Outlander | Figura de Estilo, T2E13

No final desta temporada, Outlander chega a 1968 e os figurinos concebidos por Terry Dresbach voltam a mostrar-se essenciais para o sucesso da série.

 

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O último episódio de Outlander, o derradeiro capítulo da segunda temporada, aborda as horas que antecedem a batalha de Culloden, onde os escoceses que se rebelaram contra o domínio ingleses foram dizimados. Como pouco tempo passou desde o episódio 12, praticamente todos os figurinos são os mesmos e apenas o conjunto que Claire enverga é de destacar. No meio de uma montanha de lãs encharcadas, escuras e sujas, ela veste uma impecável indumentária em lã verde. Poderíamos criticar o trabalho de Terry Dresbach e sua equipa, pois estas roupas deveriam estar muito mais desgastadas pela dureza da campanha militar, mas é essencial que a audiência veja bem este figurino. Afinal, este é o conjunto que Claire enverga no primeiro episódio da temporada, e assim lembramo-nos logo que o seu regresso aos anos 40 é uma imparável realidade.

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No entanto, a maior parte deste episódio não decorre no século XVIII, mas sim em 1968, quando Claire e sua filha, Brianna, visitam a Escócia para irem ao funeral do Reverendo Wakefield. A primeira cena que vemos neste final de temporada, nem sequer tem a presença de Claire, mas é centrada em Roger, o filho adotivo do clérigo. Basta um breve vislumbre da sua figura e vemos que é escocês com os seus tons terrenos e gravata tartan, e essa ligação à herança histórica do seu país é uma carga visual que se permeia por todo o episódio.

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Se Roger é tão escocês que quase se camufla entre os figurantes vestidos de modo semelhante, então Brianna é uma completa outsider, uma sassenach. Muitos dos seus figurinos mostram tons de azul ausentes das restantes roupas vistas no episódio e até os materiais de peças como uma boina em veludo cotelê mostram a sua distância deste mundo. Apesar disso, Terry Dresbach cria uma inequívoca ligação entre ela e Roger, sempre criando conjuntos em harmonia. Castanhos que complementam azuis-escuros, cachecóis axadrezados semelhantes e até o uso de camisolas de lã tricotada, uma bela imagem de conforto e segurança quando contraposta com a miséria das cenas setecentistas.

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Todas as cenas no século XX são bastante coloridas em comparação ao que a série nos tem habituado com os seus mais recentes capítulos, e isso é especialmente aparente em Claire. A equipa de maquilhagem de Outlander pode ter decidido que a única mudança que a protagonista teria sofrido em duas décadas são umas atraentes madeixas de cabelo cinzento (nada de rugas para a heroína), mas os seus figurinos contam uma história bastante diferente. Fora dos seus corpetes apertados e volumosas saias de lã pregueada, vemos Claire com um estilo maturo e perfeito para as modas dos anos 60, em tons decididamente mais claros e vistosos que as que vestiu no meio da guerra contra as forças inglesas.

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O verde é a sua principal cor, ligando-a à paisagem envolvente muito mais que Brianna, cujo guarda-roupa é quase sempre um elemento de contraste. Claire e a sua filha padecem de uma falta de ligação e honestidade no início do episódio e essa separação é exacerbada pelo guarda-roupa que raramente as coloca em harmonia uma com a outra. Quando Claire está em cores claras e vibrantes, Brianna está de escuro, quando Claire está vestida com um kilt e uma delicada camisola creme, Brianna enverga calças e uma grossa camisola com um padrão complicado e em cores antagónicas às da sua mãe. A única notória exceção é a cena final, em que finalmente as duas estão unidas.

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De certo modo, apontamentos como esse já referido kilt e o gosto por verde, marcam Claire como uma mulher intrinsecamente ligada à Escócia e, a um nível mais especificamente pessoal, ao passado dessa nação. Quando está num museu local, a nossa heroína lança olhares trocistas à figura de cera do Príncipe Carlos, que aí é idealizado como um herói bravo e valeroso e não como o tolo incompetente que ela conheceu. Esse momento mostra o irrevogável cisma entre o passado histórico e o presente e entre Claire e as pessoas com quem ela convive. Alguns dos grandes apoiantes dessa visão polida de Carlos Stuart são os estudantes nacionalistas que Brianna encontra numa visita à universidade onde o Reverendo Wakefield trabalhava.

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A líder desses estudantes nacionalistas é Geillis, ou melhor Gillian, antes de viajar para o passado. Tal como os seus companheiros fizeram com o seu vestuário, Gillian apropriou-se da imagética e da cultura do passado histórico e romantizou-a até ter um ideal ilusório, uma nobre visão de uma Escócia subjugada mas intrinsecamente heroica. O seu vestido é de uma cor que salta à vista na multidão e o seu corte é extremamente moderno, sendo que, por muito que ela tente, Gillian nunca será uma mulher desse passado romântico. Interessantemente, quando a vemos fazer a sua viagem no tempo, ela enverga um figurino bastante mais convencional que as roupas que usou na primeira temporada. Talvez, com o passar dos anos, ela tenha deixado de se iludir que era parte de um nobre passado e simplesmente desistido de se camuflar e esconder.

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Com a viagem dessa viagem da revolucionária Geillis para o passado e uma revelação que abala o mundo de Claire, a segunda temporada de Outlander chega ao fim. O trabalho de Terry Dresbach e sua equipa foi admirável, mesmo considerando alguns passos em falso, especialmente nas secções mais opulentes da narrativa em França. Pelos seus esforços nos figurinos do segundo episódio, a figurinista recebeu mesmo uma nomeação ao Emmy, mas apenas saberemos em Setembro se a série acaba galardoada ou não. Considerando que este foi um programa que teve de vestir três épocas diferentes, culturas históricas com estilos de indumentária fortemente distintos e vários níveis da sociedade no meio de uma guerra sangrenta, este é um feito que inspira celebração, independentemente dessa vitória nos Emmys se materializar ou não. Parabéns Terry Dresbach!

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Com este episódio, também chega ao fim a nossa cobertura dos figurinos da segunda temporada de Outlander. Ficamos portanto à espera do próximo capítulo na história dos Fraser que só chega para o ano. Com sorte, os figurinos serão ainda melhores!


 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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