"Ossos e Tudo" | © Cinemundo

Ossos e Tudo, em análise

Depois dos amores cinematográficos de “Chama-me Pelo Teu Nome” e o horror descontrolado de “Suspiria,” Luca Guadagnino apresenta “Ossos e Tudo,” um peculiar romance com rasgos de canibalismo grotesco. A obra foi estreada na Bienal de Veneza, onde ganhou o prémio para Melhor Realização. Com Taylor Russell e Timothée Chalamet nos papéis principais, o filme afigura-se como uma das grandes histórias de amor deste ano em cinema.

O horizonte desenha-se perante os nossos olhos, um céu belíssimo pinta abóbadas de nuvens sobre a terra vazia. Há algo de majestoso em tais cenários naturais, uma grandiosidade que insufla o peito de sentimento, que enaltece a paixão ao mesmo tempo que inspira emoções mais negras. A céu aberto, a solidão esmaga, impossível de ignorar quando tudo parece tão maior que a pequenez humana. Trata-se de um paradoxo, onde a beleza magoa, feia e lacerante como um murro na cara que faz o nariz partir e sangue jorrar. Há aqui romance e terror, êxtase e medo. Falamos dessas grandes expansões na América selvagem e de “Ossos e Tudo.”

Adaptado de um romance de Camille DeAngelis e realizado por Luca Guadagnino, o filme toma muita inspiração da herança cinematográfica estabelecida por obras como “Bonnie e Clyde” que mudou tudo em 1967 e “Os Noivos Sangrentos” de Malick. Tudo se passa nos anos 80, quando a crise dos opioides começava a varrer o continente Americano e outras epidemias se faziam sentir na carne mortal da gente. Era um mundo antes da conetividade contemporânea, quando ainda era possível perder-se na vastidão sem deixar rasto, sem possibilidade de comunicar ou de ser encontrado. Um mundo em que era possível perdermo-nos de nós mesmos.

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Assim faz a misteriosa Maren que conhecemos antes desta se fazer à estrada. Num primeiro ato que sabe a prólogo, deparamo-nos com sua vida mundana algures na Virginia. Ela e o pai acabaram de se mudar para lá e a jovem apenas agora começa a fazer amigos. Guadagnino pouco revela e seus atores também mantém as cartas junto ao peito, deixando-nos seguir as reticências dramáticas até ao momento de choque que verdadeiramente ateia o pavio da narrativa. Acontece que Maren é consumida por desejos canibais e, quando age consoante a fome, ela e o pai são forçados a fugir na calada da noite. Depressa entendemos que esse sistema já dura há muito.

No entanto, parece que a vida nómada já não agrada ao patriarca. Em desespero, ele deixa a filha sozinha em Maryland, uma certidão de nascimento e uma cassete em jeito de carta de despedida a servirem como únicas âncoras para a rapariga às margens da vida adulta. Ele também deixa algum dinheiro e ela depressa decide usá-lo para comprar bilhetes e viajar pelos EUA à procura da mulher que lhe deu vida. A mãe só existe para Maren enquanto um nome no documento oficial, fazendo do seu descobrimento uma missão um tanto ou quanto impossível. Pelo menos, assim parece em primeira análise.

Percorrendo cidades pequenas e lugares esquecidos, pobreza sem limites e impulsos igualmente profundos, Guadagnino desenha a viagem de Maren em cenas curtas e vislumbres fragmentados. O diretor de fotografia Arseni Khachaturan muito faz para encontrar o deslumbramento inerente à desolação, apelando a visões apaixonantes sem reduzir os espaços a postais vivos. Muito ajudam os cenários de Elliott Hostesser e os figurinos de Giulia Piersanti, grandes colaboradores do cineasta que sempre sabem como conjurar realidades viscerais no ecrã de cinema, texturas rudes e pormenores inusitados dando ares de autenticidade falseada.

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Acima de todos esses elementos, a montagem de Marco Costa dá ritmo aos estilhaços de cenas, enquanto a música de Trent Reznor e Atticus Ross desembaraça os emaranhados de referências, tanto a sons clássicos como modernismos abstratos. O resultado é um luxuriante repertório que sublinha as emoções complicadas com que Guadagnino tanto gosta de trabalhar. De facto, “Ossos e Tudo” é um exemplo perfeito dessa qualidade no cinema deste mestre italiano, transbordando compaixão ao mesmo tempo que considera comportamentos atrozes, homicídios repugnantes e violência sem estribeiras. Certamente vai além do bom gosto convencional, mas fá-lo na procura de verdades difíceis de alcançar por vias diretas.

