Queer Lisboa ’18 | Los días más oscuros de nosotras, em análise

Em “Los días más oscuros de nosotras”, Tijuana é uma cidade assombrada por traumas do passado e uma fétida epidemia de violência contra mulheres. Este filme mexicano é uma das obras em competição no 22º Queer Lisboa.

Um carro rasga a paisagem rochosa obstinadamente. Vemo-lo de cima, sua pequenez consumida pela grandiosidade do terreno rochoso que o circunda, mas seu movimento uma constante, quase destemido na sua invariabilidade à medida que vai estrada fora. Nesse carro viaja Ana, uma arquiteta mexicana que está de regresso à sua terra natal, Tijuana. As razões para o seu regresso são putativamente profissionais, sendo que ela está encarregue de supervisionar a construção de um imponente edifício junto ao mar. Não obstante as responsabilidades que ela tem na mente, há algo que as suplanta, sendo que esse lugar, esta cidade perto da costa, parece chamar por ela, qual sereia a cantar para os marinheiros e a atraí-los para a desgraça.

Ana é a protagonista de “Los días más oscuros de nosotras”, um drama mexicano que dilui a membrana porosa que separa o drama psicológico do terror fantasmagórico. Como é habitual neste tipo de narrativas de conturbados regressos, é no passado que está a mordidela da víbora cujo veneno ainda corre nas veias do presente. O trauma da morte de uma irmã nos tempos da infância atormenta a arquiteta, infeta-lhe a mente e a própria gramática do filme, que ocasionalmente se parece perder a si mesmo e às suas noções de realidade quando a memória tinge o agora com a qualidade onírica de um sonho acordado.

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O filme é como um sonho lúcido.

De facto, em algumas das suas primeiras cenas em Tijuana, Ana parece quase inebriada, confusa, num transe que devém da comunhão entre o que se passa e o espectro do que já se passou. Muito antes da realizadora Astrid Rondero materializar uma aparição por entre os pesadelos acordados da sua protagonista, já o espectador entendeu que o universo do filme é um de permanente assombração. Contudo, apesar do trauma de Ana, não são os espíritos errantes de alguma alma perdida que marcam presença, mas sim a assombração virulenta do machismo, da misoginia violenta, das barreiras de género que se delineiam pela comunidade local e vão dar a cantos escuros, onde o preconceito e a injustiça fermentam há ninguém sabe quanto tempo. Talvez desde o início de tudo.

No trabalho, Ana sente isso. A sua posição de autoridade de nada lhe vale quando os seus subalternos espiam pelas janelas do seu escritório e a surpreendem quando ela muda de roupa, por exemplo. A audiência, se possível, sente-o ainda mais, sendo que Rondero tudo faz para nos recordar constantemente do olhar dos homens e sua ameaça implícita. Quando qualquer mulher passa sozinha numa rua, sentimos o cheiro fétido da ameaça cheia de testosterona, mesmo quando ela nunca explode em nenhuma altercação. O desconforto reina e quase o sentimos na pele, como uma camada de suor a cobrir todos os recantos do nosso corpo num dia impossivelmente húmido.

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Não é só de imagens sugestivas e cortes que se forma este jogo de opressão feminina por parte do paternalismo sistemático de Tijuana e sua comunidade. O som também ajuda, criando cacofonias abafadas que tornam os sons da cidade à noite nos uivos de predadores ou numa confusa indefinição que nos parece querer ativamente desorientar. Há que dizer, contudo, que não há jogo de sonoplastia que possa ser mais desorientador que o texto do filme, cuja aversão a passagens expositivas deixa o espectador cego e a apalpar a escuridão narrativa em busca de alguma claridade e entendimento. A base é clara, mas é o específico que se mostra difícil de agarrar.

