O Regresso de Mary Poppins critica

O Regresso de Mary Poppins, em análise

Passaram 54 anos desde que “Mary Poppins” primeiro encantou o mundo através da magia do cinema e agora ela está de volta em “O Regresso de Mary Poppins”. Desta vez, vem auxiliar os dois meninos Banks do filme original, já crescidos e em perigo de perder a casa da família depois de uma série de desgraças que deixaram Michael enviuvado e a trocar os seus sonhos de pintor pelo trabalho num banco que lhe permite sustentar os três filhos.

Algures numa Londres que só existe nos nossos sonhos e no paraíso fabulístico do grande ecrã, o céu está sempre encantador, nunca chove, e numa certa rua agraciada com cerejeiras em flor vive uma família a necessitar de ajuda. Essa ajuda desce dos encantadores céus sob a forma de uma ama que voa de chapéu-de-chuva na mão. Ela é uma personificação de autoridade britânica e irracionalidade infantil, uma senhora ríspida, mas sorridente, encantadora, mas vaidosa, insensível, mas com tendência a momentos de silenciosa melancolia. A ama é mágica, mas em constante negação dos seus poderes.

Ela é Mary Poppins e, quer seja em 1964 ou 2018, a sua missão continua a ser a mesma. Não se trata só de salvar a família Banks, mas sim de salvar o espectador. Por umas horas, ela é Cocteau e é Walt Disney, convidando quem se encontra em frente ao ecrã de cinema, esse portal para mundos fantásticos, a deixar cinismo, ironia e racionalidade para trás e a esquecer o horror da realidade. Na presença de Poppins somos todos crianças, mesmo que a inocência infantil há muito tenha sido soterrada pelas mágoas e revelias da responsabilidade adulta. Trata-se da santa padroeira do escapismo cinematográfico e a única prece que nos exige é que sorriamos e nos deixemos levar pelo seu feitiço de felicidade sintetizada em filme.

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Felicidade sintetizada em forma de filme.

Outrora foi Julie Andrews a trazer tal santidade cinematográfica ao ecrã e agora é Emily Blunt quem segura no famoso guarda-chuva com uma cabeça de papagaio falante. Não se trata da mesma caracterização ou de uma imitação fidedigna, mas sim de um reflexo refratado, de uma nova pintura baseada nos mesmos modelos, de uma rima, como aliás todo o filme é. Em 2018, Mary Poppins ainda é maravilhosa e sua presença aquece o coração só que a nova atriz e outros cineastas envolvidos vieram sublinhar algumas das qualidades abrasivas que estão presentes nos livros de P.L. Travers e nunca antes tinham chegado aos cinemas.

A sua vaidade, por exemplo, é ainda mais intensa e vem complementada com um absurdo sotaque aristocrático, tão carregado que até a família real inglesa estranharia ouvir tais dicções. Só mesmo uma explosão de Cockney para uma performance de music hall oferece alguma variação vocal. Os gestos são menos pronunciados e teatrais que outrora, agora exibindo a graciosidade treinada de quem quer transmitir a ideia de ameaçadora boa postura. O figurino, que em tempos foi simples, agora é detalhado e híper colorido, um caos ordenado de padrões contrastantes com a assinatura de Sandy Powell.

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Apesar de todas estas diferenças, a essência mantém-se e, quando chega a altura de dizer adeus, a fachada de imperiosidade volta a cair como fez em 64 e vemos quanto afeto vive por detrás daqueles olhos sábios. Haverá muitos que, perante tal abordagem de rima nostálgica, irão ver uma falta de criatividade que cada vez mais se faz sentir num império Disney pejado de remakes. Tal crítica é amplamente justificada. Afinal, esta sequela copia a estrutura do primeiro filme, chegando até a incluir uma aventura por um mundo animado em interlúdio musical, uma visita a um parente excêntrico da ama que vive no teto de sua casa e um clímax que envolve o parque local e objetos voadores de deleite infantil.

