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Opinião | ‘The Morning Show’ e o #MeToo à portuguesa

As recentes denúncias de casos de assédio sexual no mundo da televisão e do entretenimento em Portugal traz à ribalta novamente ‘The Morning Show’, a brilhante série protagonizada por Jennifer Aniston, Reese Witherspoon e Steve Carell, estreada em novembro de 2019 na Apple TV. Enquanto não chega a 2ª temporada, a primeira é genial e absolutamente a não perder!

‘The Morning Show’ foi uma das primeiras grandes apostas da Apple TV+ e é uma série que tem conquistado milhões de espectadores, um pouco por todo o mundo. Em Portugal ganhou actualidade e tornou-se exatamente o que precisávamos de ver, na era pós #MeToo nos EUA, por causa também das recentes denúncias de casos de assédio sexual, no mundo da televisão nacional; e também porque decerta forma o acesso à plataforma Apple TV+ está mais facilitado e acessível a todos. Esta série protagonizada (e produzida) por Reese WitherspoonJennifer Aniston, estreou em novembro de 2019 e os episódios da primeira temporada estão todos disponíveis no serviço de streaming da Apple TV+, enquanto se fala já de uma 2ª Temporada, que se aguarda com grande expectativa. A série somou várias nomeações e prémios: esteve nomeada para Melhor Série nos Globos de Ouro 2020, mas perdeu para ‘Succession’, da HBO. Jennifer Aniston também esteve nomeada ao prémio de Melhor Atriz (Série Drama), mas perdeu para Olivia Colman (The Crown). Nos Screen Actors Guild (SAG), os prémios do sindicato dos atores norte-americanos, Jennifer Aniston ganhou o galardão de Melhor Atriz em Série de Drama; e Billy Crudup (Watchmen), venceu um Emmy, com actor secundário, pelo seu papel extraordinário papel de um director de estação, cinicamente muito pragmático. 

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‘The Morning Show’ começa praticamente de uma forma bastante peculiar e semelhante à demissão, ou melhor ao afastamento do pivô/apresentador de Matt Lauer (The Today Show da NBC) na vida real por ‘comportamento sexual inadequado’. No enredo absolutamente brilhante e que retrata o dia-a-dia, de um dos mais famosos (e com maior audiência) noticiários televisivos dos EUA (semelhante ao nosso ‘Bom Dia Portugal’). A famosa estrela do jornalismo e tivô, Alex Levy (Jennifer Aniston), vê-se obrigada a anunciar no ar, a saída repentina do seu colega Mitch Kessler (interpretado por Steve Carell) e seu parceiro ao longo de 15 anos. Foram entretanto reveladas na imprensa de referência (no New York Times, exactamente como aconteceu na realidade), várias acusações de assédio sexual por parte de algumas colegas-mulheres, no seio do influente canal de Nova Iorque. A partir desse momento com as naturais consequências na luta pelas audiências, começa uma verdadeira batalha (de egos, decisões e golpes baixos) sobre quem será o substituto de Mitch, questionando-se também toda a equipa de jornalistas, produtores e executivos, todos muito ambiciosos, se sabiam ou não sobre as ações do colega; e depois a história deriva igualmente sobre toda as questões da ética jornalística e do #MeToo: afinal toda a gente sabe, mas ninguém tem coragem de denunciar, nem as vítimas, nem os colegas, (aliás como acontece em Portugal). No entanto,  a escolhida para substituir Mitche, vai acabar por ser uma irreverente jornalista, Bradley Jackson (Reese Witherspoon), vinda, de uma estação de televisão local, do interior dos EUA. Na série, que na verdade não podia ser mais cínica e realista, Jennifer Aniston interpreta uma espécie de ‘alter ego’ de Diane Sawyer, um símbolo da ABC. E Alex, a sua personagem vai ter de enfrentar essa mais jovem e determinada repórter, interpretada por Reese Witherspoon, que vem praticamente do nada, para co-apresentar, um dos noticiários de maior audiência e que corre riscos de perder audiências.

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A série é baseada no livro ‘Top of the Morning’, (2013), escrito por Brian Stelter, ex-crítico de TV do New York Times, que a acabou por atualizar a obra (os casos de abuso sexual e do #MeToo, foram revelados depois da publicação do livro) e todo um argumento da série de 10 episódios, para refletir melhor e mais profundamente, acontecimentos do #MeToo e os casos de assédio sexual, que eram há muito reconhecidos nos canais de televisão, mas nunca revelados; a série aborda ainda a pressão das audiências e em segundo plano igualmente, a discriminação por causa da idade ou envelhecimentos dos apresentadores, sobretudo quando são sobretudo mulheres. Apesar do realismo e dos factos que realmente fazem supor que tudo aconteceu como assistimos na série, os criadores insistem em dizer, que ‘The Morning Show’ procura satirizar apenas o ambiente das grandes e tradicionais estações de televisão americanas, mas não é baseada em factos concretos da vida real. De qualquer modo tanto do ponto de vista do(s) tema(s) abordados, como da criação cinematográfica e da interpretação dos actores já referidos, aos quais se juntam um elenco de luxo (Billy Crudup, Mark Duplass, Karem Pitman, entre outros ) ‘The Morning Show’ é uma obra, absolutamente genial, que não anda de facto muito longe do que se passa na realidade, inclusive em Portugal. Aguardemos ansiosamente a segunda temporada da série, enquanto por aqui, vamos assistindo, na  realidade, a novos desenvolvimentos e revelações de histórias e casos de abuso sexual, no mundo da cultura e entretenimento nacional. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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