NOS Alive 2019 (foto de Margarida Ribeiro)

NOS Alive 2019 | Numa noite como esta imperam The Cure

Sharon Van Etten, Mogwai e The Cure foram os principais destaques de uma noite inaugural de NOS Alive sem grandes surpresas.

Retornamos a mais uma edição do festival NOS Alive e deparamo-nos com o cenário usual: consumidores assíduos de música, conhecedores da arte e simples admiradores, jovens que buscam por uma aparentemente agradável escapatória pós-período lectivo e parentes cansados de terem de lidar, diariamente, com esta mesma juventude. As bancas de comida, os aromas familiares e exóticos que pairam no ar, a sensação de… pára tudo. Escutamos, bem no fundo, a introdução de “Jupiter 4”. E limitamo-nos a correr para o Palco Sagres. Tencionamos marcar presença no espectáculo ao vivo de uma talentosa mulher que balanceia, num misto de extravagância e timidez, o corpo ao som da linha de baixo e transporta consigo, para todo o lado, uma aura reminiscente de Twin Peaks, a série de culto de David Lynch.

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NOS Alive: Sharon Van Etten © Hugo Macedo

SHARON VAN ETTEN MADURA OCUPA O PALCO SAGRES COM CORPO E ALMA

(Reportagem de Margarida Ribeiro)

A melancolia de outrora transfigura-se em força propulsora da performance. Depois de em 2014 ter enchido o palco do Coliseu dos Recreios (a propósito do festival Vodafone Mexefest), Sharon Van Etten regressa agora a Portugal pela quinta vez. Faz até com que a fracção do público repetente se esqueça, por momentos, que a vira há 5 anos a pisar terras lusas. A anteriormente discreta cantautora que ocupava o espaço apenas com a voz, fá-lo desta vez  com corpo e alma. Entra com o ressoar do sintetizador que marca o início de “Jupiter 4” no Palco Sagres. O espaço beneficia e muito da sua estrutura quase fechada, diminuindo um factor tão variável quanto a acústica e Van Etten terá agradecido. Sem falhas técnicas de som e sendo este perfeitamente controlado para servir a artista e sua banda (a quem é dado o devido protagonismo com respeito por músicos que tão bem a acompanham), o público é presenteado pelo frenético diafragma e pelas cordas vocais da autora que fazem ecoar os espantosos vibratos e a amplitude vocal que o seu trabalho em estúdio já delineava.

Remind Me Tomorrow (2019), como seria de esperar, tomou grande parte do alinhamento deste concerto no NOS Alive, sendo revisitados alguns dos trabalhos previamente editados. Somos apresentados a “Every Time the Sun Comes Up” como sendo a música menos apreciada pela sua mãe. No entanto, ouvimo-la desta vez não com dor das palavras escritas, mas antes com empoderamento sobre as mesmas. Há quem diga que para dominar algo é preciso nomeá-lo. Assim é tomada consciência sobre o que é sentido e estamos um passo mais perto de lidar com isso mesmo. Foi desta forma que se fizeram escutar os trabalhos antigos: a partir de alguém que já sentiu o pesar, mas que não sucumbiu ao mesmo; que nos olha nos olhos comunicando directamente, que avançou e amadureceu.

NOS Alive: Weezer © Arlindo Camacho

IDIOSSINCRÁTICOS E JOVIAIS (COMO SEMPRE), WEEZER SAEM PREJUDICADOS POR FALHAS TÉCNICAS

(Reportagem de Diogo Álvares Pereira)