Face a tudo isso convém, contudo, apontar para a grande diferença entre “O Regresso de Mary Poppins” e esses tantos remakes que copiam filmes plano por plano em sedenta busca de lucro fácil. Enquanto os outros projetos parecem ser feitos quase mecanicamente, com fria convenção e sem riscos, com um olho sempre apontado para o box office, os autores desta aventura londrina exibem genuíno afeto pelo projeto. Tanto que o próprio realizador Rob Marshall teve de ir contra a vontade dos executivos Disney para manter a sequência animada em 2D. É nostalgia desavergonhada, mas nunca é mercenária, permitindo ao filme brilhar em epítetos de sentimentalismo sem estribeiras ou permutações insinceras.

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Lin-Manuel Miranda e Emily Blunt são bons sucessores do legado de Dick Van Dyke e Julie Andrews.

Não há melhor exemplo desta abordagem admiravelmente sentimental que os meninos Banks já crescidos, Michael e Jane, mas principalmente Michael. Outros filmes copiariam à letra o conflito do senhor Banks original, mas Marshall e companhia encontram aqui uma variação melancólica e preciosa, fazendo de Michael um homem a tentar erguer-se depois da perda e não um homem insensível a aprender a dar valor à família. Muito crédito recai sobre Ben Wishaw, cuja prestação é talvez ainda melhor que a de Blunt, pois confere a este filme notas emocionais que nem o original teve a coragem de sugerir.

Quando, pelo clímax, Michael sorri, é como se o céu se abrisse depois de uma tempestade prolongada e, tal como as figuras em cena, o espectador é convidado a sorrir com ele e até a derramar umas lágrimas. Não são lágrimas que caem em gesto triste, sendo prova de júbilo. Em contrapartida, a canção que acompanha o momento, como todas as outras desta sequela, não é tão instantaneamente icónica como as do filme original, os efeitos visuais têm a pátina plástica do digital e tudo tem o gosto da repetição redundante. Voltamos a confirmar que tudo isso é verdade e que tais críticas são justificadas. É igualmente verdade que nada disso interessa.

O deleite em cena não tem de ser condicional da perfeição do passado face à qual a boa qualidade do presente tende a parecer mediocridade. “O Regresso de Mary Poppins” não é tão praticamente perfeito como o seu antecessor sósia, mas não deixa por isso de ser valioso. Para quem deseja descobrir a magia dentro de um balão com Angela Lansbury, ver um espetáculo cockney com pinguins animados, dançar com os luzeiros da Londres dos anos 30 e redescobrir a criança dentro de todos nós, então esta sequela é o toque de magia cinematográfica indicada. Com tal remédio de escapismo fílmico, não é preciso nenhuma colher de açúcar, pois esta cura para as mágoas já é doce o suficiente.

O Regresso de Mary Poppins, em análise

Movie title: Mary Poppins Returns

Date published: 2018-12-20

Director(s): Rob Marshall

Actor(s): Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Wishaw, Emily Mortimer, Pixie Davies, Nathanael Saleh, Joel Dawson, Colin Firth, Julie Walters, David Warner, Kobna Holdbrook-Smith, Jeremy Swift, Meryl Streep, Angela Lansbury, Dick Van Dyke

Genre: Comédia, Fantasia, Família, Musical, 2018, 130 min

  • Cláudio Alves - 75
  • Daniel Rodrigues - 55
  • Luís Telles do Amaral - 68
  • Rui Ribeiro - 92
  • Virgílio Jesus - 90
  • Maggie Silva - 82
77

CONCLUSÃO

“O Regresso de Mary Poppins” está bem longe da perfeição cinematográfica do filme original de 1964, mas é uma sobremesa agradável e lacrimosamente alegre. Um estupendo elenco, design elegante e banda-sonora deleitosa, mesmo que não muito icónica, são os ingredientes desta receita de sucesso que é um filme de família perfeito para a época festiva em que chega aos cinemas.

O MELHOR: Descobrir a magia dos balões com os sorrisos de Ben Wishaw e a voz canora de Angela Lansbury.

O PIOR: A desnecessária injeção de conflito e antagonismo nesta sequela. O universo Mary Poppins não precisa de vilões e certamente não tem espaço para as duas cenas de ação e suspense que foram aqui enfiadas à força.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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