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‘O Amante de Lady Chatterley’, em análise

A nova adaptação ao cinema de ‘O Amante de Lady Chatterley’, é muito bem realizada pela actriz francesa Laure de Clermont-Tonnerre e procura capturar o tormento, a sensualidade e a emoção do romance original de D. H. Lawrence e dar-lhe mais alguma coisa. Está disponível na Netflix.

Nesta nova adaptação de ‘O Amante de Lady Chatterley’, realizada pela actriz francesa (agora realizadora) Laure de Clermont-Tonnerre (‘Mustang-Alma Indomável’, 2019), a partir do clássico romance de D.H. Lawrence, é preciso dizer que a britânica Emma Corrin — entre os seus papéis mais proeminentes conta com a interpretação da jovem Diana, Princesa de Gales na série ‘The Crown’ da Netflix — interpreta maravilhosamente a protagonista Constance Chatterley. Escrito em 1926 e 1927 e proibido em 1928, ’O Amante de Lady Chatterley’, de D. H. Lawrence, foi um dos livros mais controversos publicados no século XX. Banido em vários países, qualificado como um romance obsceno por uma sociedade envergonhada e preconceituosa e para quem não conhece esta obra, ela retrata uma envolvente história de amor e sensualidade entre um homem da classe trabalhadora e uma mulher da classe alta; mas sobretudo porque é uma obra marcada pela forma como realça a necessidade de um misto de fusão física e espiritual, entre aqueles que estão intimamente ligados pelo amor independentemente do seu estatuto social. A obra, um clássico do erotismo, é também uma narrativa franca e aberta sobre a representação do prazer feminino, até aí como algo que não existia ou não era aceite pela sociedade puritana e conservadora.

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A britânica Emma Corrin, interpreta maravilhosamente a protagonista Constance Chatterley ©Netflix

De facto é à interpretação da bela Emma Corrin como ‘Connie’, que se deve em grande parte o interesse desta nova versão de ‘O Amante de Lady Chatterley: ’Connie’, é uma mulher impulsiva e sensível, casada com Sir Lord Clifford Chatterley (Matthew Duckett), aliás como se passa na obra original. Porém, logo nas cenas iniciais se estabelece subtilmente que a instituição ‘casamento’ é considerada apenas um motivo para produzir um herdeiro da grande propriedade e dos bens do Lord. Caso contrário, por que é que um aristocrata tão distinto ‘se casaria com uma baronete?’ Clifford desculpa-se com Constance em privado e esta parece aceitar com alguma ternura e conforto a situação. Em breve, Sir Clifford será mobilizado para a frente de combate e, mais tarde, saberemos que vai regressar da I Guerra Mundial, com ferimentos que o incapacitam e o ‘atiram’ para uma cadeira de rodas. Ainda assim, no início Connie não parece realmente importar-se com isso, até que a falta de intimidade física e emocional, com o marido, começa a devorá-la lentamente. Connie conhecerá o belo guarda-caça, Mellors (Jack O’Connell), e com ele vai desenvolver uma obsessão, que vai alterar as suas vidas para sempre.

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Contudo, nesta nova adaptação para a Netflix tudo parece muito bem orquestrado e organizado de forma a realçar sobretudo a emoção proibida da narrativa, embalando-a ao mesmo tempo com segurança para uma terna história de amor, que neste caso até tem um final feliz, um pouco diferente da obra original. E perdoe-me o spoiler. Mas a vida também proporciona por vezes muitas histórias com um final feliz. Essas palavras são aliás mais ou menos ditas, pela Sra. Bolton (Joely Richardson), a enfermeira de Lord Clifford, que quase no final do filme, procura silenciar as intrigas e insinuações sobre o que aconteceu entre os dois ‘amantes proibidos’. Neste drama literário de época, além dos actores serem maravilhosos — à boa maneira inglesa — tudo é combinado à custa de um exuberante design de produção, um lindíssimo guarda-roupa e um enorme rigor em todos os detalhes de época, e uma suave banda sonora de Isabella Summers, que nos permite dar algum tempo para que o filme suavemente vá construindo o seu mundo. As muitas cenas de sexo, são todas marcadas por uma enorme beleza, energia vibrante e uma ternura suficientemente adequada, a cada uma das situações, sejam nos campos verdes, sejam no pavilhão de caça.

