8 1/2 Festa do Cinema Italiano | Non essere cattivo, em análise

O último filme de Claudio Caligari, Non Essere Cattivo, reúne temas de Pasolini com uma abordagem contemporânea e um elenco cheio de explosivas prestações.

Após ter apenas realizado sete filmes na sua carreira de quase quatro décadas, Claudio Caligari morreu aos 67 anos depois de uma longa luta contra o cancro. A sua última obra, Non Essere Cattivo foi deixada por editar, de tal modo que foi necessário o apelo do seu produtor, Valerio Mastrandena, a Martin Scorsese e a uma enorme coleção de produtoras italianas, para que suficientes fundos e meios fossem reunidos para terminar a visão de Caligari. Em reconhecimento da importância de Non Essere Cattivo e seu estatuto como final suspiro artístico de um dos mais significantes autores do cinema italiano atual, esta foi a produção escolhida para representar Itália nos Óscares passados e é também um dos invariáveis frontrunners nos prémios David di Donatello, uma espécie de Césares ou Goyas italianos em que o filme arrecadou 16 nomeações. Como consequência de tudo isto, o derradeiro trabalho de Claudio Caligari apresenta-se como uma espécie de testamento cinematográfico de seu falecido autor, uma elegia e um último hurra.

Non Essere Cattivo completa uma trilogia temática de Caligari que teve início em 1983 com Amore tossico, um filme sobre toxicodependentes que decorre entre Ostia e os guetos romanos, e que também inclui L’odore della notte de 1998, um filme sobre a queda em desgraça de um ex-polícia na Roma de então. Ao contrário dessas duas anteriores instalações neste terceto, Non Essere Cattivo é um filme de época, decorrido nos anos 90 em Ostia, onde se havia parcialmente desenrolado a primeira destas produções, e seguindo um par de amigos que vivem uma vida de perigoso hedonismo, cheia de pequenos crimes, drogas e noites passadas num estado de contínua intoxicação. Eventualmente, depois de um desconcertante salto temporal, os caminhos de Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli) mudam, com o primeiro a tentar alcançar uma relativa estabilidade, construindo uma família e tentando ganhar dinheiro de forma legítima, enquanto o segundo apenas parece ter mudado a sua aparência.

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Como seria de prever, a narrativa destes dois marginais da sociedade italiana, acaba por cair numa espiral de imparável tragédia, com Cesare a ser o principal vitimado. Esta condição trágica é exacerbada pelo uso de situações em doentia e constante repetição, uma escolha estrutural que põe o filme em perigo de se tornar impenetrável e entediante, não fosse o tom de sombrio fatalismo que envolve toda a narrativa e suas perdidas personagens. Tal construção da história relembra os filmes de outros autores, que se focaram em tais narrativas de juventude marginalizada e toxicodependência, como Gus van Sant. Apesar dessa comparação com o realizador americano, o autor cuja ligação a Non Essere Cattivo é completamente impossível de ignorar é italiano.

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Já nos anos 70, Caligari havia tentado fazer parte de um projeto de Pier Paolo Pasolini, mas o eventual abandono dessa produção e a prematura morte do realizador fizeram com que tal fosse impossível. Apesar dessa colaboração nunca se ter materializado, a filmografia de Caligari tem-se mostrado, desde então, como uma espécie de continuação do trabalho desse passado mestre do cinema. Em Amore tossico, essa ligação foi de particular intensidade, com os métodos de Caligari a invariavelmente mimarem aqueles de Pasolini, tanto na sua abordagem aos temas de uma parte ignorada da sociedade contemporânea, como no seu conspícuo uso de não atores.

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Em Non Essere Cattivo, existe quase que um final matrimónio entre o cinema de Pasolini e o seu legado na filmografia de Caligari, com os protagonistas e a localização física a construírem uma espécie de híbrido de Accattone e Amore tossico. Do primeiro, temos Vittorio e muitos dos lugares em que a narrativa decorre, do segundo temos o ambiente, a tonalidade e Cesare. Consequentemente, apesar de abertamente estabelecer uma trilogia com outros dois filmes de Caligari, esta derradeira obra quase que se apresenta como final capítulo de uma outra trilogia, composta pelo primeiro filme realizado por Pasolini e o já muito mencionado, Amor tossico.

Apesar desta comparação com Pasolini, é necessário reconhecer quanto Calgari se distanciou dos métodos e ideais cinematográficos do seu pseudo mentor. Longe de recriar a direção de Pasolini, como já havia feito, o realizador de Non Essere Cattivo constrói uma obra cuja forma mais se assemelha aos cânones do cinema de interesse social americano que a qualquer linguagem estilística puramente italiana. O uso de não-atores, por exemplo, foi completamente descartado, e a despreocupação com melodramáticas representações de tramas psicológicas também, resultando num filme que vive e morre no trabalho dos seus protagonistas. Felizmente, os dois atores principais são exímios nos seus retratos.

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Marinelli é claramente quem mais aclamação tem alcançado, e é fácil depreender o seu porquê. Como Cesare, o jovem ator, constrói uma volátil tempestade de desespero e hedonismo, telegrafando a sua espiral de febril implosão humana com uma desenfreada mestria que estonteia tanto quanto comove. O seu exagero emocional encontra-se em completa sintonia com o resto do elenco, sendo que aqui, Caligari parece ter tentado encontrar um registo que já se tornou familiar para os grandes fãs do cinema italiano da contemporaneidade, naturalismo visceral sem grande contenção emocional, em que as personagens facilmente se manifestam em gritados paroxismos de fúria, paixão ou abjeta tristeza. Boeghi, apesar de não receber nem metade do reconhecimento de Marinelli, é também de louvar. O seu Vittorio, especialmente na segunda metade, é uma âncora vital para a entrada da audiência neste mundo de esquálido drama humano. O modo como o ator muitas vezes parece uma bomba a ameaçadoramente tremer antes de uma explosão emocional é de particular interesse, demonstrando uma abordagem distinta da do seu coprotagonista que, mesmo assim, se mantém no mesmo peculiar registo interpretativo.

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No final, Non Essere Cattivo perde muito do impacto que poderia ter devido à sua ocasional queda em barato melodrama, mas é difícil ficar-se impassível a algumas das suas mais intensas sequências. A sua ligação a Pasolini e aos primeiros esforços cinematográficos de Caligari fazem ainda deste filme, uma obra que parece existir deslocada do seu tempo, o que dificilmente é encarado como algo benéfico para a experiência global. Para além do mais, essa constante referência autoral é terrível no modo como constantemente aponta o dedo às fragilidades na visão presente de Caligari, como a sua estranha propensão para tornar alienantes ou grotescas as visões de miséria social, algo que Pasolini nunca faria com o tom de julgamento ético que se perceciona nesta obra. No entanto, por muito que seja um filme fortemente limitado, Non Essere Cattivo é um lógico ponto final para a carreira de Caligari no cinema italiano, sendo essencial para os fãs da produção cinematográfica desta nacionalidade e admiradores do percurso artístico de seu autor.

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O MELHOR: Os épicos feitos de explosiva humanidade que são as duas prestações principais.

O PIOR: A grande misoginia do filme, que reflete as perspetivas de seus protagonistas, e os minutos finais, cujo melodrama forçado atinge níveis de estonteante impropriedade tonal.



Título Original:
 Non essere cattivo

Realizador:  Claudio Caligari
Elenco: Luca Marinelli, Alessandro Borghi, Roberta Mattei

Drama | 2015 | 100 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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