"Întregalde" | © Voodoo Films

Porto/Post/Doc ’22 | Întregalde, em análise

Nesta nona edição do Porto/Post/Doc, um dos programas em destaque foi o Europa 61. Nesta secção incide numa série de filmes produzidos em território europeu, reflexões sobre as realidades contemporâneas deste velho mundo. Com o apoio de várias organizações, incluindo a EUNIC Portugal e inúmeras embaixadas estrangeiras no nosso país, foram exibidos doze títulos. “Întregalde” foi uma dessas obras, novo trabalho do Novo Cinema Romeno, por onde o estimado realizador Radu Muntean explora a colisão entre idealismos urbanos e asperezas rurais. Antes de chegar às salas portuguesas, o filme passou por muitos festivais onde o feito até valeu prémios.

Quando um evento se dedica ao cinema documental, a programação de títulos putativamente fora desse contexto levanta várias questões. Qual a justificação para o sucedido de um ponto de vista temático? Existe ligação na forma, quiçá alguma leitura histórica? Perante um trabalho feito em gesto de perpetuação do Novo Cinema Romeno, “Întregalde” representa um desses casos onde a resposta a todas essas perguntas é tão óbvia ao ponto de ser clarividente. Basta refletir um pouco sobre a construção fílmica e todo o movimento em que se insere para concluir sobre a questão e nele encontrar o ADN do documentário transmutado em ficção.

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© Voodoo Films

Para começar, há que entender quantos dos preceitos do realismo vigente no cinema europeu – essas estratégias cheias de câmara ao ombro e takes longos, luz natural e uma rudeza estética a declarar verismo – têm as suas origens no documentário. Poder-se-ia até dizer que sua implementação em cinema narrativo denuncia uma tentativa de fingir a realidade que o espetador associa à técnica documental. Recuemos para antes dos Romenos vanguardistas, dos Dardennes e seus seguidores, até aos tempos do Neorrealismo Italiano.

Aí iremos desencantar muitas das técnicas que Radu Muntean emprega no seu novo filme. Verifica-se a procura pela ação filmada com o tempo genuíno, a localização sem cenário acrescido, o uso de não-atores interpretando aquilo que parecem ser versões de si mesmos e um texto sustentado por ideais sociopolíticos. Assim é “Întregalde” que, além de tudo isso, também contém um sentido de humor mordaz muito próprio de Muntean e companhia. Tudo começa com boas intenções, aquela caridade dos mais privilegiados que fazem o bem porque parece bem e lhes insufla o peito de contentamento próprio.

Estamos na Transilvânia, numa região empobrecida aonde humanitários levam mantimentos para ajudar os mais necessitados. Ao princípio, Muntean deixa que a sua câmara perscrute a privacidade de várias figuras, saltando de grupo em grupo para nos esboçar um retrato, talvez caricatura, destes voluntários valerosos. A caminho da vila à qual o filme deve seu nome, os saltos de carro em carro acabam por afunilar num só veículo e o trio que nele viaja. São eles Maria, Dan e Ilinca, figuras esboçadas por traços comportamentais bem observados.

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São os pequenos detalhes que o cineasta e seu elenco vão amontoando até nos deparamos com personalidades que conhecemos tão bem como a palma da mão. É certo que, antes de chegarmos a tal intimidade, a sorte há que cair em desgraça. Durante o caminho até Întregalde, o grupo depara-se com um idoso a pedir boleia. Ele dá pelo nome de Kente e parece, a uma primeira vista, uma figura inocente, até meio tola, cuja segurança se torna responsabilidade de quem quer que com o homem cruze caminho. Seguindo as estranhas indicações do velho confuso, eles têm um acidente. Ninguém se magoa, mas o veículo não se mexe e o sol está prestes a passar a linha do horizonte.

O tempo passa e a escuridão tudo consome, o que começou por ser uma comédia negra ganha o dente sanguinário da potencial tragédia. Antes que esses melodramas cheguem à sua plenitude, contudo, um anticlímax pretendido puxa-nos da lua de volta à terra. Muita da fita se apoia no apertar de tensões, quase como acontece num thriller. Só que aqui, não há perigo mortal além do imaginado e o transtorno serve para iluminar os limites de cada pessoa. Testemunhamos escolhas horrendas, a autoconfiança dos protagonistas ruindo sob a pressão crescente do seu azar enquanto Kente se revela a figura mais complexa da trama.

É na sua companhia que o humanismo de Muntean ganha asas, contradizendo as leituras mais impiedosas do espetador e ganhando novas tonalidades. Histórias do passado vêm à baila e a coda do exercício depende desse velhinho não tão misterioso para fazer vingar o golpe emocional. Em termos de formalismos, regista-se aqui o rigor técnico a que o realizador nos tem habituado, com a fotografia noturna a merecer especial apreço. Dito isso, são os ritmos do texto e da montagem que mais impressionam, despindo a sátira de ironia.

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© Voodoo Films

Numa história cheia de pessoas prontas a fazer julgamentos repentinos, sente-se uma vontade suprema de não julgar e deixar que cada um se revele consoante seu compasso interno. Essa abordagem remete novamente para a paciência do mestre documental, aqui reapropriada para a ficção e para o trabalho com os intérpretes do guião. Os principais com mais experiência profissional são estupendos, mas melhor ainda é Luca Sabin. Na sua estreia tardia, o senhor afirma-se enquanto estrela escondida de “Întregalde,” sua arma secreta e maior milagre também. Sempre que a câmara pondera a personagem, seu muito amado Kente, Sabin recorda-nos das palavras orientadoras do Porto/Post/Doc – ‘framing reality’. A figura, a farsa, o filme são grande exemplo das múltiplas formas como se enquadra o real.

Întregalde, em análise
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Movie title: Întregalde

Date published: 25 de November de 2022

Director(s): Radu Muntean

Actor(s): Maria Popistasu, Ilona Brezoianu, Alex Bogdan, Luca Sabin, Toma Cuzin, Gabor Bondi, Radu Muntean

Genre: Drama, Comédia, 2021, 104 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Întregalde” faz olhinhos à comédia negra e à sátira, mas seu coração está sempre preso a uma ideia de observação social com raiz fincada nos movimentos realistas e neorrealistas do cinema europeu. Há aqui uma mistura de apreços documentais aliados a disciplinas teatrais, um trabalho do ator profissional aliado ao esforço do amador. Desta alquimia, o Novo Cinema Romeno faz nascer mais uma beleza cinematográfica, mais um título a lembrar e celebrar. Depois da desilusão relativa de “Alice T,” é bom ver Muntean em estado de graça. Este pode não ser o seu melhor filme, mas é um regresso triunfal, mesmo assim.

O MELHOR: O Kente de Luca Sabin e Radu Muntean.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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