Queer Lisboa Azougue Nazare critica

Queer Lisboa ’18 | Azougue Nazaré, em análise

Azougue Nazaré” é um exercício em musicalidade e realismo brasileiro que constitui uma das mais deliciosas surpresas do Queer Lisboa deste ano, onde o filme de Tiago Melo está entre os títulos na competição de longas-metragens.

Em Nazaré da Mata, interior de Pernambuco no Brasil, a população local prepara-se para o Carnaval. Nas oficinas, os trabalhadores cantam, nos canaviais, onde as tradições pagãs em tempos floresceram no seio da comunidade escrava, fazem-.se rituais que parecem bruxaria, mas que são inofensivos elementos do Maracatu. Apesar da paz que se sente, esta é uma zona de guerra, onde duas ideologias se defrontam em constante fricção. Por um lado, temos os praticantes do Maracatu, que celebram as tradições folclóricas dos seus antepassados, por outro temos a igreja evangélica e sua luta contra tudo aquilo que possa ser denominado como um gesto pagão.

Tais conflitos permeiam a terra, o populus e o cinema do Brasil. De facto, até o único filme brasileiro a ganhar a Palme D’Or, “O Pagador de Promessas”, se defronta com esta mesma dinâmica. “Azougue Nazaré” segue a mesma tradição, mas fá-lo de um modo que sugere uma versão moderna da retórica e do estilo neorrealista. O realizador Tiago Melo, que aqui assina a sua primeira longa-metragem, usou não-atores locais para interpretarem a história da sua cultura, e o filme é quase totalmente desprovido de um fio narrativo, constituindo algo mais próximo da documentação, meio etnográfica, da vida da comunidade local nas semanas de preparação para o Carnaval.

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Maracatu vs Igreja evangélica.

O que “Azougue Nazaré” mais tem que se assemelha a uma narrativa clássica é a história de Tião. Ele é um homem preto que adora o Maracatu e, para as celebrações, se veste com roupas de mulher e adota o alter ego de Catita Daiana. No entanto, sua esposa é uma mulher religiosa que, a certa altura, tanta convencê-lo a desistir das celebrações pagãs através de uma espécie de conversão evangélica forçada. Ela chega mesmo a acusá-lo de ter o demónio dentro de si, talvez repetindo as palavras do pastor que muito manipula os crentes apesar de em tempos ele próprio ter sido um mestre do Maracatu.

O filme inclui muitas mais personagens da comunidade local, sendo esta uma tapeçaria de vida coletiva, com os caminhos traçados por cada um a entrelaçarem-se com os de seus vizinhos e chefes religiosos. Há uma calma observacional que permeia por todo o edifício cinematográfico de “Azougue Nazaré”, mas que nunca resulta numa perda de energia. Parte disso, deve-se muito ao facto de que, não obstante o seu registo casualmente realista, o filme quase podia ser considerado um musical. Se, com “Uma Mulher é Uma Mulher”, Jean-Luc Godard tentou juntar os conceitos mutuamente contraditórios do neorrealismo e do cinema musical, “Azougue Nazaré” parece ser a resposta de Tiago Melo a esse mesmo desafio.

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Logo nos primeiros momentos do filme, o realizador sugere uma musicalidade incomum e indissociável do universo folclórico em que o seu filme se desenrola. Aí, um ritual do Maracatu tem lugar no canavial e tudo é filmado em grandes planos que exacerbam a desorientação do espectador e o misticismo da ocasião. A montagem fragmenta cada gesto e a sonoplastia casa ruídos naturalistas com uma música amorfa e quase ameaçadora. Assim se cria um gesto de cinema de transe, onde o objetivo parece ser quase hipnotizar o espectador, imergindo a sua consciência num universo de paganismo místico e tradições que fortificam a camaradagem da população local e a unem.

Esse sentido de comunidade unida pelo ritual manifesta-se por todo o filme, sendo que Melo propõe logo outra variação da dinâmica na segunda cena. Trata-se de uma luta cantada, onde, ao invés de murros, são versos improvisados que servem para derrotar e provocar o adversário. O “Rei Neymar” e Catita Daiana são os principais adversários, mas não há agressividade em cena, somente a jovialidade da comunhão social de pessoas que partilham as mesmas tradições e cultura. Tradições e cultura que os evangélicos procuram erradicar na sua arrogância e obsessão pelo poder hegemónico sobre as mentes da população. Enfim, eles podem querer abafar a revelia do Maracatu com os seus cânticos cristãos, mas, na paisagem sonora de constante música do filme, tal ataque é inócuo pois o Carnaval sempre triunfa.

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Realismo com toques de artifício carnavalesco e misticismo pagão.

Tais palavras podem sugerir um filme muito anti igreja, cheio de fricção cultural explosiva, mas “Azougue Nazaré” é uma obra que evita essa violência. Na verdade, o filme sugere todos estes conflitos, mas raramente sacrifica o prazer do espetador em nome de um discurso político definido. O que vemos aqui é um exercício na documentação de um joie de vivre com especificidades culturais muito brasileiras. O que temos aqui é uma celebração da vida, cheio de virtuosismo formal por entre o amadorismo dos seus atores, um belíssimo filme que surpreende e deleita, em parte pela sua modéstia quase absoluta.

Quando chega o final, a música continua pelos créditos e, tirando uns desaparecimentos misteriosos no canavial e uma discussão matrimonial, pouco ou nada ocorreu para além da preparação e consequente celebração do Carnaval. Como imagem derradeira, o filme acaba por ter um tableau que evidencia toda a sua brincadeira tonal e concetual, apresentando uma composição de figuras a dormir, cansadas pela folia, felizes, contentes e rodeados pelas lantejoulas coloridas das fatiotas carnavalescas. Tradição e celebração, tensões culturais submissas à necessidade de viver em paz, realismo elevado pelas estéticas coloridas do Carnaval brasileiro e a modéstia de um realizador sagaz, tudo isto está em comunhão na imagem que encerra “Azougue Nazaré”. Esta é, até agora, uma das mais deliciosas surpresas do Queer Lisboa deste ano.

Azougue Nazaré, em análise
Queer Lisboa Azougue Nazare critica

Movie title: Azougue Nazaré

Date published: 2018-09-19

Director(s): Tiago Melo

Actor(s): Valmir do Côco, Mestre Barachinha, Joana Gatis, Edilson Silva, Mohana Uchoa

Genre: Drama, 2018, 82 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

As preparações para o Carnaval de uma comunidade brasileira dão lugar a conflitos culturais e religiosos, entre paganismo e a igreja evangélica cristã. “Azougue Nazaré” retrata tal fricção ideológica e social, mas fá-lo com sublime modéstia e casualidade, encontrando imensa beleza na sua mistura de realismo cru com música constante, os rituais do Maracatu e a teatralidade colorida dos figurinos de Carnaval.

O MELHOR: O plano final e a mistura de realismo com os impulsos mais estilizados do artifício carnavalesco e a musicalidade folclórica.

O PIOR: Como sempre, o uso de não-atores tem os seus benefícios e seus problemas, especialmente quando o realizador e o texto exigem mais rigor psicológico nos seus retratos. No papel de Tião, Valmir do Côco lá se assume como o melhor ator em cena, mas os seus companheiros por vezes ficam muito aquém do que é preciso para dar vida ao drama comunitário e matrimonial do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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