Meia-hora após o início do concerto de Sharon Von Etten no Palco Sagres, arpejos indubitavelmente familiares apoderam-se, por alguns segundos, do Palco NOS. Rivers Cuomo, envergando um chapéu de pescador e os habituais óculos “fundo-de-garrafa”, retorna a terras lusitanas e estreia-se no festival NOS Alive com os Weezer, dezassete anos depois do seu primeiro (e, até agora, único) concerto em Portugal, mais precisamente na edição de 2002 do Super Bock Super Rock. A banda de Los Angeles abre o espectáculo com “My Name Is Jonas”, a primeira faixa de Blue Album (1994). Apesar da fraca adesão do público ao concerto, sentimos um nervoso miudinho em alguns membros da audiência, particularmente nos que abandonaram o Palco Sagres mais cedo, de modo a conseguirem garantir um agradável lugar na linha da frente. Afinal, para muitos indivíduos entre a casa dos trinta e quarenta, o já mencionado disco de estreia dos Weezer e o seu controverso e brutalmente honesto sucessor Pinkerton (1996), representam, nitidamente, uma subcultura alternativa da década de noventa alicerçada nos prazeres mundanos proporcionados pelo incessante consumo do canal televisivo MTV, skateboarding e sessões de rock de garagem capazes de “ferir os mais susceptíveis”.

O concerto dos Weezer foi gravemente prejudicado por opções e falhas técnicas, dentro das quais destacamos duas quebras de som e o facto de quase não ser possível escutar a guitarra eléctrica de Brian Bell, circunstância muito desagradável, tendo em conta que a sonoridade da banda é, sobretudo, caracterizada por progressões de acordes pujantes e apelativas. Todavia, a postura descontraída, sempre jovial, do quarteto de tecnicamente competentes músicos acabou por atirar as situações negativas para segundo plano, conquistando o grupo de fãs, que acompanharam com entusiasmo (chegando, por vezes, a conduzir) os refrões antémicos de êxitos musicais como “Hash Pipe” (tendo um jovem franzino, vestindo uma t-shirt dos Dinosaur Jr., iniciado um dos raros moches do dia), “Perfect Situation“, “Island in the Sun” ou mesmo o icónico prelúdio de “Undone – The Sweater Song“. Idiossincráticos e sem quererem ser levados a sério, os Weezer não tocam para agradar a uma audiência, tocam exclusivamente para entretenimento pessoal, perdendo-se por entre solos de guitarra eléctrica abruptos e tentativas de manipulação comportamental do público “for a laugh“. Substituiríamos a performance de “Africa“, “Take On Me” ou “Longview” pelas extraordinárias canções originais “No One Else”, “Pink Triangle” ou “El Scorcho“, cuja presença (ou falta dela) no alinhamento se notou. Porém, já nos encontramos satisfeitos pela oportunidade de ver esta tão divisiva, mas influente banda ao vivo… mesmo que o espectáculo tenha saído a “meio-gás”.

NOS Alive: Ornatos Violeta © João Silva

O MONSTRO POSSUI MILHARES DE AMIGOS NO CELEBRADO RETORNO DOS ORNATOS VIOLETA

(Reportagem de Diogo Álvares Pereira)

Seguem-se os Ornatos Violeta no Palco NOS e a sua comemoração do vigésimo aniversário do criticamente aclamado álbum de estúdio O Monstro Precisa de Amigos (1999). “Esse é o encanto das coisas boas, não aconteceram muitas vezes”, afirma o rosto da banda portuense, o excêntrico e endiabrado Manel Cruz. Realmente, os recentes (e raros) espectáculos dos Ornatos Violeta justificam não só a enorme adesão do público do NOS Alive, que pretende “cruzar caminho” (por uma vez que seja, já que tendem a “aparecer e desaparecer” sem aviso prévio) com o tão amado e conceituado quinteto do rock português, mas também o estatuto de “banda de culto”, definida, sobretudo, por uma dedicada legião de seguidores, transmitida de pais para filhos, e, evidentemente, pela edição da notável obra-prima de 1999, um dos “monstros” da indústria da música nacional da respectiva década, juntamente com Mutantes S.21 (1992) dos Mão Morta.

