Passaporte '18 Patricia Vasconcelos

Passaporte ’18 | Entrevista a Patrícia Vasconcelos

Graças ao programa Passaporte ‘18, alguns dos melhores e mais prestigiados diretores de casting mundiais chegam a Portugal para conhecerem talento nacional. Aquando da ocasião, falámos com a diretora de casting Patrícia Vasconcelos (“Refrigerantes e Canções de Amor”, “Amor Impossível”, “Mistérios de Lisboa”) sobre o programa e sobre o futuro do cinema português.

Tal como já tem ocorrido nos últimos dois anos, o programa Passaporte da Academia Portuguesa de Cinema chega a Lisboa, desta vez dos dias 23 a 27 de maio. Esta iniciativa, que traz diretores de casting estrangeiros a Portugal e dá uma preciosa chance de internacionalização a atores portugueses conta, este ano, com a participação de profissionais de Espanha, Itália, Dinamarca, Holanda, Irlanda, França, Inglaterra, Brasil e EUA.

Sendo a presença americana a grande novidade da edição deste ano, dá-se assim destaque à sua presença. Os diretores de casting em questão são Julie Schubert, que já trabalhou em várias séries de sucesso como “Jessica Jones”, “Iron Fist”, “Luke Cage” e “Daredevil” da MCU; Sharon Bialy, veterana de programas como “Breaking Bad”, “Better Call Saul” e “The Handmaid’s Tale”; Avy Kaufman, recorrente colaboradora de Steven Spielberg, Ang Lee e Ridley Scott; e, por fim, Victoria Thomas, que recentemente juntou ao seu invejável currículo títulos Óscarizados como “Roman J. Israel, Esq.”, “Vedações”, “Elementos Secretos”, “Os Oito Odiados” e “Django Libertado”, entre muitos outros.

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Apesar das inscrições para esta edição já estarem fechadas, tendo o prazo terminado no dia 23 de abril, para o ano o Passaporte volta a Lisboa. Entretanto, há que lembrar que este programa também contém uma série de atividades gratuitas e abertas ao público em geral como workshops e Q&As, que são certamente oportunidades imperdíveis para qualquer ator português com sonhos de trabalhar no estrangeiro.

No âmbito da promoção deste valioso programa, a Magazine.HD falou com Patrícia Vasconcelos, importante diretora de casting portuguesa, membro da Casting Society of America, membro fundador da Academia Portuguesa de Cinema e principal responsável pela criação desta iniciativa.

passaporte 2018 patricia vasconcelos

Magazine HD: Podia-nos explicar, por palavras suas, o que é esta iniciativa Passaporte, que já vai no seu terceiro ano?

Patrícia Vasconcelos: A ideia veio da minha cabeça, há muitos anos que andava a sonhar com isto. No fundo, como eu tenho muitos contactos com casting directors internacionais, deparo-me sempre com o mesmo problema. Dá a sensação que eles param em Espanha. Por diversas razões assim tem sido. Parece que na ponta da Europa, Portugal não é equacionado para se poder descobrir talento. Primeiro começou com o Antonio Banderas, depois do Antonio Banderas foi a Penélope Cruz, depois o Javier Bardem e, enfim, nunca, de facto, houve nenhuma iniciativa, nunca houve nada que lhes mostrasse a eles, os casting directors, que havia talento para além de Espanha.

E eu, ao longo dos anos, falava sempre muito com eles e dizia-lhes “Olhem, vocês têm de vir a Portugal. Temos uns atores inacreditáveis.” Até que, finalmente, há três anos, através da Academia Portuguesa de Cinema da qual eu sou membro fundador e da direção, propus então criar esta iniciativa e fazer concretizar a minha ideia. Decidi convidar casting directors internacionais a virem durante três dias a Portugal conhecer os atores e o talento. São atores, que vivem em Portugal e que são portugueses, porque essa é uma das regras para se poder candidatar. É para serem equacionados, para poderem fazer um casting que não é como qualquer outro, não é para fazerem de portugueses.

MHD: Este já é o terceiro ano do programa. Qual é a diferença entre o Passaporte de 2018, em comparação com os de 2016 e 2017?

PV: Mais americanos. É a única diferença. No primeiro ano tínhamos tudo muito mais concentrado na Europa. No segundo ano fomos mais para a América Latina, ou seja, continuámos com o centro da Europa e América Latina. Tínhamos colombianos, mexicanos, latinos… E este ano decidi abrir mais para os americanos. Portanto, este ano temos aí quatro casting directors americanos.

MHD: E são castings focados tanto para cinema como para televisão?

PV: Sim, pois são, de facto, aquelas grandes indústrias que hoje em dia contratam atores.

