seus olhos que vemos Vita. O gato torna-se em rato, quem perseguiu é agora perseguido. Vita já não é o avatar do espectador, mas uma cifra a ser resolvida pela mente curiosa de Virginia que, na impossibilidade de a entender ou agradar perpetuamente, a decide subjugar na ficção. A escritora mais talentosa torna as suas inseguranças românticas numa arma de criatividade literária e escreve “Orlando: Uma Biografia” como uma forma de capturar a sua amada em prosa.

Virginia escreve e assim prende Vita, humilha-a, adora-la e reduze-la a uma entidade compreensível para quem a escreve e para quem a lê. Para uma mulher que vive na fantasia da palavra, que melhor forma de dominar o animal selvagem do desejo que a partir da escrita? O problema é que a proeza da literatura não é suficiente para saciar as exigências da alma e assim estas mulheres defrontam-se numa batalha interminável. É uma dança de perdição pela qual cada uma leva a outra ao êxtase e depois a castiga com o ciúme, com o desinteresse e com a frieza de quem nega o toque e desvia a atenção.

Esta não é uma trama simples, mas sim uma complexa história cuja ação principal se desenrola nas mentes das protagonistas. Dramatizar tal proposta narrativa é algo difícil e, temos muita pena em dizer, Button não está à altura do desafio. “Vita & Virginia” é uma experiência letárgica com um pé na fogosidade interior das personagens e outro no tédio de dramas de época conservadores. Nem a banda-sonora violentamente anacrónica consegue eletrizar as muitas cenas em que nada parece acontecer além de olhares trocados ou a repetição de discussões que já outrora foram desenvolvidas em detalhe.

vita & virginia critica
© NOS Audiovisuais

Quando a realizadora tenta usar uns toques de estilização alucinatória para representar a sanidade vacilante de Virginia é que tudo vai abaixo e o filme é avassalado pela absoluta mediocridade. É pena, pois a prestação de Elizabeth Debicki mais do que sugere essa mesma fragilidade mental sem precisar de recorrer a pirotecnias indesejadas. De facto, tanto Debicki como Virginia e Gemma Arterton como Vita são mais valias para o filme. Ambas as atrizes sugerem as personagens históricas apesar de não se parecerem nada com elas e tanto telegrafam a obsessão que as exalta, como a sua natureza enquanto objeto de desejo para outrem.

Em separado, entendemos como cada uma deseja a outra e é, por sua vez, desejada. Contudo, quando as duas partilham cenas e se desfazem em epítetos românticos e sexuais, há algo de insincero em todo o espetáculo. Só mesmo quando a sua relação tomba na direção do antagonismo é que as atrizes realmente conseguem chegar à eletricidade romântica que as une. Uma sessão fotográfica orquestrada por Virginia é um campo de batalha sentimental que excita e aterroriza. Enfim, “Vita & Virginia” vale pela história que conta e pela atenção que concede às suas fascinantes protagonistas. Tal como as duas amantes, o filme tenta conhecer estas mulheres, mas nunca consegue.

Vita & Virginia, em análise
Vita E Virginia poster pt

Movie title: Vita & Virginia

Date published: 2019-10-03

Director(s): Chanya Button

Actor(s): Gemma Arterton, Elizabeth Debicki, Isabella Rossellini, Rupert Penry-Jones, Peter Ferdinando, Emerald Fennell, Gethin Anthony, Rory Fleck Byrne, Karla Crome

Genre: Drama, Biografia, Romance, 2018, 110 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“Vita & Virginia” é um objeto fascinante e frustrante, que aborrece e apaixona em semelhante proporção. Boas prestações e audazes escolhas musicais elevam o exercício acima de outras cinebiografias, mas não é suficiente.

O MELHOR: As prestações das duas atrizes principais e seus esplendorosos figurinos.

O PIOR: O ritmo narcotizado do filme e as ocasiões em que a fragilidade mental de Virginia explode em alucinações digitais muito mal configuradas.

CA

Sending
User Review
4 (1 vote)
Comments Rating 5 (1 review)

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending