Queer Lisboa Blue My Mind critica

Queer Lisboa ’18 | Blue My Mind, em análise

A confusão, terror e insegurança da adolescência dá azo a um conto de transformação sobrenatural em “Blue My Mind”, um dos filmes em competição no 22º Queer Lisboa.

Ao longo das nossas vidas, dificilmente haverá fase mais aterrorizante e desorientadora que a adolescência, quando abandonamos a infância e nos preparamos para entrar na idade adulta, suas novas responsabilidades e dinâmicas interpessoais. Pelo menos esse é o transtorno mais social do processo, pois, talvez ainda mais intensa é a transformação física que se manifesta. De repente, parece que perdemos controlo dos nossos corpos, somos consumidos por desejos e necessidades inesperadas, novas inseguranças florescem e muito mais. Não admira que muitos cineastas usem os códigos do cinema de terror e a imagética sobrenatural para retratar metaforicamente esta época de transição na vida dos jovens.

Por exemplo, “Wildling” e “Teen Wolf” usam licantropia como centro da sua metáfora, “Raw” escolhe o canibalismo e uma série de inúmeras narrativas literárias vão pelo caminho do vampirismo. Pela sua parte, a realizadora suíça Lisa Brühlmann, escolheu sereias como sua criatura metaforicamente ligada aos mistérios do crescimento. O seu filme é “Blue My Mind” e trata-se da primeira longa-metragem da cineasta, cujo apoio em fórmulas e clichés temáticos trespassa a ideia de alguém em início inseguro de carreira. Felizmente, em termos formais, há muita mais confiança em evidência no trabalho de Brühlmann, algo que é evidente desde as primeiras imagens do filme.

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As águas chamam por ela.

Dois pés enterram-se nas pedras que formam uma praia, ouvimos o som das ondas e a imagem é tingida de azul. Trata-se de uma menina a ver o mar, uma ligação imediata, uma indicação do que está para vir. Trata-se também da coleção dos mais belos tableaux do filme, um momento de calma antes do tormento que espera Mia, a protagonista de “Blue My Mind”. Quando abandonamos este paraíso de calma e beleza, passamos para um ambiente urbano e estéril. Aí, uma jovem loira e de olhar carrancudo observa as obras a acontecerem mesmo fora de sua casa. Ela é filmada através de uma janela, parece que vive num aquário, presa, oprimida, roubada de uma liberdade que lhe é essencial.

O filme está repleto de imagens assim, que sugerem a qualidade aquática à qual a vida de Mia está inexoravelmente acorrentada. O aquário que seus pais adotivos mantêm dentro do apartamento, muito antes de ela olhar para os peixes como um festim irresistível, torna-se desde início num monumento de medo e tentação. O tom azulado de todo o filme é um toque formal ainda mais simbolicamente óbvio, mas tais gestos não perdem valor por ser tão óbvios. Com um guião repleto de metáforas tão fortes como chapadas, tal abordagem é entendível e até faz sentido dramatúrgico. Uma coisa é certa, como já antes mencionámos, Brühlmann é uma cineasta formalmente rigorosa e segura, sua execução destas ideias um espetáculo que merece ser apreciado.

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Mais impressionante ainda que as imagens é o som de “Blue My Mind”, há que se dizer. Em alguns momentos, nem é a fotografia ou o design a sugerir o mar que chama por Mia, mas sim o modo como o som envolve as personagens e a audiência, submergindo-nos num universo de sons que vibram próximos dos nossos ouvidos, como que transportados por ondas que não vemos. É precisamente assim que Mia se sente quando, influenciada por um grupo de raparigas populares da sua nova escola, se deixa participar num jogo de estrangulação. Quando ela perde os sentidos, na escuridão da inconsciência reina a sonoridade do oceano. É esta rendição à pressão social que parece ser o premir do gatilho da transfiguração da jovem.

Certamente é a partir desse momento que o filme aumenta a sua intensidade formalista, quase asfixiando a audiência na sua representação do terror de Mia. O que começa por ser só uma camada de pele a crescer interdigitalmente, depressa se torna numa espécie de progressiva putrefação dos membros inferiores da adolescente. Ao mesmo tempo, fomes estranhas começam a afetá-la, assim como uma agressividade muito além daquilo que se esperaria de uma jovem tornada cocktail de hormonas pela puberdade. A ajudar à festa vêm as muitas pressões sociais das novas amigas de Mia, que a precipitam numa espiral descontrolada de promiscuidade e rebeldia autodestrutiva.

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Crescer dói.

Com elementos sobrenaturais e uma paródia horrorífica das dinâmicas de “Giras e Terríveis”, parece que “Blue My Mind” se começa a afigurar como um conto de punição moral contra a sua protagonista e suas amigas. Isso, contudo, nunca se realiza, sendo que o filme se vai afastando a passos largos de qualquer julgamento à medida que avança e fica mais investido no desespero febril de Mia. Nos epítetos da sua histeria contida, o filme começa mesmo a mostrar facetas inesperadas em Gianna, a “queen bee” da escola e a principal razão pela qual este filme se encontra no Queer Lisboa e não no MOTELx.

Na sua ligação a Mia, Gianna demonstra algo que transcende os rituais de dominância homo-social, havendo carinho, potencial atração e empatia a germinar no espaço entre as duas raparigas. Pelo final, ela passou de uma antropomorfização de tudo o que é venenoso nas hierarquias sociais da escola secundária a uma possível salvadora. Esse é talvez o gesto mais maturo, fascinante e belo do filme. Por vezes temos de caminhar na direção daquilo que nos parece perigoso, do que nos incita rebeldia e incerteza, para nos podermos salvar e ser livres.

O caminho até lá é doloroso, crescer dói. Todos sabemos isso, todos passamos, estamos a passar ou, se tudo correr bem, havemos de passar por essas provações. Isso é algo que ninguém pode negar e “Blue My Mind lembra-nos bem dessa verdade universal dessa dor e desse medo pelo meio dos seus efeitos gore, escamas, paranóia, dos seus devaneios juvenis e prestações de atrizes que se rendem de corpo e alma a um filme bem mais inteligente e esteticamente sofisticado do que a uma primeira análise pode parecer. Mal podemos esperar para ver o que é que Lisa Brühlmann vai fazer a seguir.

Blue My Mind, em análise
Queer Lisboa Blue My Mind critica

Movie title: Blue My Mind

Date published: 2018-09-18

Director(s): Lisa Brühlmann, ,

Actor(s): Luna Wedler, Zoë Pastelle Holthuizen, Regula Grauwiller, Georg Scharegg, Lou Haltinner, Yael Meier, David Oberholzer, Una Rusca, Timon Kiefer, Benjamin Dangel, Martin Rapold, Rachel Braunschweig

Genre: Drama, Fantasia, 2017, 97 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO

“Blue My Mind” usa um modelo já muito repetido para explorar angústias da psique adolescente feminina, mas fá-lo com intensidade e elegância formal incomum no género. A nível psicológico, este pode não ser o retrato de personagem mais complexo, mas é uma narrativa agradavelmente abrasiva e amedrontadora, com inesperados epítetos de beleza e empatia.

O MELHOR: A sonoplastia oceânica.

O PIOR: O cliché cansativo que rege todo o esqueleto concetual do filme e o modo como o texto nunca estabelece uma normalidade a ser violada antes de nos mergulhar de cabeça no pânico de Mia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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