Enquanto a morte fraternal e a violência sexista abafam tudo, Ana mostra como tem um lado predatória também, ficando obcecada com Silvia, uma mulher mais nova que vai comprar a antiga casa da arquiteta. A protagonista segue-a, observa seus movimentos, persegue-a na noite, perscruta seu emprego num bar de strip e tudo assimila silenciosamente numa mescla de pena, desejo, compaixão quase familial e até alguma repulsa. Muito se tem de celebrar o trabalho das duas atrizes, Sophie Alexander-Katz e Florencia Rios, que nos ‘vendem’ esta dinâmica com casual naturalismo e peso emocional capaz de suster os devaneios mais formalistas da obra.

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A opacidade narrativa nem sempre funciona em benefício do filme.

É precisamente na união destas duas personalidades complicadas em indefinida ligação, com o primor formal do filme, que Rondero leva a obra aos seus mais altos píncaros. Isso ocorre numa cena de sexo que nunca chega ao clímax, um festim de erotismo que não é escasso em nudez frontal e sem vergonhas indevidas, mas também não se deixa cair numa documentação clínica de dois corpos insuflados de desejo. Há algo de transcendente no momento, uma calma que nos consome e faz, por momentos, sentir uma glória a que as personagens jamais conseguem aceder novamente. Tão mais belo é este instante de perfeição pela sua efemeridade.

Em “Los días más oscuros de nosotras” só os gigantes de betão e os pesadelos da memória parecem destinados a durar. Tudo o resto é como um farrapo de fumo, sempre no precipício de desaparecer diluído no próprio ar que respiramos. Realmente é uma dinâmica intoxicante, mas a opacidade do filme chega a ser irritante, obscurecendo em demasia o drama humano, especialmente quando a conclusão cai em clichés que tantos outros psicodramas usam e abusam há décadas. Mesmo assim, quando o filme acerta no ponto certo do seu precário equilíbrio entre dor humana, desorientação onírica, crítica social feminista e espetáculo em terror formalista, então estamos perante uma jóia cinematográfica inestimável. Infelizmente, como tudo nesta colagem de farrapos de fumo, essa grandiosidade está longe de ser constante.

Los días más oscuros de nosotras, em análise
Queer Lisboa Los Dias Mas Oscuros de Nosotras critica

Movie title: Los días más oscuros de nosotras

Date published: 2018-09-19

Director(s): Astrid Rondero

Actor(s): Sophie Alexander-Katz, Florencia Ríos, Adolfo Madera, Felipe Tututi, Yeray Albelda, Nubia Gomez Vazquez, Kenia Gomez Vazquez, Alexandra Daniela Gonzalez Barrera

Genre: Drama, 2017, 97 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“Los días más oscuros de nosotras” é um psicodrama esteticamente sofisticado e narrativamente opaco, cujas personagens podiam ser bem mais definidas do que são. Contudo, como um exercício na construção de uma atmosfera sensorial e psicológica imersiva, o filme é um sucesso, tornando Tijuana vista pelos olhos de Ana numa cidade perdida na névoa dos pesadelos de infância que perduram até aos dias de hoje, quais labaredas sempre alimentadas pelo combustível que é a dor e a perda.

O MELHOR: A fotografia, especialmente nas cenas noturnas ou nas poucas instâncias em que a câmara olha para as estruturas esqueléticas dos edifícios em construção e neles vê algo semelhante a titãs de betão armado prontos a devorarem o céu.

O PIOR: O twist final é previsível e infeliz. Pior ainda é o vicio do filme em opacidade narrativa em doses demasiado altas. Numa obra tão dependente das perspetivas subjetivas de suas personagens centrais, a sua indefinição aos olhos do espetador é um problema difícil de descartar como algo menor ou inócuo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Queer Lisboa ’18 | Los días más oscuros de nosotras, em análise

  • LEMBRANÇAS DO PASSADO

    Boa crítica. Fiquei muito comovido com o filme e acho que a falta de frontalidade narrativa permite a metáfora. Excelente script e construção visual. O cinema no México é grande.

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