MHD: Da primeira edição do Passaporte veio o casting muito publicitado do Albano Jerónimo na série “Vikings”. Será que podia fazer referência a mais algum caso de sucesso com origem nesta iniciativa?

PV: Nesse primeiro ano, aquele mais visível foi de facto o Albano nos “Vikings”. Depois, montes de atores fizeram castings internacionais, o que já é muito positivo, pois, anteriormente, nem acesso a isso tinham. Depois, o ano passado, o caso maior de sucesso é o José Fidalgo, que esteve seis meses numa série da Globo. Ele e o Simão Cayatte numa série francesa, “Immortality”.

MHD: Olhando para a lista dos atores participantes no Passaporte 2017, vemos logo nomes sonantes dos ecrãs e palcos nacionais como Ana Padrão, Diogo Infante, José Fidalgo, Nuno Lopes, entre outros. Pensa que, para atores mais jovens, menos conhecidos e com carreiras ainda no seu início, faz sentido participar neste programa?

PV: Eu acho que faz sempre sentido.

Os dois primeiros anos foram aqueles com mais participantes. No primeiro ano era suposto serem trinta e ficaram quarenta e tal. No segundo ano era suposto serem vinte e passaram a ser trinta, se não estou em erro. A partir de agora isso já não vai acontecer. Vamos ter dez, máximo quinze, porque também temos de alimentar os atores dos anos anteriores para poderem ter o privilégio de conhecer os casting directors que não estiveram na edição em que eles participaram. Também para a longevidade do projeto não faz muito sentido estarmos a apresentar trinta atores por ano. Aquilo que faz sentido agora é começar a ser dez, quinze.

Claro que faz sentido os mais jovens e com menos experiência participarem. Por que não? Desde que o júri sinta que há ali algum talento a desenvolver, por que não? Vamos ver. Nós este ano ainda não fazemos a mínima ideia quem são os candidatos. Nunca sei até acabarem as candidaturas.

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Patrícia Vasconcelos durante a edição 2017 do Passaporte

MHD: Quais são os requisitos para a inscrição no programa?

PV: No site do Passaporte está lá tudo muito explicadinho. Eu acho que a candidatura não é difícil, mas é trabalhosa porque é necessário ter uma self-tape. No fundo, o que me interessa a mim é profissionalizar o setor. Ao permitir que os atores tenham acesso a estes castings internacionais é bom que eles próprios também saibam trabalhar nesse mercado internacional. Ou seja, que saibam como é que ele funciona, as candidaturas, os castings, as self-tapes, o showreel que são coisas que não estavam ainda muito no léxico em Portugal.

MHD: Vê então o projeto Passaporte como uma chance de educar atores?

PV: Absolutamente. Repare, há uns anos eu ainda dava aulas na Escola Superior de Teatro e Cinema. No fundo, aquilo que eu dou é casting e saídas profissionais. Aquilo que me interessa, nas minhas aulas, é ensinar aquilo que eu faço, a que portas é que eu vou bater, como é que eu vou fazer, como é que eu me apresento, como é que eu faço um currículo, o que é uma boa fotografia. Tudo isso são questões que não podem ser não ensinadas. Tem de se explicar o que é que faz, de facto, uma boa candidatura.

Para além disso, estas novas palavras que estão no léxico, que são o showreel e que são as self tapes, são tudo coisas que já têm de fazer parte do ADN do ator. Quero dizer que têm de fazer parte da sua rotina. Uma pessoa, ao candidatar-se a um programa destes, sujeita-se a que, no dia seguinte ou no próprio dia, um casting director olhe para si e diga “Olha tenho um casting agora ótimo para ti. Toma lá este texto e faz lá uma self-tape e manda-me amanhã.” Não se pode depois ficar assim “Como é que isto se faz? Quais são os recursos? Como é que eu faço isto? Como é que eu preparo? Como é que eu filmo?” Ao ser selecionado, já tem de estar minimamente preparado e saber como funciona o mercado nesse sentido.

É isso que a mim interessa. Sobretudo, profissionalizar o setor também um bocado à semelhança daquilo que eu fiz quando me lancei a fazer castings, que para o ano faz trinta anos. No princípio, aquilo que eu fiz foi exatamente isso. Vou introduzir uma coisa que não existe em Portugal ainda, que era o casting. Era tudo muito feito como “Conheces alguém? Conheces alguém que tenha um primo tal?” Nesse sentido, eu adoro esta iniciativa, por profissionalizar o setor.

MHD: As passadas edições desta iniciativa contaram com vários workshops, Q&As, etc. Há alguma atividade desta edição que mereça destaque?

