"Skola di Tarafe" | © Spectre Production

Porto/Post/Doc ’22 | Skola di Tarafe, em análise

“Skola di Tarafe,” também conhecido como “Mangrove School” na anglofonia, tem tido um percurso bem preenchido pelo circuito dos festivais. A curta documental de Sónia Vaz Borges e Filipa César teve estreia mundial no festival Cinéma du Réel em França, marcou presença no Curtas Vila do Conde, no DocLisboa e agora passou pelo Porto/Post/Doc também. Numa perspetiva pós-colonial, o filme representa uma pesquisa sobre passados históricos atravessados por esforços educativos e militância política latente ao ensino.

O que vem a seguir ao colonialismo? Para países colonizados, tratar-se-á de um processo de recuperação, de renascimento e reconstrução fora do alcance da força exterior. Para o colonizador, contudo, existe o imperativo da autorreflexão, do recordar, do confronto entre a consciência presente e os crimes do passado. Nem todos fazem esse exercício, levando a que a sociedade caia na nostalgia em melancólica saudade dos Impérios. Contudo, há quem exercite o pensamento e renegue a mentira de que o colonialismo foi neutro ou, pior ainda, um fenómeno benigno para os povos explorados, abusados, relegados ao domínio de outrem.

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© Spectre Production

Por escolha própria e sanidade santa, vários são os artistas que carregam esse fardo nas costas e se prestam a abrir os olhos de quem os preferia manter fechados. Existe aí um dever histórico, jornalístico, talvez até moral, onde a arte se torna num espelho, um convite aberto à meditação sobre o “eu” e o “nós.” Indo mais longe, também se verifica aqui uma função educativa cuja natureza lúdica não tem que ser oposta ao valor artístico. Por vezes, nem é preciso cair no erro do didatismo ou da lição fácil, sendo o singelo ato de recordar uma revolução por si só.

Veja-se algum do melhor cinema político dos últimos anos, dentro e fora dos limites da narrativa e da longa-metragem. Assim chegamos ao objeto desta análise. Em 2017, Filipa César concebeu uma longa-metragem sobre como o cinema guineense floresceu desde a Guerra colonial, examinando a influência do líder revolucionário Amílcar Cabral no grande ecrã. Depois de “Spell Reel,” a realizadora volta a similares temáticas numa nova curta feita em colaboração com a historiadora Sónia Vaz Borges. Rumo aos mangues da Guiné-Bissau, as duas colegas voltam aos conturbados anos 60, década de guerra.

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“Skola di Tarafe” recorda os esforços de Cabral no campo da educação, outra vertente do projeto anticolonialista que tentava liberar a população do país, em parte, através do transcender da influência portuguesa. Começado em tempos de guerra, essa missão consistiu no trabalho de professores nómadas, que, nos confins dos tarrafais, construíam salas de aula improvisadas às escondidas de olhos inimigos. Em “Skola di Tarafe,” o exercício desses educadores destemidos é reencenado, o plano escolar dramatizado em teatro para a câmara.

Ao mesmo tempo, testemunhos dos sobreviventes pintam um mural de memórias, um quadro de reflexão histórica cheia de detalhes lacerantes. O contraste entre a inocência do olhar da criança e a violência contextual muito lacera o espetador. Dito isso, mais do que uma palestra recreada, “Skola di Tarafe” é um poema sobre a paisagem em que essas escolas temporárias se montavam. Entre o rio e o mar, a floresta cerrada e o céu aberto, César e Borges encontram um espaço liminar onde o tempo parece desfazer-se na corrente das águas.

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© Spectre Production

Muitos aplausos merecem as cineastas, mas toda a equipa brilha em seu modo particular. Amam-se os ritmos da montagem que Jenny Lou Ziegel supervisionou, cheia de propósito aliado ao deslumbramento estival. A mesma cineasta tratou da fotografia e essa contribuição é ainda mais fulcral para o sucesso do documentário. Enquadrada pela câmara de Ziegel, a paisagem natural torna-se personagem – esse eterno cliché da crítica – e as imagens ganham rasgos líricos. O motivo de mãos a emergirem da superfície turva do rio é especialmente belo, como que a assombração da História saindo do seu túmulo para assombrar o presente. Ao mesmo tempo, este leitmotiv visual também sugere um apelo de misericórdia, como se o passado nos esticasse o toque em jeito de nos pedir a lembrança, que digamos “não” ao esquecimento e perpetuemos a memória de lutas passadas.

Skola di Tarafe, em análise
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Movie title: Skola di Tarafe

Date published: 27 de November de 2022

Director(s): Sónia Vaz Borges, Filipa César

Genre: Documentário, Curta, 2022, 35 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Dentro da secção Cinema Falado do Porto/Pos/Doc, “Skola di Tarafe” ou “Mangrove School” emerge como uma visão do cinema português em estado de autorreflexão. Tentando negociar objetivos de educação e forma lírica, Filipa César e Sónia Vaz Borges estendem a mão ao espetador, para este participar no teatro da memória histórica e assim recordar aquilo que não deve ser esquecido.

O MELHOR: As imagens mais poéticas – as mãos que saem da água em súplica, em apelo, em comando, quiçá um convite.

O PIOR: É o fado eterno de muita curta-metragem, aquela situação em que as ideias são tantas e tão boas que, enquanto espetador, não conseguimos evitar pensar numa versão mais comprida, numa longa-metragem. Iria espaço de manobra dar mais possibilidades às cineastas? Talvez sim, talvez não. Nunca saberemos com certeza, mas o pensamento fica na cabeça.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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