Os Ornatos Violeta abrem o espectáculo com a performance de “Circo de Feras” (canção gravada para XX Anos XX Bandas, igualmente editado em 1999), originalmente concebida pelos colegas de profissão Xutos e Pontapés, e logo aí asseguram fortes aplausos por parte da extasiada audiência, não fosse esta canção um dos hinos da música popular portuguesa, naturalmente reconhecida (e, muito provavelmente, apreciada) por todos. No entanto, o público só vai, verdadeiramente, ao rubro, quando Manel Cruz, num gesto repentino, porém expectável (era apenas uma questão de tempo), despe a t-shirt, revelando o seu inconfundível corpo esquelético perante milhares de espectadores. Lança-o pelo palco, contorcendo-se violentamente e sentindo como ninguém (ou como todos os presentes, para dizer a verdade) cada palavra proferida, cada rasgo de poesia. O rosto dos Ornatos Violeta tem o manifesto apoio, neste modo tão expressivo de experienciar o seu produto visceral, dos companheiros Peixe, Nuno Prata, Elísio Donas e Kinörm (que bom é vê-los tocar juntos, as dinâmicas entre membros da banda, as trocas de olhares de puro contentamento), e do grupo de fãs, que se certificam de demonstrar ao público estrangeiro o orgulho que sentem em partilhar a nacionalidade com cinco músicos tão criativos, tecnicamente e liricamente talentosos, cantando a plenos pulmões canções como “Ouvi Dizer“, “Chaga”, “Dia Mau” e “Capitão Romance (Aventuras no Mundo, Cap. I – Rumo à Verdade)“. O Monstro possui milhares de amigos. Simboliza a saudade gerada pela ausência e, simultaneamente, a profunda fruição de momentos tão belos e singulares quanto este.

NOS Alive: Mogwai © Arlindo Camacho

O PALCO NOS NÃO FOI SUFICIENTEMENTE GRANDE PARA A SONORIZAÇÃO DO CÉU E INFERNO DOS MOGWAI

(Reportagem de Diogo Álvares Pereira)

Assim que os Ornatos Violeta encerram o espectáculo, um aglomerado de pessoas dirige-se, rapidamente, para o Palco Sagres, de modo a poder ver o muito aguardado concerto de Jorja Smith, um dos nomes que mais tinta tem feito correr no mercado do R&B. Entretanto, os cabeças-de-cartaz da primeira noite desta edição do NOS Alive, os veteranos The Cure, só dão início ao seu concerto à meia-noite e dez. Abre-se algum espaço no Palco NOS. O público divide-se por aqueles que optam por salvaguardar o seu lugar privilegiado, quer para o ato seguinte, quer para o grand finale, e pelos que recuam no recinto, sentando-se na relva alcatifada e desfrutando, finalmente, de um merecido descanso. Todavia, pouco depois do “último, caloroso abraço” de Manel Cruz à audiência do NOS Alive, um quarteto de escoceses invade o palco principal, trazendo consigo um arsenal de pedais de distorção, sintetizadores e guitarras que ameaçam causar mossa. Enfrentamos Mogwai, banda seminal do pós-rock que já conta com duas décadas de existência e uma invejável, excepcionalmente consistente discografia constituída por nove álbuns de estúdio meticulosamente conceptualizados e produzidos.

A sonoridade densa, atmosférica, suplicante por uma extensa área que permita às distintas camadas instrumentais cruzarem-se entre si, difundirem-se e serem assimiladas, em toda a sua grandiosidade, por uma audiência paciente, consciente da extrema importância da viagem que antecede o clímax, não é para todos. Muito menos para grande parte do público do NOS Alive, que marca presença pelo trivial convívio ou a fotografia do costume. No entanto, presencio, com felicidade, quem realmente se deixe entregar, englobar, pelo magnífico alinhamento previamente definido pelo grupo de Glasgow. Alguns cerram os olhos, outros mantém-nos bem abertos, atentos ao espectáculo visual que vai sendo transmitido nos grandes ecrãs que rodeiam o palco. A distorção das guitarras e as dinâmicas musicais invadem, furiosamente, todo o espaço. As vibrações sonoras dificultam a respiração. Stuart Braithwaite, envergando uma t-shirt dos Neu!, conceituada banda alemã de krautrock da década de setenta e clara influência na sonoridade dos Mogwai,  agradece, incessantemente, ao grupo de fãs. Todavia, estas são as únicas palavras proferidas ao longo de todo o concerto. E quem precisa de mais “palavras” para justificar o que quer que seja? Tiro estas conclusões (e tantas outras) enquanto escuto, durante dezasseis minutos, a derradeira canção do alinhamento, a obra-prima “Mogwai Fear Satan“, faixa integrante do disco de estreia dos Mogwai, Mogwai Young Team (1997). Deixo que me transporte ao céu, recorrendo às serenas paisagens sonoras construídas, de modo exímio, pela banda, e, subitamente, desço a tão prazeroso inferno, aproveitando a boleia do ruído branco e feedback. O Palco NOS não suficientemente grande para esta banda e a música que concebe, disso tenho a certeza.

