"Riotsville, U.S.A." | © Field of Vision

Porto/Post/Doc ’22 | Riotsville, U.S.A., em análise

Uma das convidadas de honra do nono Porto/Post/Doc foi a brilhante cineasta Sierra Pettengill. Baseando-se exclusivamente em filmagens de arquivo, a realizadora tem vindo a dissecar instituições americanas. No festival, várias obras passadas foram incluídas, mas também foi exibida a mais recente longa-metragem de Pettengill. Estreado originalmente em Sundance, “Riotsville, U.S.A.” tem vindo a ganhar muitas honras pelo mundo fora, inclusive uma indicação para os Film Independent Spirit Awards na categoria para Melhor Documentário.

Ao longo da sua carreira, Sierra Pettengill tem mostrado como grande cinema pode ser feito através de material pré-existente, usando imagens de arquivo contra si mesmas num esforço para revelar verdades latentes. Alguns dos seus maiores triunfos foram feitos no panorama da curta-metragem. “Graven Image” examinou um Monumento da Confederação como sinédoque de todo um sistema racista, mostrando como a celebração cega da história pode resvalar na política reacionária, no revisionismo baseado no preconceito. O melhor de tudo é que essas conclusões emergem das imagens criadas em celebração do monumento em si.

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A montagem de Pettengill simplesmente escoria suas platitudes superficiais, esculpindo o material até nele revelar as suas conclusões. Trata-se de um trabalho onde os cortes fazem colidir os planos díspares e daí nascem novas ideias. “The Business of Thought: A Recorded History of Artists Space” reforçou as atenções da realizadora numa expressão artística mais próxima de valores liberais. Contudo, também neste cenário a sombra do conservadorismo nocivo se faz sentir, a curadoria existindo enquanto contradição das normas opressivas. No contexto do Porto/Post/Doc, foi interessante reencontrar alguns dos mesmos vídeos incluídos na nova fita de Laura Poitras, filme de encerramento do festival.

Por fim, temos “The Rifleman,” a última curta que Pettengill realizou antes de “Riotsville, U.S.A.” e seu mais claro predecessor. Aí encontramos um feroz documento contra a NRA e seus maiores figurões do jogo legislativo, iluminando as suas hipocrisias e crimes esquecidos. Essa curta é como um choque para o sistema, delineando uma vontade ativista que é transversal a todo o trabalho da realizadora, chegando à sua primeira apoteose com esta nova longa-metragem. Há uma ideia que ressoa por estes filmes, uma interrogação que pergunta como chegámos até aqui. Vendo o passado, quiçá aprendamos a entender o presente, a lutar contra suas injustiças.

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Neste caso, a cineasta vai em busca das origens sistémicas para a presente conjetura de violência policial com ramificações racistas. Sua pesquisa leva-a até aos arquivos mantidos pelo próprio governo americano, resquícios de um projeto em que novos agentes eram treinados em cidades falseadas, aprendendo a reagir com força contra qualquer tipo de manifestação pública. A jornada até esta informação começou há muito tempo, quando leu um livro do historiador e jornalista Rick Perlstein. “Nixonland: The Rise of a President and the Rise of America” continha menção desses cenários de treino, essa resposta coordenada contra uma sociedade onde a luta pelos direitos civis inspirou reações sanguinárias por parte daqueles no poder.

Por isso mesmo existem tantos registos oficiais, enterrados em arquivos históricos onde se esperava serem esquecidos desde o auge do projeto nas décadas de 60 e 70. Pettengill assim nos expõe a filmagens recontextualizadas pela narração poética, quiçá desnecessária, e sua acumulação ao longo de hora e meia. Estabelecem-se ligações próximas entre o artifício e a propaganda, entre a loucura dessas encenações amotinadas e seu insidioso legado. Não que existam aqui intromissões clarividentes da perspetiva contemporânea, sendo que existe uma série distanciação entre a cineasta e o espetador. Expõe-se a imagem e constroem-se argumentos, mas as conclusões são de cada indivíduo sozinho perante o ecrã na sala escura.

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Há uma certa alienação neste mecanismo, algo sublinhado por um trabalho sonoro que inspira ideias de máquinas-deusas, grandes engenhos a engolir o mundo com seus ruídos guturais, meio metálicos e meio abstratos. Nels Bangerter vai entrecortando entre duas dessas Riotsvilles sob essa abóbada de som, perdendo-se no teatro policial e nos preconceitos que a dramaturgia belicosa denuncia. Há uma qualidade surreal nestas justaposições, especialmente quando nos apercebemos que os atores em cena são também eles polícias, alguns deles dando vida a caricaturas raciais das suas mesmas etnias. Noutra situação, esses detalhes podiam ser quase cómicos – aqui, enchem o coração de nervos.

Em estado inquieto, vamos vislumbrando uma visão histórica mais alargada, ocorrendo nas periferias destas Riotsvilles. É aí que a segunda metade do título realmente ganha vida, com Pettengill a traçar elos entre o ontem e o hoje, talvez o amanhã, entre a ascensão de políticos republicanos e a legitimação do preconceito enquanto ferramenta institucional. Fazem-se rimar Histórias, convenções partidárias e notícias sensacionais, uma cacofonia de informações que, quando filtradas pela realizadora, se convertem numa melodia sinuosa, cortante e afiada o suficiente para nos fazer sangrar. Um derradeiro apelo a sonhos utópicos, às noções urbanísticas de June Jordan, introduz mais uma cidade imaginária neste espetáculo documental. Só que, desta vez, vemos um mundo desenhado em prol do progresso ao invés do ódio. Trata-se de um suave raio de esperança, um beijo reconfortante que também é a final investida da realizadora. Afinal, a luz só faz com que as sombras se sintam mais profundas e cruéis, sua realidade vil intensificada e posta a descoberto pelo engenho cinematográfico de “Riotsville, U.S.A.”

Riotsville, U.S.A., em análise
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Movie title: Riotsville, U.S.A.

Date published: 6 de December de 2022

Director(s): Sierra Pettengill

Actor(s): Charlene Modeste

Genre: Documentário, 2022, 91 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Riotsville, U.S.A.” é mais um destemido grito de raiva pela parte da realizadora Sierra Pettengill, nova grande voz no panorama documental norte-americano. Em jeito de historiadora, a cineasta pesquisa a criação de cidades falseadas para treinos policiais, apurando a génese de muitas medidas sistematizadas nas últimas décadas que só têm vindo a piorar a questão da violência por parte das autoridades para com minorias étnicas.

O MELHOR: O sentimento de urgência e ultraje que reverbera pela obra, anunciando um cinema político sem vergonha de si mesmo, cheio de ambições e muito a dizer sobre a História dos EUA.

O PIOR: A narração com pretensões líricas está a mais, é desnecessária e só distrai da maravilha que Pettengill e Bangerter engendraram na mesa de montagem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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