8 /12 Festa do Cinema Italiano: Pecore in erba, mini-crítica

Pecore in Erba usa os mecanismos do mockumentary para construir uma desavergonhada paródia de antissemitismo, e outros endémicos preconceitos, na Europa contemporânea.

pecore in erba

O primeiro filme do realizador Alberto Caviglia, revela-se como um descarado mockumentary que toma como seu tema principal o antissemitismo na Europa atual, mais especificamente na Itália. Apresentando grande parte de Pecore in erba sob a forma de uma reportagem sobre a vida do fictício Leonardo Zulliani, Caviglia apresenta um hiperbólico retrato de um violento antissemita que passou de um celebrado bully escolar a um dos mais importantes ativistas italianos dos tempos atuais, tornando-se uma figura central na luta contra a antissemifobia (um termo que nunca é bem traduzido nas legendas portuguesas com que o filme foi exibido).

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Em termos tonais, o filme assemelha-se mais a um prolongado episódio dos Simpsons ou sketch do Saturday Night Live, que a qualquer outro tipo de sátira politica, pondo o ridículo em primasia e tentando de tudo espremer risos forçados. Este modo de usar comédia como ferramenta para a crítica social e política não é uma novidade, mas, na sua completa recusa da realidade humana, há algo de inovador na abordagem de Caviglia. Inovador, mas não particularmente eficiente, pois ao celebrar a sua desconexão da realidade, com um registo que é mais farsa desleixada que cartoon político, Pecore in erba acaba por atenuar as arestas do que poderia ter sido uma cortante crítica. Aliás, é exatamente nos momentos em que o filme deixa passar alguns exemplos de mais subtil crítica que Pecore in erba realmente se consegue tornar numa ácida exposição de uma Europa apodrecida pelos seus preconceitos e não numa descartável paródia com a vácua fachada de importância social.

pecore in erba

Apesar das suas fragilidades tonais e ideológicas serem os seus problemas mais alarmantes, há que também admitir as limitações formais e estruturais desta obra. Caviglia bem que referencia This is Spinal Tap, um dos mais gloriosos mockumentaries já feitos, mas esta comparação nem sempre é benéfica para Pecore in erba, um filme que não apresenta nem uma ponta do rigor dessa comédia de Christopher Guest. Caviglia pode propor a estrutura de uma reportagem de telejornal, mas o facto é que está sempre a trair o formato que se propôs a usar, com os momentos protagonizados por dois terroristas na caça de Zulliani a serem cenas de particular traição formal.

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Devido grandemente a essas incompetências formais, Pecore in erba realmente melhora no seu final, quando o filme se liberta das expetativas do mockumentary e se pode apresentar como algo mais convencional. Para além dessa maior consistência na sua abordagem, os últimos minutos desta paródica narrativa também têm a benesse de serem os mais fascinantes do filme. Com o desaparecimento do ídolo proto-nazi, a população italiana parece encontrar uma causa de unificante luto, mesmo para a comunidade judaica, e, numa improvável reviravolta, é assim germinada uma frágil aceitação e unificação popular. Que o legado de um herói do ódio seja esta breve renúncia a tais ideologias preconceituosas, é o golpe de humor mais cortante e irónico que todo o filme tem a bravura de desferir.

pecore in erba

O MELHOR: Esse final brilhantemente irónico.

O PIOR: Todo o fracasso cinematográfico que é a tentativa desleixada de criar um mockumentary que consegue ser menos convincente que um episódio da série americana Documentary Now!.


 

Título Original: Pecore in erba
Realizador:  Alberto Caviglia
Elenco: Davide Giordano, Anna Ferruzzo, Bianca Nappi
Comédia | 2015 | 86 min

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