Naomi Alderman

O Poder de Naomi Alderman, em análise

Como seria um mundo liderado pelas mulheres e onde os homens têm medo até de sair à rua? Este futuro distópico e subversivo é nos apresentado em “O Poder” por Naomi Alderman, escritora que já venceu o Orange Award for New Writers (2016) e o Baileys Women’s Prize para ficção (2017).

Tudo começa quando jovens adolescentes descobrem que possuem o poder de criar e transmitir eletricidade pelas suas mãos. Inicialmente visto como casos individuais, depressa o mundo descobre o que acontece quando pela primeira vez na história, a mulher é dona de um poder superior ao do homem, sendo capaz de os magoar e até matar, tomando o controlo completo do mundo ao longo de vários anos que nos são demonstrados no livro pelas histórias de três protagonistas mulheres e um homem.

O que torna este livro interessante é o modo como todas as alterações soam realistas. Os rapazes são segregados e ensinados a manterem-se longe das raparigas – agora em risco de prisão e até de morte – numa sociedade que as vê como terroristas, uma nova ameaça que tem de ser travada o quanto antes. Isto claro na visão dos homens. Onde as mulheres veem um sinal de esperança para um futuro melhor, os homens d’ “O Poder” na sua grande maioria pensam tratar-se do fim do mundo. A ideia de perderem o seu controlo ancestral parece-lhes completamente irrealista, enchendo-os de medo pelo que lhes acontecerá. E não é para menos.

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Os povos mais conservadores são virados de cabeça para baixo, liderados à força por milhões de mulheres mal tratadas desde o início da história. Os círculos de tráfico caem por terra quando as suas escravas têm finalmente nas mãos o poder de ditar o seu futuro. As próprias religiões mudam radicalmente, com as suas devotas a olharem para Maria em vez de Jesus, e a compreenderem Deus como uma mulher que chega finalmente para as salvar.

É interessante ver como um mundo de “igualdade de género” entra em pleno caos quando ameaçado com o fim do patriarcal em detrimento do maternal. É interessante terminar o livro e ter a sensação de que tudo ou quase tudo aconteceria no mundo real e depois compreender que se isso é verdade então não conhecemos assim tão bem a nossa própria realidade.

Curiosamente, no entanto, a violência não é somente contra os homens mas igualmente entre as mulheres, especialmente aquelas cujas ideologias não são tão destrutivas quanto as gerais ou, pior ainda, para com aquelas que não possuem o poder, levando-nos a questionar até que ponto homens e mulheres são de facto diferentes ou se a única coisa que nos distingue é a força natural. E se esta mudança não fosse melhorar o mundo mas de facto invertê-lo no sentido literal da palavra? Alderman deixa isso para o leitor decidir.

Allie, Roxy e Margot são as personagens centrais, todas de origens diferentes. Allie é uma jovem sem rumo que se torna numa figura importante, Roxy é a filha de um gangster que usa a sua influência para ajudar a revolução, e Margot é uma política num alto cargo que terá de fazer o seu melhor para não só não perder o seu lugar como ajudar a revolução através de novas leis e da mudança de mentalidades. Por fim, temos Tunde, um homem que após ver o que estava a acontecer decide visitar o mundo e dar-nos um olhar objetivo sobre o que está a acontecer com outros povos, mergulhando nos seus problemas individuais.

CAPA | VEM DESCOBRIR ‘O PODER’

O poder naomi alderman

Mais do que uma história, a obra é um mergulho no que faz de nós uma sociedade. Se gostarias de ver como seria um mundo ao contrário então não percas o novo livro de Alderman, editado em Portugal pela Saída de Emergência

Ângela Costa

Mestre em Cinema pela Universidade da Beira-Interior, sou apaixonada pelo cinema japonês e toda a cultura que o envolve. Adoro igualmente fotografia e se tiveres curiosidade passa no meu Instagram ;) Música e videojogos são dois outros grandes interesses.

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