©João Silva/ NOS Alive

Nos Alive 2022 | Phoebe Bridgers e o mundo de Punisher

No mesmo dia em que as californianas HAIM subiram ao palco principal do NOS Alive, 9 de julho, a também nativa de Los Angeles, Phoebe Bridgers, apresentou-nos o seu mundo no Palco Heineken – pela primeira vez em Portugal e perante a mais participativa das plateias. 

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Os Da Weasel puxavam para si a atenção de grande parte do recinto, no principal Palco NOS Stage, com o seu muito aguardado concerto de reunião e, passados 50 minutos desse arranque, Phoebe Bridgers apresentava-se pela primeira vez em Portugal, em simultâneo, no Palco Heineken.

Esta simultaneidade em nada prejudicou o envolvimento por parte dos e das fãs e foi deveras especial testemunhar a primeira passagem por Portugal desta enormérrima estrela em ascensão no universo do Indie Rock. Aos 27 anos de idade, Phoebe Bridgers, uma nova grande certeza do Indie Rock, Indie Folk, Emo-Folk e Indie Pop, é ainda um pequeno segredo bem guardado (mas cada vez menos). A artista integrou no passado a banda Sloppy Jane e colabora também no grupo boygenius, ao lado de Julian Baker e Lucy Dacus. Quanto à sua carreira a solo, iniciou-se em 2017 com o lançamento de “Stranger in the Alps”, um álbum desde logo muito bem recebido e que a colocou no holofote daqueles que acompanham grandes intérpretes indie.

Punisher no NOS Alive
Phoebe Bridgers no NOS Alive 2022 |©João Silva

Foi no verão de 2020 que Bridgers lançou o seu segundo disco, “Punisher”, o qual lhe valeu quatro nomeações aos Prémios Grammy, nomeadamente para Best New Artist. A partir daqui, veio o seu reconhecimento ‘comercial’, cada vez mais generalizado nos Estados Unidos – se considerarmos que a cantora, compositora e produtora tem vindo a atuar em talk-shows sonantes como o Saturday Night Live ou outros Late Night Shows.

Uma nota relevante neste ponto: quem assistiu ao concerto de sábado, 9 de julho de 2022, no Passeio Marítimo de Algés, sabe que “mainstream”, no caso da carreira de Phoebe Bridgers, não significa o abraçar de um pop mais digerível. “Punisher”, que teve a oportunidade de ser ouvido quase na íntegra no NOS Alive 2022 (é essa a vantagem de jornadas musicais ainda pouco longas), é um álbum melancólico, assombroso e assombrado e que toca em temáticas marcadamente negativas e pessoais.

Algo que distingue Phoebe Bridgers, e que se afirma como uma marca potencial de longevidade para qualquer artista que se pretenda fazer estrela, é a sua capacidade de criar narrativas complexas e com imagéticas ricas. Tudo isto através das suas letras, da sua composição e da força da sua atitude. Mas, neste seu primeiro concerto em Portugal, Phoebe não se ficou pela transmissão, num tom de voz cristalino e belo, das suas músicas. A artista convidou-nos a mergulhar verdadeiramente no universo do seu álbum “Punisher”. Música após música, o cenário alterava-se e uma maqueta ilustrada abria-se e revelava a próxima seção temática do espetáculo.

Phoebe bridgers cenografia concerto
A maravilhosa cenografia de Phoebe Bridgers deslumbrou quem estava presente |©João Silva/ NOS Alive

A qualidade cénica deste concerto (e da tour em que se insere) é verdadeiramente impossível de ignorar, quer falemos dos maiores fãs de Phoebe Bridgers ou de quem casualmente passasse pela tenda do Palco Heineken. O espetáculo começou com “Motion Sickness”, o single mais conhecido do primeiro disco de originais. O tema originou uma explosão coletiva de energia junto de quem assistia e a energia não esmoreceu até ao final da prestação.

“Garden Song”, “Kyoto”, “Moon Song” ou “Savior Complex” foram todos temas capazes de provocar emoções fortes e letras cantadas a alto e bom som. Phoebe foi percorrendo o seu leque vasto de bonitos temas harmónicos, que até nos poderiam deixar enternecidos, não estivessem tão pejados de existencialismo e da partilha de sentimentos de tristeza e inaptidão.

Bridgers, uma força confiante e destemida em palco, foi-se expressando de forma breve mas decidida, reconhecendo a receção calorosa e expressando também o seu “sentimento de culpa” e “remorsos de sobrevivente”, aludindo ao facto de se encontrar a viajar pela Europa, a tocar em festivais de verão, enquanto o aborto foi recentemente revogado como direito constitucional no seu país – os EUA.

Outro elemento que torna Phoebe Bridgers um novo potencial ídolo da geração Z (e um pouco também da Y) é a sua fervorosa pose ativista, em muitas matérias, entre elas a problemática dos direitos de reprodução das mulheres. Todavia, não é apenas a sua atitude e ativismo que a tornam uma inegável estrela em ascensão. A sua música, influenciada pela cultura popular – de Fleabag, a Eric Clapton, a podcasts sobre crimes horríficos – encontra muitos pontos de contacto com referências presentes no zeitgeist. E, claro, a sua sonoridade casa o indie pop e as influências mais pesadas de forma sublime, tornando-a uma nova cara (e voz!) a não esquecer.

Bridgers no Nos Alive 2022
A libertação coletiva de energia junto do seu público |©João Silva/ NOS Alive

No final do espetáculo, fechou com o maravilhoso “I Know the End”, o seu hino apocalíptico de seis minutos que, como a própria Phoebe, começa com a ilusão de uma calmaria e, depois de uma progressão constante e empolgante, termina num exercício de screamo e de catarse coletiva incontestável (a cantora refletiu já acerca de uma proximidade entre a evolução deste seu “hino” e os escritos pelos My Chemical Romance no pico do Emo). Com o palco em chamas, excomungamos as teorias da conspiração e exorcizamos o medo que teima em abater-se sobre todos nós.

Assim nasce uma estrela. Assim se assinala a primeira vez de Phoebe Bridgers em Portugal (esperemos que entre muitas)!

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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