NOS Alive: The Cure © Arlindo Camacho

THE CURE ENCAPSULAM QUATRO DÉCADAS DE MÚSICA EM DUAS HORAS DE ESPECTÁCULO (E AINDA SOUBE A POUCO)

(Reportagem de Diogo Álvares Pereira)

Há bandas veteranas que, inegavelmente, não sabem quando parar, optando por arrastar os corpos frágeis, infindavelmente, por palcos progressivamente menos relevantes e lançando, anualmente, álbuns de estúdio de qualidade duvidosa e encarcerados numa fórmula gasta e desgastada. Infelizmente, acabam por se tornar numa “sombra” daquilo que outrora representaram para a indústria da música e para o género que categoriza a sua sonoridade. Curiosamente, este nunca foi o caso dos The Cure, algo que fica bem explícito logo após os momentos introdutórios de “Shake Dog Shake”, primeira faixa de The Top (1984). Se a aparência física do conspícuo rosto dos The Cure, Robert Smith, já teve dias melhores, as inconfundíveis melodias vocais, as dinâmicas da brilhante banda que o escolta e, no geral, a performance do grupo britânico, nunca foram tão aprazíveis de escutar ao vivo como esta noite, podendo-se comparar, certamente, o quinteto ao vinho: melhora com o tempo. Durante quatro décadas, os The Cure acostumaram-nos aos rasgos de infantilidade e profunda inocência intrinsecamente associados à alma da música que produzem, à entoação da voz de Robert Smith, às melodias ora açucaradas e aliciantes, ora taciturnas e atormentadoras. A angústia existencial, o romantismo sombrio e o eterno sofrimento, “imagens de marca” das letras cantadas por um dos maiores ícones da História da música alternativa. Todas estas características que definem a música dos The Cure foram, cuidadosamente, encapsuladas em pouco mais de duas (breves) horas de espectáculo… e ainda soube a pouco.

Pais e filhos, na linha da frente do Palco NOS, puderam assistir a uma fabulosa e extensa compilação de êxitos musicais e deep cuts, minuciosamente escolhidos a dedo pela banda. A longa, densamente atmosférica, linha de baixo que enceta “Fascination Street“, segundo single daquele que, para muitos, é o magnum opus dos The Cure: Disintegration (1989), disco que celebra três décadas de existência e que foi homenageado, afectivamente, pela banda e fãs, contrastou com os ritmos dançáveis, animados, de êxitos musicais como “In Between Days” e “Just Like Heaven“. O espectáculo visual proporcionado pelos The Cure e respectiva equipa técnica foi igualmente satisfatório. Tons de verde e vermelho saturado cobriram todo o cenário, transformando os membros da banda em silhuetas reminiscentes do teledisco de “Boys Don’t Cry“. No entanto, foi durante a performance de “A Forest“, ponto alto da noite, que a linguagem cinematográfica inerente à estética distintiva dos The Cure atingiu o seu clímax, ocupando o ar circundante com o rastro luminoso da mais estonteante estrela cadente. Durante o duradouro encore recheado de singles tão amados como “Lullaby“, “Friday I’m In Love” ou “Boys Don’t Cry“, surgiu, em grande plano, o jubiloso rosto de um infante, sentado nos ombros do identicamente alegre pai. De facto, a arte da música, a arte idealizada por formidáveis bandas como os The Cure, une e perdura por gerações infindáveis. E numa noite como esta, foram eles que imperaram.

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