Outsiders 2026 | Twinless – A Crítica
O Festival Outsiders, organizado pela FLAD, regressou à capital lisboeta entre os dias 27 de janeiro e 1 de fevereiro, com um total de 12 obras inéditas em Portugal, todas elas com reconhecimento no circuito de festivais à escala internacional.
Entre a seleção do “Outsiders” encontrámos um indie norte-americano verdadeiramente memorável, e que achamos pecaminoso não ter tido distribuição comercial em Portugal. “Twinless” tem de tudo: é uma história sobre luto e perda, uma narrativa sobre as mais pura das amizades, uma fita gravada com todo o cuidado e com planos deslumbrantes e uma cinematografia inventiva e com a capacidade de nos surpreender a cada momento, com uma reviravolta narrativa na marca dos 30 minutos e que torna toda a experiência de sala mais empolgante.
Com esta comédia dramática com um argumento perfeito, o público da sala 3 do Cinema São Jorge riu audivelmente perante um diálogos verdadeiramente engraçados. Ouvimos também uns fungares solitários durante os momentos mais emotivos do filme e, no final, os aplausos fizeram-se sentir, fortes e repletos de entusiasmo. E não é precisamente isto que desejamos numa experiência de sala pura? O envolvimento do público, de forma plena. E por isso é que a sala escura não poderá nunca, nem deverá nunca, ser ultrapassada pelo recato da experiência doméstica de streaming.
James Sweeney: um cineasta precoce e com muita promessa

Mas voltando ao universo de “Twinless”, esta é uma obra realizada por James Sweeney e co-protagonizada pelo próprio. O jovem realizador, ainda no início da casa dos 30, é um excelente mestre de cerimónias nesta longa-metragem. Não só escreve o argumento do filme, como o realiza, como é grande parte da razão pela qual a narrativa é tão pujante através da sua performance neurótica e enfática.
“Twinless” foi galardoado com o Prémio do Público e de Melhor Interpretação para Dylan O’Brien no afamado Sundance, uma das mecas dos indies norte-americanos. Além disso foi selecção oficial em muitos outros festivais de renome – nomeadamente Palm Springs ou Zurique. Nos prémios indie americanos por excelência, os Independent Spirit Awards, Dylan O’Brien foi também nomeado para Melhor Interpretação e seguiram-se ainda nomeações para Melhor Filme e Melhor Argumento.
Grandes performances e um Dylan O’Brien irreconhecível

Na nossa modesta opinião, todos estes louvores são mais do que merecidos. Nesta comédia negra e dramática queer, James Sweeney e Dylan O’Brien são uma dupla verdadeiramente imperdível, complementando-se na perfeição e tornando a simbiose entre as suas personagens perfeitamente credível. Destaque para a honestidade emocional da prestação de Sweeney e ainda para a camaleónica interpretação de Dylan O’Brien, que interpreta aqui dois irmãos gémeos que não podiam ser mais diferentes, um heterossexual e outro homossexual, afastados também por inteligência, modo de estar na vida e experiências vividas.
Acreditamos piamente que estamos perante duas personagens distintas e é estupendo ver o crescimento de O’Brien, que conhecemos como uma estrela adolescente, devido às suas prestações na série juvenil “Teen Wolf” e na saga infanto-juvenil distópica “Maze Runner“. O Dylan O’Brien que conhecemos aqui é muito mais adulto, muito mais desenvolvido, seguro de si próprio e capaz de entregar uma performance emocionalmente poderosa.
O enredo da comédia dramática “Twinless”

Mas tanto elogio tecido e qual é então o enredo de “Twinless”? É difícil entrar em muitos detalhes sem destruir a reviravolta narrativa que surge no primeiro terço do filme, mas podemos certamente tentar. Esta é a história de Roman (Dylan O’Brien) e Dennis (James Sweeney), dois jovens que se conhecem num grupo de apoio para gémeos em luto, enquanto ambos sofrem com a perda recente dos seus irmãos gémeos, metades de si que desapareceram e que os condenam a uma existência com um profundo sentimento de vazio.
Como estão na mesma situação, depressa Roman e Dennis estabelecem uma relação de amizade profunda, conhecendo a dor um do outro. Um dos grandes trunfos de “Twinless” é mesmo o seu argumento. Em cerca de cinco minutos de conversa, Roman e Dennis estabelecem uma ligação belíssima e rara entre si, catapultando-nos e imergindo-nos no mundo do filme sem pensar duas vezes. Tornam-se inseparáveis em menos de nada, mas há muito mais a dizer sobre a sua relação do que aquilo que surge à superfície.
Um remédio contra a solidão da contemporaneidade
Este é apenas o segundo filme de James Sweeney, mas a maturidade está à vista de quem observa o seu trabalho, e há uma sensibilidade brutal em “Twinless”, uma pequena luz de esperança que procura dar resposta à epidemia de solidão que parece ser cada vez mais prevalecente no século XXI.
Além disso, este é um filme sobre amizade mas também sobre desejo, obsessão e uma hipérbole para os actos impensáveis que desempenhamos para conseguirmos forjar verdadeiras relações humanas. O tom de “Twinless” é também um home run. Tão facilmente poderia esta história ter sido um melodrama de fazer chorar as pedras da calçada, quando alcança na realidade o tom perfeito de “dramady”.
Por fim, a forma de narração visual de “Twinless” surpreende. Há muitos jogos com espelhos, split screen e o que não faltam são planos belos e ousados, cores vibrantes, coordenação de guarda-roupa e um sem fim de elementos que tornam ainda mais rica uma experiência que, só pela força do argumento e das performances, seria sempre imperdível.
Que mais? A masculinidade tóxica é examinada ao microscópio nesta que é demarcadamente uma narrativa queer, com sensibilidades LGBTQIA+ que só poderiam surgir a partir da mente de um cinesta queer como Sweeney.
Deste lado, mal podemos esperar para ver o que se segue na sua carreira. E, sem dúvida, para quem não pôde estar presente no “Outsiders”, recomendamos que vejam esta esta obra de referência de 2025 no VOD. A longa-metragem pode ser alugada em plataformas como a Prime Video, Apple TV ou Rakuten.
A passagem do Outsiders por Lisboa, na sua 5ª edição, já chegou ao fim. Mas a boa novidade é que o festival não se limitará à capital. Temos ainda o Outsiders Porto, no Cinema Trindade entre 19 e 22 de março, bem como o Outsiders Ponta Delgada, entre os dias 9 e 12 de abril no Teatro Micaelense.
Twinless - A Crítica
Conclusão
“Twinless” é uma pérola inegável do cinema independente norte-americano e uma entrada maravilhosa na filmografia do cineasta e ator James Sweeney. Esperamos ainda mais e melhor da sua próxima jornada filmográfica.