Parte da sua magia é articulada pela tapeçaria de personagens com que Maren se cruza. Há uma forma picaresca visível no argumento, uma história definida pelos encontros da jovem com outras pessoas do seu tipo, desvendando uma comunidade às sombras do mainstream onde cada um é condenado à vida escondida devido ao que o corpo demanda. Longe de julgar essas pessoas, a câmara considera sua simultânea humanidade e desumanidade, fazendo da contradição sua ideia basilar. É neste terreno fértil para um realismo além da realidade que o filme encontra o desabrochar do amor. Afinal, esta é a história de Maren, mas também se poderia dizer ser um conto sobre a alma perdida de Lee.

Eles encontram-se por acaso, identificando a natureza predatória através do cheiro e assim se aproximando pelo que viam de si um no outro. Esse processo de reconhecer parecenças no outrem acaba por ser um dos alicerces deste filme que, em momentos finais, revela ser tanto sobre comer outras pessoas como é sobre ansiar por um lugar no mundo. Todos queremos coisas que não devíamos querer, todos temos impulsos que vão contra os valores cravados no coração a ferro e fogo. Todos queremos um lar, quer seja ele um espaço em que podemos ser quem somos livremente ou alguém que nos dá esse mesmo conforto. Nessa vertente, “Ossos e Tudo” usa o terror como veículo para ir à descoberta do universal.

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Também os mecanismos de género e pesadelo servem para sublimar partes da relação entre Lee e Maren. O desejo é faceta tão importante para o filme como a necessidade de perdão, mas o sexo está ausente a não ser num momento de caça. Dito isso, o filme resvala no erotismo vezes sem conta, desde a intimidade de corpos ensanguentados secando em comunhão até aquele gesto mais íntimo de todos, tão sacrossanto que fica mal escrevê-lo. Há que ver para crer.  Assim é com o filme todo, tal é o assombro que inspira no espetador e os caminhos tortos que usa para chegar até essas reações. Já aqui se falou do engenho formalista, mas os atores também merecem aplausos.

Aliás, se há um grande problema em “Ossos e Tudo” será quão difícil será para qualquer audiência se abstrair do reconhecimento de caras famosas. Por outras palavras, há tantos nomes sonantes neste elenco que leva à distração. Mark Rylance, Chloe Sevigny, André Holland, Michael Stulhbarg, David Gordon Green e até Jessica Harper aparecem em papéis secundários, puxando a atenção dos protagonistas para a bizarria do seu casting. Não que sejam maus atores ou prejudiquem o filme. Contudo, qualquer coisa que distraia do duo principal é crime que mereceria pena capital num mundo justo.

Como Lee, Timothée Chalamet jamais foi tão transparente, combinando o lado calculista do assassino com o semblante de um menino perdido em busca de amor. Taylor Russell é ainda melhor no papel de Maren, conjugando todas as contradições que Guadagnino lhe arremessa como desafio, fazendo com que a insanidade saiba a razão, com que o desespero cheire ao sublime. Nas suas mãos, “Ossos e Tudo” afigura-se avassalador, aquele género de filme que nos entra pela alma adentro e faz sentir algo que assusta e inebria, que nos leva aos epítetos da loucura. Tal como Maren e Lee consomem suas vítimas, como a paisagem americana se impõem à gente solitária, também a história destes canibais nos engole por inteiro.

Ossos e Tudo, em análise
Ossos e Tudo

Movie title: Bones and All

Date published: 6 de December de 2022

Director(s): Luca Guadagnino

Actor(s): Taylor Russell, Timothée Chalamet, Mark Rylance, André Holland, Anna Cobb, Michael Stuhlbarg, David Gordon Green, Chloe Sevigny, Jake Horowitz

Genre: Drama, Terror, Romance, 2022, 131 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Maggie Silva - 74
80

CONCLUSÃO:

“Decisão de Partir” mostrou-nos como o homicídio pode ser uma linguagem do amor ainda este ano. “Ossos e Tudo” vem confirmar essa ideia, extravasando o romance cinematográfico através de uma narrativa sanguinária de canibais e suas fomes insaciáveis. Luca Guadagnino é um génio sensualista e este é mais um triunfo na sua filmografia.

O MELHOR: A banda-sonora apaixonante de Trent Reznor e Atticus Ross, a beleza fotográfica, a adaptação literária e o trabalho dos atores principais.

O PIOR: Por vezes, contratar caras conhecidas para papéis menores não é boa ideia. Ver o britânico Oscarizado Mark Rylance aparecer em três sequências sinistras tem o seu quê de engraçado, mas é difícil ignorar o esforço interpretativo ou quanto ele está a trabalhar fora do seu conforto. Funciona enquanto exercício de ator sem necessariamente beneficiar a dramaturgia ou o filme na sua totalidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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