O rock bem disposto de Kurt Vile

Na passada quinta-feira, o Lisboa Ao Vivo recebeu Kurt Vile e The Violators  para uma noite repleta de um rock que vibra boa disposição.

No Lisboa ao Vivo, o burburinho aumenta, passara já meia hora desde as dez da noite. Assobios cruzam o espaço, enquanto a massa de pessoas se ia condensando. Se posta em risco, a expectativa de ver Kurt Vile surgir no palco gerava um certo desagrado pelo vizinho. Quando finalmente entram, Kurt Vile e The Violators espalham-se pelo palco. De passo apressado, o cantor encontra-se com o microfone e apresenta-se com um grave e humilde “Hey”. De imediato atira-se para a primeira canção, “Loading Zones”, espalhando vibrações que prometiam um concerto inesquecível.

“Thank you. How you guys doin?” Não esperou pela resposta, continua, canção atrás de canção, no seu próprio planeta. As pernas flectidas, a cara escondida atrás do cabelo, as costas curvadas, calças de ganga justas, t-shirt sob a camisa aberta aos quadrados vermelha a condizer com os ténis de cano alto. Se realmente tem 38 anos, pela sua indumentária apostaria que tinha menos quinze. Kurt Vile tira a camisa. O calor, que tinha vindo a aumentar, estava quase insuportável. Troca para uma guitarra acústica e a vibração acalma – por meros segundos – os suficientes para percebermos que se tratava de “Bassackwards”. Agora a euforia parte do lado do público. A percussão era de tal maneira hipnótica que dei por mim com a mão a martelar o ritmo no peito. Ouve-se cada corda soar.

A quarta guitarra distinta passa para as mãos de Kurt Vile. As guitarras que trouxe não duravam mais de uma canção nas suas mãos; o cantor trocava-as constantemente. Agora com outra, apresenta a próxima canção: “This song is about sweet fucking chords man”, referindo-se a “Goldtone”. O tom era, de facto, áureo. Se o público repetia as letras, não se fazia ouvir. A voz de Kurt ecoava por cima de todas as outras. Mas as cabeças acenavam e sobrolhos franziam. Ninguém no seu perfeito juízo estava parado.

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Kurt Vile relembrou-nos Meg Baird e Mary Lattimore, a dupla de guitarra e harpa que atuou antes de Kurt. Refere-se a ambas como “Some folky friends from Philadelphia”, descrição que deleitou a audiência. Será que extrovertido e à vontade com o palco são sinónimos de músico de sucesso? Se sim ou não, e por mais que cada um desejasse um diálogo mais íntimo com Kurt, todos respeitámos a sua timidez. Ou melhor, quase todos… Um desesperado fã soltou grito abafado do fundo da sala. Recebeu apenas de Kurt o que pareceu um intrigado e prolongado “Whaaat?!”

A mulher alta que se esticava à minha frente foi-se embora. Aproveitei então para preencher o vazio entre mim e a vanguarda, encostado à grade. Kurt Vile continuava com os seus cordiais agradecimentos, “So good to be back in Lisbon, thank you so much”, enquanto punha ao pescoço o apoio para a harmónica, para que as mãos se pudessem dedicar inteiramente à guitarra acústica. Os Violators desapareceram então e ficou ele apenas, a dedilhar e soprar nos respectivos instrumentos. O público já consegue acompanhar a letra em uníssono com Kurt.

Reaparecido o grupo, Kurt Vile anuncia: “This is a song about wakin up”, frisa o clímax na pausa, “On a pretty day.” A excitação tomou-me e ao resto da multidão neste que foi o momento central do concerto, ali do meu lugar de privilégio, ao som da “Wakin On A Pretty Day”. Solto nas entoações, canta uma fluída versão da canção. Ao olhar para trás, um mar de cabeças agitava-se. Kurt carrega a fundo no pedal por baixo dos seus Vans vermelhos e chicoteou o ar com um ondulado e penetrante som da guitarra acústica. Os aplausos troaram no final. “Alright. We love you, we got a couple more. Thanks for comin’ around. Woooh!” Precipita-se a fazer soar a próxima canção, tentando talvez evitar a conversa entre elas.

Kurt Vile

“I’m lookin’ at you. But it’s only a picture, so I take that back. But it ain’t really a picture, it’s just an image on a screen”. A letra da “Wild Imagination” vagueia engraçada e introvertida. “Give it some time…”, repete pela canção fora. De volta ao refrão, “I’m lookin’ at ALL OF YOU!” Dado o devido tempo, o cantor aventura-se a espreitar por detrás do cabelo. Quando a interacção sugeria a ínfima intimidade, atingia como uma agulha. Agora sensibilizados, tira-nos o chão e despede-se. “Thank you so much, we love you. See you around.” Para o prazer de todos, o lugar-comum foi realizado e voltaram para um último ato. A noite estava ainda incompleta. “You guys gotta go to bed”, e Kurt Vile deu-nos então o copo de leite por que ansiávamos e sem o qual não iríamos de bom grado dormir. Isto é, “Pretty Pimpin”.

Ambos os lados satisfeitos e agradecidos, Kurt Vile soltou um “WOOH!” final e as melodias intermináveis revelaram-se efémeras. Agora de vez, deixou o palco negro, quieto, sob uma fria camada de luz azul, mas a alma quente, o dia seguinte claro e repleto de boa vontade. De manhã, depois de tudo pensei para mim, I did wake on a pretty day.

  • Tomás Marques Pereira - 85
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Tomás Marques Pereira

Vindo da galáxia da História da Arte, tenho um gosto particular por música (tudo o que envolva o triângulo amoroso entre bateria, baixo e guitarra). Disposto a viajar ao passado para visitar um clássico, mais disposto ainda em percorrer as órbitas do presente para conversar sobre os artistas do futuro.

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