via 79º Festival de Veneza

79º Festival de Veneza (3) | ‘Bones and All’: Amor e Carne

O cinema italiano chegou à competição de Veneza 79, com ‘Bones and All’, de Luca Guadagnino, a partir do romance de Camille DeAngelis: história de sobrevivência, paixão, canibalismo e marginalidade, comum elenco soberbo: Timothée Chalamet, Mark Rylance, Chloë Sevigny, Jessica Harper.

De facto o cinema italiano chegou à competição, mas pela mão do mais cosmopolita dos realizadores europeus. As paisagens arrebatadoras do Ohio ao Nebraska, ou do interior dos EUA, são as localizações deste ‘Bones and All’, falado em inglês — aliás produção da ‘velha’ MGM, do Leão, o que pode ser um bom presságio — do consagrado cineasta Luca Guadagnino (Chama-me Pelo teu Nome). O realizador compões uma estranha história, uma espécie de road-movie com os protagonistas a fugirem de si mesmo, que fala de amor, canibalismo e personagens que vivem à margem da sociedade. Às vezes faz lembrar um pouco ‘Os Noivos Sangrentos’, (1973), de Terrence Malick, com Martin SheenSissy Spacek e Warren Oates. Neste sentido, também ‘Bones and All’ é uma história romântica e trágica, sobre a impossibilidade do amor e ainda, sobre a necessidade dele, sobretudo, nas circunstâncias extremas em que vivem os dois personagens principais, que aparecem fugir de um mal que parece ter nascido com eles e do qual não conseguem livrar-se.

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Este curioso road movie, é protagonizado por Taylor Russell, no papel de Maren — numa extraordinária interpretação — uma rapariga de 18 anos deixada sozinha, que tenta entender-se a si mesma, e por Timothée Chalamet —um dos actores fetiches do realizado — que interpreta Lee um outro jovem andarilho, sem escrúpulos, mas com uma alma combativa, que também está entregue a si próprio, Juntos, os dois jovens partem numa odisseia de muitas milhas, numa velha carrinha, que os leva pelas estradas secundárias e passagens ocultas do interior da América, no tempo de Ronald Reagan e dos gravadores com headphones; apesar de seus pecados e dos sobretudo dos seus esforços, o destino parece levá-los de volta ao seu terrível passado e à sua arrepiante natureza. ‘Bones and All’ é uma adaptação cinematográfica do perturbador romance com o mesmo título de Camille DeAngelis, que também escreveu o argumento juntamente com David Kajganich, que já tinha trabalho com Guadagnino, no em ‘Suspiria’ (2018) e em ‘Mergulho Profundo’ (2015). Marcado pela história logo na primeira leitura, e na linha de ‘Suspiria’, o realizador pensou imediatamente nos papéis principais para Chalamet e Russell, dois actores com grande química e que têm a capacidade de devolver aos espectadores sentimentos bons e universais, mesmo ao interpretarem personagens que vão aos limites do terror como é este o caso. No filme, Guadagnino como que observa os protagonistas dando-lhes uma espécie de liberdade para se expressarem por si mesmos e as suas verdade, através das suas ações, mesmo  quando estas têm aspectos muito negativos. Ambos vivem à margem da sociedade não por culpa própria, mas por algo que nos atrai e emociona, mesmo que seja horripilante. Maren e Lee na verdade viajam para descobrir a verdade sobre si mesmos e a razão para cometerem actos tão horríveis, procurando ao mesmo tempo encontrar um lugar e um mundo, que tolere a sua natureza ou a forma de a superarem ou de controlarem-se a si mesmos. Notável a interpretação de Mark Rylance, outro personagem que na solidão procura também fugir ao seu destino e o regresso de Chloë Sevigny e Jessica Harper, em pequenas aparições.

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VÊ TRAILER DE ‘BONES AND ALL’

‘Athena’ de Romain Gavras, filho de Costa-Gavras, um filme escrito juntamente com o cineasta Ladj Ly (‘Os Miseráveis’), fala de uma marginalidade, completamente diferente,  mas nem por isso menos trágica. A história do filme é centrada numa revolta popular de jovens dos subúrbios parisiense, após o assassinato pela polícia de um jovem de origem magrebina. Mais de dois séculos depois da Revolução de 1789, a França é ainda uma terra de lutas e tensões, onde os valores de liberdade, igualdade e fraternidade não são realmente aplicados e usufruídos por todos os seus cidadãos de origens muito diferentes. Um lugar emblemático onde são reveladas as muitas contradições daquele país (e também da Europa como um todo) são os banlieues, subúrbios urbanos habitados por uma população heterogénea e sobretudo descendentes de imigrantes magrebinos ou de África, muitas vezes relegados, não apenas geograficamente, mas  também à margem da sociedade. O cinema tem repetidamente relatado esta raiva por vezes contida outras vezes explosiva, os conflitos sociais, étnicos e culturais e os gritos de exasperação dessas pessoas: estou a lembrar-me por exemplo de um dos filmes mais emblemáticos sobre esta questão: ‘O Ódio’, de Mathieu Kassovitz, com com Vincent Cassel. Porém, pouco parece ter mudado desde aquele filme de 1995, inspirado no assassinato real de um jovem pela polícia. Na tragédia contemporânea de ‘Athena’, também em competição de Veneza 79, o assassinato, ‘supostamente’ pelas mãos da polícia do jovem magrebino — o mistério fica resolvido no final —, o irmão mais novo dos três protagonistas, vai desencadear a tremenda revolta no banlieue: a insurreição popular é filmada como se fosse uma autêntica guerra, sem barreiras e com bastantes meios cinematográficos, que fazem lembrar os melhores filmes de guerrilha urbana, passados no Iraque ou Afeganistão.

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VÊ TRAILER DE ‘ATHENA’

Na verdade já Ladj Ly, co-argumentista de ‘Athena’, tinha desenvolvido uma história semelhante no seu primeiro e deslumbrante filme como realizador: ‘Os Miseráveis’, que é outro incendiário retrato dos conflitos nos subúrbios franceses, apresentado em Cannes 2019 e vencedor do Prémio de Argumento dos European Film Awards. ‘Athena’ é dirigido por Romain Gavras, filho do grande cineasta grego Costa-Gavras e que conhece bem os banlieues desde que começou a trabalhar em videoclipes, com alguns rapper e músicos franceses como em: ‘Stress’ (2008), com a dupla eletrónica Justice, um filme gerou muitas discussões devido à sua brutalidade. Após isso, Gavras assinou a sua primeira longa-metragem de ficção, Our Day Will Come (2010), — um filme inspirado em outro dos seus mais provocativos videoclipes: ‘Born Free’ de M.I.A. — uma história de marginalidade e violência, interpretada (e co-produzida) curiosamente por Vincent Cassel. Entretanto, o actor trabalhou com Romain Gavras, em ‘O Mundo é Teu’ (2018), uma grotesca comédia policial, centrada num grupo de pequenos traficantes de drogas, na tentativa de fazerem um grande negócio. Este filme iniciou a colaboração do realizador com a Netflix, que também será a distribuidora de ‘Athena’, sendo mais um na competição de Veneza 79, nas mãos da plataforma de streaming.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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