Porto, em análise

Uma maravilhosa carta de amor à cidade invicta e uma final elegia à poderosa presença de Anton Yelchin, Porto é um dos mais melancólicos romances do ano.

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Depois de assistirmos a Porto, a primeira longa-metragem de ficção do cineasta brasileiro Gabe Klinger, não seria despropositado pensar que testemunhámos um filme de estudante. Certamente existe uma vontade de experimentação estética sem estribeiras que lhe confere uma atmosfera de ousadia juvenil, assim como uma anemia ideológica e dramática que remetem para um cineasta ainda em doloroso processo de crescimento. Para além disso, é difícil não assistir ao filme sem pensar numa série de outros nomes do cinema, cujos trabalhos foram pescados para inspiração, como Godard, Resnais, Lelouche, Linklater, Jarmusch e mesmo Manoel de Oliveira.

No entanto, Klinger está longe de ser um estudante, tendo até já sido professor e crítico de cinema, e é precisamente a sua maturidade, aliada a um descobrimento das possibilidades do cinema narrativo, que confere a Porto uma das suas mais fascinantes qualidades. Longe de reverberar com o fulgor da juventude das suas personagens, o filme é uma reflexão de memórias esbatidas pelo tempo, pintadas com uma melancolia que fala do pesar dos anos e não de um futuro de possibilidades luminosas e desconhecidas. No retrato, desconstrução, revisita e dissecação de um eletrizante one night stand entre um expatriado americano e uma estudante francesa na cidade invicta, Klinger concebeu um dos mais curiosos pas de deux deste ano cinematográfico assim como uma das suas mais deliciosas experiências sensoriais.

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O enredo de Porto não podia ser mais simples. Um dia, Mati está a trabalhar numa área de escavações arqueológicas perto do Porto quando vê, no meio do nevoeiro nortenho, uma figura que lhe captura o interesse. Ele é Jake, um filho de diplomatas americanos que há muito se exilou em Portugal, e os dois voltam a encontrar-se por duas vezes nesse mesmo dia, primeiro no comboio de regresso ao Porto e seguidamente num café. Sentindo a atração mútua e o puxar dos fios do destino, os dois passam juntos uma noite de paixão e conversa reminiscente da trilogia Before de Richard Linklater mas, chegada a alvorada, o sonho termina. Apesar das tentativas desesperadas de Jake, intoxicado pelo sabor do amor inesperado, a sua história nunca se desenvolve mais, e Mati acaba por casar com o seu namorado, um professor universitário português, tem uma filha com ele e separa-se. Ela continua, mesmo assim, a viver na Ribeira portuense, próxima, mas sempre distante de Jake, que é como um fantasma a assombrar a cidade, sempre a sonhar com aquela noite inesquecível.

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O leitor desta análise poderá muito bem insurgir-se contra a nossa abjeta revelação do enredo, mas enredo é o que menos importa neste filme. Na verdade, longe de ser uma convencional representação dessa noite e suas consequências, o filme apresenta-se em três capítulos fortemente segmentados e de cronologia não linear, em que vamos passeando pelas memórias e sensações dos dois protagonistas. Em termos loucamente redutores e quase crassos, não interessa a história tanto quanto o modo como ela é repetidamente examinada e contada.

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Primeiro temos a visão de Jake, mergulhado nas águas da amargura e da depressão, com o aspeto de um vampiro e um temperamento igualmente retraído e pose misteriosa. Todos os recantos da cidade lhe lembram Mati e, a partir da sua memória, vemos uma constante examinação dos seus erros pessoais, passos em falso e injusta agressividade para com a francesa. De seguida, Mati mostra-nos uma diferente perspetiva, sombreada por uma sensação de vazio e insatisfação que, apesar disso, nunca telegrafam o tipo de obsessiva dependência de Jake. Para ela, mais do que a chave para um romance nunca experimentado, aquela noite parece ser um exemplo, entre muitos, de uma vida mais completa do que a que presentemente vive. Na terceira fase do filme, as duas perspetivas colidem numa recriação imperfeita da noite.

Estas várias diferenças de perspetiva raramente são apontadas pelo texto, um exemplo de pueril escrita cheia de platitudes banais, mas são o reflexo de uma espetacular construção formal capaz de rivalizar com o trabalho dos inúmeros autores que o filme referencia. O uso de película de 35mm, 16mm e 8mm para registar diferentes tipos de memória e lembrança é uma escolha particularmente inspirada. A fisicalidade inerente a esta técnica de captura de imagem remete para a permanência da memória, mas também para sua fragilidade. Essa sensação de efemeridade é reforçada pelas diferentes linguagens visuais associadas a cada tipo de película, cujo contraste, sugere a subjetividade da memória, assim como sua mutabilidade e existência aparte do tempo. Não é por acaso que este filme quase se veio a chamar Porto, Mon Amour.

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Esse título, no entanto, poderia ter sido mais apto que o simples nome da cidade, pois esta é a mais maravilhosa carta de amor em celuloide que a invicta já teve desde que Manoel de Oliveira nela filmou O Pintor e a Cidade. Focando-se principalmente no centro histórico e suas inclinadas ruas de pedra escura e maravilhosa arquitetura, o filme utiliza o Porto como algo mais próximo de um terceiro protagonista que um mero cenário. Focado ou desfocado, capturado em detalhe minucioso ou abstração onírica, a cidade apresenta-se como um espaço perdido no tempo, entre a história passada e a modernidade, refletindo e informando a condição semelhante da história de amor.

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No conflito entre a inebriante formalidade, capaz de reduzir um cinéfilo estoico ao ponto de lágrimas de êxtase estético, e a qualidade quase seca e desinspirada do romance textual, encontra-se a beleza de Porto. É um filme que parece estar suspenso, não somente no tempo, mas no específico momento emocional em que, inebriado por uma atração inexplicável, o ser humano perde a razão e a noção da realidade. Anton Yelchin, numa das suas últimas e mais poderosas prestações, telegrafa precisamente esse estado de desamparo. Desde a sua tez cadavérica, face prematuramente envelhecida, postura corcunda e modo como é filmado num estilo quase sebastianino, Yelchin rende-se de tal modo a este papel e à melancolia do filme que, mesmo desprovido de outras numerosas qualidades, Porto é uma apta elegia ao jovem ator que nos deixou antes do seu tempo.

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Porto
Porto

Movie title: Porto

Director(s): Gabe Klinger

Actor(s): Anton Yelchin, Lucie Lucas, Françoise Lebrun, Paulo Calatré

Genre: Romance, Drama

  • Cláudio Alves - 70
  • Daniel Rodrigues - 60
65

CONCLUSÃO

O MELHOR: A fotografia formidável (apresentada no LEFFESt em película de 35mm) e a orgástica representação do Porto. Uma sequência filmada entre as paredes espelhadas do café Ceuta é de particular magnificência, tanto estética como sensorial e primordialmente emocional.

O PIOR: A anémica história de amor, como definida pelo guião, e o diálogo cheio de vácuos lugares comuns.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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