PV: Eu considero isto quase um serviço público. Por isso é que os atores também não pagam. Na Academia Portuguesa de Cinema, achamos nós que isto seja uma atividade gratuita. Para que o resto dos atores que existam no mercado possam usufruir de alguma formação é que criámos estes workshops, abertos a todos os outros que não são atores Passaporte. Precisamente para lhes ensinar, para lhes dar ferramentas para que eles estejam cada vez mais preparados para, nos anos a seguir, se poderem candidatar.

MHD: Talvez no futuro sejam atores Passaporte eles mesmos.

PV: Exatamente. A ideia é essa. Prefiro dar-lhes formação e ensinar como é que a coisa se faz e, nos anos a seguir, eles então podem-se candidatar. Pelo menos, já sabem como é que se faz.

Os workshops vão sempre muito à volta de como é que se faz uma boa self-tape, como é que se faz um bom showreel, sendo que, nos dois anos, eu mantive sempre o mesmo título e este ano vou alterar. Vou pôr mais interativo. Ou seja, o ator tem de trazer o seu showreel e o casting director comenta. Isto, eu acho que é uma sorte, ter ali um casting director que comenta, in loco, em direto, a dizer “Epá, isto é uma porcaria. Porque é que me estás a pôr esta cena aqui? Não acrescenta nada. O nosso olhar é isto, e isto e isto.” Interessa-me sempre que seja muito didático.

Aquilo que eu acho é que são três dias imperdíveis. Enfim, este é um privilégio fantástico. É como se você estivesse três dias num seminário fora de Lisboa, não é? São três dias de workshops intensivos, que eu acho fantásticos. Este ano, ao contrário do ano passado, não vão ser todos só no Museu Vieira da Silva Arpad Szenes, mas vão andar a circular mais pela cidade. Há uns que vão estar na ACT [Escola de Atores], há uns que vão ser no Teatro da Trindade e outros que vão ser na Arpad Szenes. Vamos andar um bocadinho a viajar, a saltitar.

MHD: Esta iniciativa é um passo importante na crescente internacionalização do cinema português?

PV: Acho que sim. A primeira coisa que eu faço todos os anos é entregar-lhes [aos diretores de casting] uma série de DVDs e eles levam uma panóplia de cinema português. Se veem ou não, não sei, mas pelo menos levam-nos. A segunda coisa é que, inevitavelmente, os casting directors falam aos seus realizadores “Tem de vir a Portugal. Tem um clima magnífico. Tem não sei quê.” Há sempre um passa palavra e Portugal está na moda, não é? Há que aproveitar. O Peter Webber, por exemplo, era para vir e o Jim Sheridan, mas infelizmente nem um nem outro podem vir. Eu quero começar a alargar a realizadores.

MHD: Isso será possível em edições futuras do Passaporte?

PV: Vai, vai. Nas próximas sim.

MHD: Planeia continuar durante os próximos anos?

PV: Claro. Assim haja financiamento da parte do ICA. Não conseguimos ainda apoios extra para além da GDA, mas espero que venhamos ter porque, quanto mais dinheiro puder ser, para convidar mais pessoas, melhor.

MHD: Apesar de ser focada em atores portugueses, esta iniciativa é virada para produções estrangeiras. Acha que este tipo de programas, esta internacionalização, é uma parte essencial para a evolução do nosso cinema nacional, o cinema português?

PV: Eu acho que eventualmente há de ajudar, mas há toda uma estratégia que tem de ser pensada e financiada para a internacionalização do cinema português. Por exemplo, em Cannes agora, o investimento que nós temos não se compara ao investimento que os outros países eventualmente têm, mas é importante marcar presença. O PicPortugal é importante. Há todo um financiamento e uma estratégia que tem de ser pensada para a divulgação do cinema português.

Por exemplo, custa-me, devo-lhe dizer, ver que tenho um pai realizador com 79 anos [António-Pedro Vasconcelos], que há dez anos não está presente em nenhum festival. Isso é uma coisa que me custa imenso. Não houve um trabalho feito para isso? Na prática há de ser o produtor que tem de o fazer, mas custa-me ver. Estou a falar do exemplo do meu pai como haverá com certeza outros.

MHD: Isto deveria ser então algo em que se devia investir?

PV: Acho que começa a haver vontade. Sei que há da parte do ICA e do Ministério da Cultura um pensamento já à volta disso.

MHD: Para terminar, uma pergunta bastante generalista. O que é que vê, ou gostaria de ver, no futuro do cinema português?

PV: Acho que o importante é poder haver cinema, histórias, que o público goste de ir ver, que lhe apeteça ir ver. Isso é que eu acho que é o mais importante.

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Lista de convidados do Passaporte ’18

Para mais informações, não deixes de visitar tanto o site oficial do programa passaporte como o site da Academia Portuguesa de Cinema.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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