©Andrea Avezz, La Biennale di Venezia - ASAC

Perfil | Ana Rocha de Sousa: A Premiada

‘Listen’, a primeira longa-metragem de Ana Rocha de Sousa fez história no Festival de Veneza e estreia hoje com grande expectativa nas salas nacionais. A atriz e realizadora portuguesa trouxe vários prémios para o seu filme ‘Listen’. Certo é que logo final da sessão oficial sentiu-se logo um certo favoritismo no ar. Partilhamos aqui as emoções da realizadora na sessão de perguntas e respostas no final da projecção.

Foi absolutamente incrível assistir à sessão oficial de ‘Listen’, de Ana Rocha de Sousa, na Sala Darsena do Lido, em pleno Festival de Veneza, onde o filme foi apresentado pela primeira vez na secção Orizzonti. Foram mais de cinco minutos de aplausos, que resultaram depois em dois importantes prémios oficiais: Leão de Ouro do Futuro e Prémio Especial do Júri, além de mais quatro prémios paralelos. Na verdade, em cerca de 20 anos que acompanho a Mostra de Veneza, nunca nenhum filme de origem portuguesa — é preciso não esquecer que se trata de uma co-produção luso-britânica entre a Bando à Parte de Rodrigo Areias e a Pinball London — foi tão aplaudido como o da realizadora portuguesa. Ana Rocha de Sousa tem 41 anos, começou como actriz juvenil em séries de televisão e completou a sua formação em cinema na London Film Scholl. Esta sua primeira longa-metragem ‘Listen’ inspira-se em factos reais sobre uma família portuguesa emigrada no Reino Unido, a quem os serviços sociais lhe retiram os três filhos menores, por suspeita de maus tratos. Foi inteiramente rodada nos arredores de Londres com elenco português e inglês, encabeçado por Lúcia Moniz, Ruben Garcia e Sophia Myles, portanto, falado nas duas línguas, com uma abordagem universal no que diz respeito à temática das criança em risco, maus-tratos infantis e aos complexos processos legais de retirada dessas crianças aos pais.

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©Andrea Avezz, La Biennale di Venezia – ASAC

Aparentemente ‘Listen’ nasceu não por questões particulares com as quais a realizadora lidou mas pelo sentimento de ter sido mãe recentemente e ter ouvido falar de uma família portuguesa que estava a passar por uma situação de adoção forçada no Reino Unido (RU). Este filme também não é sobre esse caso específico, que aliás foi amplamente abordado nos media portugueses e teve aliás intervenção das autoridades diplomáticas portuguesas: Esse caso comoveu-me e por isso comecei a pesquisar sobre o assunto. Foi muito chocante para mim quando compreendi o lado mais profundo deste tema e trouxe-me mesmo uma grande angústia enquanto mãe. Como nessa altura morava no RU, senti que era um assunto urgente, com o qual me identifiquei imediatamente. Enquanto cineasta não estou apenas interessada em explorar as minhas ideias artísticas e visuais, quero contar histórias que toquem as pessoas. É óbvio que também me interesso por assuntos que sejam relevantes para a vida das pessoas e de certa forma quero ser capaz de exercer algumas mudanças com os meus filmes.

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Efectivamente uma coisa que sentimos quando assistimos a ‘Listen’ é pensar como tudo isto é possível num país tão civilizado ou pelo menos tão orgulhoso do seu civismo democrático e defesa dos direitos humanos. Infelizmente, e basta uma pesquisa na internet para verificar que tudo no filme é absolutamente possível e isto realmente acontece no RU a algumas famílias de imigrantes europeus (e não só) e, sobretudo as mais desfavorecidas e marginalizadas. Em jeito de denúncia, há vídeos no Youtube com crianças a serem levadas pelos serviços sociais britânicos. Não temos hipótese de nos apercebermos do contexto em que isso aconteceu, ou temos possibilidade analisar se as famílias são ou não inocentes em relação aos maus-tratos às criança: Não é exactamente isso que quero fazer com o meu filme, mas era muito importante mostrar como é que estas coisas acontecem na realidade, porque estes vídeos são completamente reais e estão disponíveis para qualquer pessoa na internet. Há em tudo isto uma grande contradição, que a realizadora como residência no RU explica em relação a estes processos de adopção forçada, da forma de actuação dos serviços sociais e do cumprimento da lei:  Acredito que o objectivo da lei é ser bastante protetora dessas crianças. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso, no entanto quando acontecem erros a lei não permite que se possa inverter o processo. É precisamente este efeito da lei que torna tudo muito contraditório num processo de adopções forçadas ou de retirada das crianças aos pais: Eles  limitam-se a enviar uma carta aos pais a dizer ‘desculpem cometemos um erro, por favor voltem quando o seu filho tiver 18 anos e decidir se quer entrar em contacto com a sua família de sangue’, e isso perturbou-me bastante.

