“O Agente Secreto” em Papel | O roteiro-livro que junta política, cinema e memória brasileira.
“O Agente Secreto – Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho” é uma obra escrita sobre os bastidores do filme. O roteiro (ou argumento) revela ainda o método (e o Brasil) do realizador (e de Wagner Moura), por dentro da sua escrita e obsessões.
O livro “O Agente Secreto – Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho” chega como extensão (auto)crítica da obra cinematográfica que ontem fez história para o cinema brasileiro, nos Golden Globes 2026, como vencedor de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa e de Melhor Actor Drama para Wagner Moura. Trata-se de um objecto híbrido que junta política, cinefilia, técnica, memória, uma boa dose de ironia pernambucana e que confirma que Kleber não escreve apenas cinema: escreve o Brasil.

O roteiro como manifesto político-disfarçado-de-livro
Kleber Mendonça Filho é daqueles cineastas que não precisam de um prefácio para anunciar o seu ADN artístico, mas fazem-no na mesma, com gosto e uma certa malícia criativa, marca aliás de todos os seus filmes das curtas a “O Agente Secreto”. Aqui, o prefácio, escrito por ele próprio, chama-se mesmo “A História na Ordem Errada” e por si só resume o espírito do livro: nada começa onde devia, nada segue pelo caminho mais curto e tudo parece improviso…até descobrirmos que é método. Quem viu “O Som ao Redor”, “Aquarius”, “Bacurau” ou “Retratos Fantasmas” sabe que Kleber — que foi, aliás, durante muitos anos crítico de cinema, e que ao nosso lado acompanhou várias edições de festivais internacionais de cinema — gosta de atirar pedras à janela da história brasileira, mas com cálculo de engenheiro e prazer de menino. E o livro confirma isso: fotografias, storyboards, excertos, notas, memórias e um roteiro narrado como se o leitor estivesse escondido atrás de um armário a assistir à construção de um filme. Tudo com aquele humor meio velado, meio distante, meio irritado, meio cinéfilo, que é impossível não reconhecer nele.

O filme que nasce de um falhanço (e de um país à beira do ataque de nervos)
A ironia maior é que “O Agente Secreto” só existe, segundo o próprio realizador, porque outro filme não aconteceu. Kleber conta que foi o fiasco do projecto de filme intitulado “The Crew” — ligado a Mark Peploe (1943-2025), realizador e produtor britânico, cunhado de Bernardo Bertolucci, com quem se cruzou mas que faleceu no ano passado, e também ao próprio mestre italiano Michelangelo Antonioni (sim, esse mesmo) — que o empurrou para escrever algo “filmável, em português e na vizinhança”. Mas esta libertação pessoal coincide com o Brasil a fervilhar no bolsonarismo, no saudosismo autoritário e no eterno déjà-vu tropical que insistia em repetir 1977 dentro de 2020. Resultado: o argumento de “O Agente Secreto” respira tensão política, violência institucional, vigilância, fake news analógicas e aquele misto de paranoia e humor que só um país acostumado a golpes de vária ordem encontra normal.

Wagner Moura, o cúmplice: actor, leitor, militante silencioso
Se o roteiro ou argumento é nervo, Wagner Moura é músculo e, no seu posfácio ao livro “O Agente Secreto – Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho”, assume mesmo o papel de cúmplice. O actor não só encarna Marcelo/Armando no filme, como leu o argumento como quem lê um dossiê de Estado. E escreve, com aquela precisão de quem já sabe onde dói: “o espectador só vai perceber o que está a acontecer lá pela página 141”. E nós acrescentamos: ainda bem. Porque Marcelo/Armando não é herói, não é vilão, não é anti-herói: é um brasileiro, culto e professor universitário, com grandes potencialidades. Porém, no Brasil, sobreviver com valores, sem cinismo e sem querer salvar a pátria já é um acto político radical e uma questão mesmo de sobrevivência. Wagner Moura ganhou ontem um Golden Globe, mas o sub-texto é outro: ganhou porque entendeu o filme, não porque o representou.

A cidade como arquivo secreto: Recife, a mãe e a frase que resolve tudo
Há um fio pessoal que faz deste livro mais do que um “livro-de-filme”. Kleber cita a mãe, Joselice Jucá, falecida em 1995, historiadora, autora da frase que devia estar impressa na entrada de qualquer cinemateca ou arquivo latino-americano: “Os arquivos têm alma.” E aqui está o truque: o roteiro funciona como um arquivo, mas ao mesmo tempo como um diário inteligente da capital pernambucana: ditadura, censura, milícias, discursos inflamados, violência burocrática, nostalgia militar, tecnologias da vigilância, tudo aparece devidamente registado e isso reflecte-se poderosamente no filme. Não como tese, mas como tecido urbano, como sons da rua, como memórias que o Brasil insiste em empurrar para a gaveta da cozinha. A cidade do Recife — onde o realizador nasceu e cresceu com os seus olhos cinéfilos — não é cenário, é testemunha viva dos acontecimentos. E é impossível não sentir que o filme e o livro tentam fazer aquilo que o Estado actual — e para quem conhece o Brasil — reluta continuadamente em fazer: guardar memória e desprezar o património.

Bordéus, pandemia e a alegria de escrever sem pedir desculpa
Outra camada deliciosa do livro é que parte do roteiro foi escrita na antiga Igreja de Saint-Siméon, hoje Cinema Utopia, em Bordéus, França, em plena pandemia de Covid-19. Um cineasta brasileiro exilado pela força dos acontecimentos, a escrever sobre o Brasil enquanto o Brasil pegava fogo, além de uma grande ironia, é uma metáfora que quase se escreveu sozinha. Kleber descreve esse momento como uma “sensação de safadeza”. Safadeza criativa, claro. Misturar espionagem, política, história, cinema de género e memórias de um país em permanente auto-sabotagem é um luxo raro de se ver. E no livro percebe-se bem esse gozo: não é só um mero roteiro cinematográfico, é um ensaio, é um diário, é um making of. E é, secretamente, um acto de sobrevivência mental em tempos de crise.

O livro como prova de que cinema não é só filme
Editado pela brasileira Amarcord, o livro chega — e deverá estar disponível em breve na Livraria da Travessa, na Escola Politécnica em Lisboa — com design gráfico de Gustavo Piqueira, fotos de rodagem e material visual que dá vontade de roubar para um mural secreto, para uma sebenta pessoal ou caderno de apontamentos de um estudante de cinema. Não é um manual para fãs, nem um press-kit glorificado: é antes uma ferramenta crítica e pedagógica. Serve para estudar, para perceber como um filme nasce, para ligar a política à mise-en-scène, para analisar diálogos e para mapear o Brasil contemporâneo. É livro para sala de aula, para cinéfilo, mas também para o jornalista e para curiosos da Sétima Arte. E confirma sobretudo, que “O Agente Secreto” não é só (e apenas) um filme: é um corpo de trabalho, um objecto de investigação.

Um livro para guardar e um país para decifrar
Para concluir, “O Agente Secreto – Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho” é um livro raro porque faz tudo ao mesmo tempo: amplia o filme, revela os bastidores, fixa um país no papel, captura uma época e ainda arranca algumas gargalhadas nervosas aos mais cépticos e que podem não entender o filme à primeira. E ontem, com a vitória histórica nos Golden Globes 2026, este objecto literário-cinematográfico tornou-se também, além de um objecto de coleccionador para preservar, um símbolo: o cinema brasileiro continua a escrever a sua história, nem sempre pela ordem certa, mas sempre com alma e coração.

