A Rapariga do Comboio, em análise

A adaptação de ‘A Rapariga do Comboio’ (The Girl on the Train), o surpreendente best-seller de Paula Hawkins — vendeu mais de 2 milhões de exemplares em todo o mundo —, protagonizado por Emily Blunt e dirigido por Tate Taylor (‘As Serviçais’) não tardou em chegar às salas de cinema. Quase como em todas as adaptações para além de algumas mudanças, ganhou frieza e perdeu um pouco do suspense original.

A Rapariga no Comboio
Emily Blunt num dos melhores papéis da carreira.

Para quem leu A Rapariga no Comboio, o livro de Paula Hawkins e vai ver esta adaptação cinematográfica protagonizada por Emily Blunt, convém avisar desde já de uma importante mudança em relação ao original. Este filme realizado por Tate Taylor (As Serviçais) passa-se na linha férrea dos arredores de Nova Iorque, o que o torna num verdadeiro drama americano.

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A historia de Rachel Watson do livro decorre nos arredores de Londres: ela apanha todos os dias o comboio em Westchester County até à Grand Central Station de Manhattan e não até London Euston, como no romance. Isto diz qualquer coisa porque em vez dos ambientes cinzentos e por vezes sombrios dos subúrbios de Londres, estes são substituídos por uma certa leveza burguesa no filme de Tate Taylor, que apesar de tudo ganha um pouco em simplicidade e perde um pouco em suspense.

A Rapariga no Comboio
O filme passa-se na linha para Nova Iorque.

No entanto, segue mais ou menos a linha de negócio de As Sombras de Grey, isto é um sucesso literário logo tornar-se-á certamente um fenómeno de bilheteira no cinema, e portanto mesmo no mau sentido não convém fugir muito ao original.

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A Rapariga do Comboio conta a história de Rachel (Emily Blunt), uma mulher alcoólica, divorciada e desempregada que fantasia em relação a um casal que vive numa das casas localizada na urbanização de classe média-alta, à beira da linha do comboio, e onde ela vivia antes com o agora ex-marido Tom (Justin Theroux).

A Rapariga no Comboio
Jess (Haley Bennett) e Jason (Luke Evans), são os observados.

A paragem que faz o comboio diante da casa de Jess (Haley Bennett) e Jason (Luke Evans), — os nomes que ela primeiro lhes dá — acaba por ser o seu momento preferido de uma viagem que faz todos os dias para fingir que ainda está a trabalhar. Não obstante, a suposta idílica vida deste casal observado e imaginado por Rachel será destruída, quando esta testemunha uma traição e depois Jess acaba por desaparecer.

O filme tenta ter muito do suspense das loiras 'à Hitchcock'.
O filme tenta ter muito do suspense das loiras ‘à Hitchcock’.

O argumento escrito por Erin Cressida Wilson, a partir do romance de Paula Hawkins é um misto de A Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock com os romances de Patricia Highsmith. Ou então da atualidade das obras de Gillian Flynn, sobretudo a que deu origem ao filme Em Parte Incerta, de David Fincher, um verdadeiro especialista em matéria de suspense. E ficaríamos certamente mais a ganhar se fosse Fincher a fazê-lo em vez deste Tate Taylor, um realizador que tem sido usado várias vezes — excepto em As Serviçais — pela indústria de cinema de Hollywood, como uma espécie de pau-para-toda-a-obra, quando é preciso fazer um filme à pressão.

A linda Haley Benette é o objecto de desejo.
A linda Haley Benette é o objecto de desejo.

A Rapariga do Comboio é assim um thriller psicológico mediano sobre instabilidade, aparências, atracção fatal e obsessão. É narrado na primeira pessoa, utilizando montagens alternadas de flashbacks, com o ponto de vista das três personagens femininas. No fundo as figuras-chave da história e que se cruzam ou quase: Rachel, Jess (Megan) e Anna (actual companheira do ex-marido de Rachel). Os diálogos são curtos, a narrativa é ágil com saltos no tempo e com as lacunas de memória, provocadas pelo alcoolismo de Rachel. Quase tudo isto está no romance e por isso era um livro quase talhado para tão rapidamente chegar ao cinema depois da sua publicação em 2015.

A Rapariga no Comboio
Justin Theroux é Tom, o ex-marido de Rachel.

A primeira parte do filme é um pouco confusa pelas suas variantes narrativas. É verdade que depois do primeiro terço o ritmo da narrativa vai crescendo. Tem algumas reviravoltas inesperadas e até surpreende em alguns momentos, quando se começa a suspeitar de quem no início não se suspeitava. Mas depois tudo se torna demasiado óbvio e previsível. Notável é de facto a interpretação da britânica Emily Blunt, uma actriz habitualmente a papéis duros como em Sicario ou No Limite do Amanhã. O resto do elenco (Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Justin Theroux, Luke Evans, Allison Janney, Edgar Ramirez, Lisa Kudrow e Laura Prepon) faz um trabalho equilibrado e competente dentro do normal, num filme de silêncios e com já foi dito com diálogos curtos e incisivos, que não exigem muito dos actores.

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Poderíamos dizer que este A Rapariga do Comboio, é o típico telefilme — tem muito também da estética das séries policiais da Fox ou da Sony — sobre casais disfuncionais — às vezes faz lembrar um pouco também As Sombras de Grey — onde as protagonistas femininas são neuróticas têm grandes desequilíbrios emocionais, problemas existenciais, vidas complicadas; e onde as figuras masculinas são  uns sacanas dominadores, infiéis e os verdadeiros responsáveis pelos problemas das personagens femininas. Um filme com demasiados estereótipos e portanto nada de novo em relação ao livro.

O MELHOR – Emily Blunt em Rachel, num dos melhores e mais complexos papéis da sua carreira;

O PIOR – A confusa montagem dos flashbacks, sobretudo para quem não leu o livro e desconhece a estrutura da história.

 


Título Original: The Girl On The Train
Realizador:  Tate Taylor
Elenco: Emily Blunt, Rebecca Fergunson, Haley Bennett 
NOS | Policial | 2016 | 105 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

One thought on “A Rapariga do Comboio, em análise

  • Realmente Tate Taylor não é David Funcher

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