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Qualquer lei tem sempre falhas, erros, lacunas, que podem ocorrer porque é humana e porque está escrita por alguém sempre de uma forma abstrata: a lei britânica defende a necessidade de proteger crianças, que possam estar em risco de futuros danos emocionais e físicos. Pergunto a todos nesta sala que definiriam como risco de futuros danos emocionais e físicos? Não é possível prever o futuro e enquanto seres humanos todos cometemos erros, sem saber que os estamos a cometer. Uma coisa é se uma família comete um crime, se uma mãe ou um pai não tem um comportamento social equilibrado ou normal. Julgamos a situação e temos provas de que algo aconteceu e de que é preciso tomar providências. Mas se ainda não aconteceu? Por detrás disso há muitas outras questões e uma quantidade de erros dos serviços sociais, em relação a estas situações. Talvez a melhor solução fosse por exemplo uma separação temporária, ou apoiar estas famílias.  E a melhor forma de ajudar era não envolvendo dinheiro. O dinheiro pode sempre corromper as coisas. É muito difícil entender porque é que o sistema está a tentar evitar danos emocionais com outros danos emocionais. 

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©Andrea Avezz, La Biennale di Venezia – ASAC

Outro dos aspectos interessantes  e emocionante é o facto dos protagonistas de ‘Listen’ serem crianças e uma delas até de colo, algo que deve ter dificultado o trabalho da realizadora. As crianças são extraordinárias a representarem, ao ponto de questionar Ana Rocha de Sousa de como é que trabalhou com elas, para que interpretassem tão bem os seus papéis? Foi bastante difícil porque no RU existem muitas restrições para trabalhar com crianças e claro precisamos de respeitá-las. Tivemos muito pouco tempo para fazer ensaios e filmar e por isso foi muito difícil. Tivemos muita sorte no sentido em que eles fora incríveis, então a Maisie (Sly), a miúda surda-muda. É uma miúda incrível! Só necessita entender o que nós queremos dela e faz tudo imediatamente. Ela foi uma bênção para o filme. Honestamente sou fã da Masie! Mas também sou do James (Felner) com quem foi muito fácil trabalhar. Entendeu a personagem logo no primeiro dia de ensaios. Fizemos ensaios só com os três em Portugal: a Lúcia (Moniz), Ruben (Garcia) e James, como tal foi mais fácil, porque prepararmos muitas coisas antes. Com os bebés foi muito difícil. Os bebés choram muito e não temos muito tempo. Choram e não queremos que eles chorem. Usamos gémeos e são duas crianças absolutamente incríveis. Mas foi realmente interessante perceber como as duas irmãs eram diferentes. Essa parte foi muito difícil, mesmo que se seja o melhor realizador do mundo, não se pode fazer nada se um bebé começa a chorar.

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©Andrea Avezz, La Biennale di Venezia – ASAC

Ana Rocha de Sousa, estudou cinema na London Film Scholl e antes de ‘Listen’, assinou duas curtas-metragens: ‘Jantamos cedo’ (2009) e ‘Minha alma and you’ (2013), concebeu a ideia para esta sua primeira longa-metragem em 2016, quando se deparou com as noticias sobre uma família portuguesa a passar por um caso de adoção forçada no Reino Unido. Incrédula com a situação, a realizadora conclui que: ‘no Reino Unido, onde regras são regras, estes episódios acontecem, sobretudo, com famílias de classes sociais desfavorecidas’. Produzido pela Bando à Parte, em co-produção com a Pinball London, com distribuição pela NOS Audiovisuais, ‘Listen’ foi rodado nos arredores de Londres e teve a sua estreia mundial a 8 de setembro no Festival Cinema de Veneza, onde venceu vários prémios: Leão do Futuro, de primeira obra, o Prémio Especial do Júri da secção Orizzonti e mais, quatro distinções paralelas, entre elas ‘Bisato d’Oro’ e o Sorriso Diverso Veneza, pela sua missão de defesa dos Direitos Humanos.

JVM (em Veneza)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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