O Amante de Lady Chatterley
Há aliás uma boa química entre os atores principais: Emma Corrin e Jack O’Connell ©Netflix.

Há aliás uma boa química entre os atores principais, que se vê logo nas primeiras cenas: nota-se uma terna cumplicidade entre Constance e Mellors logo quando se encontram pela primeira vez no pavilhão de caça e depois partilham um espaço na floresta, embora a paixão proibida, leve o seu tempo a desenvolver-se e não seja imediatamente sentida pelos espectadores. Emma Corrin, é efectivamente tão brilhante quanto já tinha sido no seu papel da jovem princesa Diana em ‘The Crown’, esforçando-se ainda mais para dar a Constance a sensibilidade de uma mulher progressista e moderna, com poder, carácter e sensibilidade, capaz de tocar em simultâneo o desejo de maternidade e a busca da intimidade e do prazer feminino. Por sua vez, Jack O’Connell talvez não consiga explorar tanto a mágoa e a dor do passado de Mellors, — uma amargura que está aliás bastante marcada na obra literária — mas essa em parte é a essência feliz do filme, que procura centrar-se mais na bela afirmação de liberdade e prazer feminino da protagonista.

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O Amante de Lady Chatterley
As muitas cenas de amor e sexo, são todas marcadas por uma enorme beleza, energia vibrante. ©Netflix

Este ‘O Amante de Lady Chatterley’ mostra igualmente como já a disse a questão da importância da classe, na sociedade britânica dos anos 20, sobretudo na superioridade como Sir Clifford trata o criado Mellors ou como até permite que Constance produza um herdeiro mas se apenas escolher ‘o tipo certo de homem’ — considerando apenas os homens de classe alta para o ato — e for capaz de ‘governar as suas emoções de acordo’ com o seu estatuto. Contudo, e apesar dos muitos conflitos que vivem os protagonistas esta versão de ‘O Amante de Lady Chatterley’, é um belo conto de amor meticulosamente educado, plácido e sobretudo feliz, para desfrutar em tempos de tanta incerteza.

JVM

O Amante de Lady Chatterley, em análise
O Amante de Lady Chatterley

Movie title: Lady Chatterley's Lover

Movie description: Lady Chatterley, uma bela aristocrata com um casamento infeliz e sem afecto, que começa um romance tórrido, apaixonando-se profundamente pelo guarda-caça da propriedade rural do seu marido.

Date published: 7 de December de 2022

Country: Reino Unido, França

Duration: 127 minutos

Director(s): Laure de Clermont-Tonnerre

Actor(s): Emma Corrin,Jack O'Connell,Matthew Duckett

Genre: Drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO:

‘O Amante de Lady Chatterley’, de Laure de Clermont-Tonnerre é em primeiro lugar um belo e sensual retrato sobre o desejo feminino. É ainda um belo e maduro drama de época cujos temas de liberdade e amor são tão relevantes agora quanto eram quase um século atrás, num filme que convida os espectadores a deixarem-se ir suavemente e sem culpa através seu erotismo cativante, ambientes exuberantes e  interpretações de fabulosos actores. A receita perfeita, que também é preciso, às vezes, para uma noite inspirada pela beleza e pelo prazer da sexualidade.

Pros

A interpretação dos actores, principalmente de Emma Corrin e sobretudo o magnífico design de produção, onde se inclui um maravilhoso guarda-roupa, sobretudo da protagonista.

Cons

Precisamente esse lado menos trágico do filme, que mantêm apesar de todos os conflitos um tom plácido, educado e que abre uma certa esperança no futuro dos protagonistas.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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