"Making Montgomery Clift" | © Limbic Productions

Queer Lisboa ’19 | Making Montgomery Clift, em análise

Making Montgomery Clift” é um dos documentários mais fascinantes em exibição na 23ª edição do Queer Lisboa, onde integra a secção Panorama.

Pode um filme ser um fracasso e um triunfo em simultâneo? Melhor ainda, pode um filme ser um triunfo exatamente porque é um fracasso? “Making Montgomery Clift” suscita tais questões pois, se formos honestos, a obra é um desastre no que se refere a fazer aquilo que declarativamente se propõe a fazer. Realizado por Hillary Demmon e Robert Anderson Clift, o sobrinho mais novo do ator titular, este documentário propõe-se a ser o definitivo perfil de Montgomery Clift, um estudo complicado que vem pôr fim a décadas de informações erróneas e boatos sensacionalistas sobre o seu legado, sobre a sua pessoa e sobre a sua morte. “Making Montgomery Clift” não é nada disso.

Em primeiro lugar, talvez seja bom dar algum contexto ao leitor. Montgomery Clift foi um dos grandes atores que, no pós-guerra, veio a revolucionar Hollywood com um estilo de interpretação mais próximo do realismo teatral que da estilização glamourosa de outros tempos. Juntamente com outros nomes como Marlon Brando e James Dean, Clift abriu caminho aos standards atuais de atuação em cinema. A sua carreira no grande ecrã veio depois de anos a brilhar no teatro e estendeu-se desde 1948 a 1966, ano da sua morte. Pelo meio, ele foi nomeado para quatro Óscares, mas nunca conquistou o troféu.

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© Queer Lisboa

Não obstante a coleção inestimável de clássicos na filmografia desta estrela, muitos são aqueles que consideram que o seu legado enquanto ator tem vindo a ser ofuscado pela qualidade sensacional da sua morte. Montgomery Clift morreu de problemas cardíacos em 1966, quando vivia na companhia de um homem afro-americano, que se dizia ser seu enfermeiro, mas era, na verdade o amante do ator. Colegas e historiadores viriam a chamar à vida de Montgomery Clift o suicídio mais comprido da indústria do espetáculo, sendo que nasceu então o mito de um génio da atuação que viveu sempre atormentado pela sua homossexualidade e veio a cair numa espiral autodestrutiva de alcoolismo e toxicodependência.

Além disso, convém dizer que Montgomery Clift, no seu auge, foi considerado um dos heróis de matiné mais belos de Hollywood. A sua face parecia ter sido esculpida por anjos e o seu carisma era inegável, mesmo em papéis menores ou figuras moralmente dúbias. No entanto, tudo mudou durante as filmagens de “A Árvore da Vida” de Edward Dmyttryk, Clift terá saído embriagado de uma festa dada pela sua coprotagonista e amiga de longa data Elizabeh Taylor. O ator embateu o carro contra um poste elétrico e ficou com a cara completamente destruída, tanto que Taylor teve de o ajudar a não sufocar nos próprios dentes que se tinham solto de um maxilar estilhaçado. Muitas cirurgias plásticas refizeram-lhe a cara, mas estava diferente.

Todos estes fatores, contribuíram para uma imagem trágica que tem vindo a perdurar na cultura popular, mas que, segundo a família de Clift, incluindo o realizador que nunca o conheceu, está errada. Ao início, é fácil entender como é que o espectador pode ser iludido ao ponto de aceitar as palavras narradas de Robert Clift sem nenhuma dúvida ou ambivalência crítica. Afinal, que melhor pessoa para pôr a pratos limpos a vida de Montgomery Clift que alguém da sua família? O realizador é o filho de Brooks Clift, o irmão mais velho de Monty, que, após a morte trágica do ator, veio a ser o principal curador e arquivista da sua memória.

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Durante os anos 70, Brooks esteve mesmo envolvido na elaboração de uma biografia autorizada sobre o irmão, tendo até convencido o resto da família a ajudar a autora, Patricia Bosworth, na sua pesquisa. No final, o livro ficou aquém das expetativas dos Clift e Brooks tornou-se numa ovelha negra para o resto da família. Grande parte do documentário é uma dissecação dessa mesma obra, uma refutação das suas conclusões, assim como uma defesa de Brooks e sua obsessiva gravação de tudo o que tinha que ver com o seu irmão. Parte dos contra-argumentos tem o seu valor. A certa altura, vemos como uma citação mal feita pode vir a transformar-se ao longo de várias biografias, dando a ideia que Clift era um pedófilo, quando nada nas informações originais indicava isso mesmo.

Contudo, muitas mais são as ocasiões em que Robert Clift se contradiz. De facto, chegado o fim do documentário, as contradições sobre o ator acumularam-se de tal modo que são uma montanha pronta a tombar sobre o espectador e a o esmagar com a sua ambivalência e incoerência. O cineasta quer celebrar um ator audaz, mas nunca admite o papel que a sua posição económica teria nessa mesma abordagem profissional. Numa ocasião, ele felicita o tio pelo modo como injetava as suas emoções reais nos papéis, mas, mais à frente, nega que tal fosse o caso. Ele admite que alguns dos relatos familiares podem ter sido influenciados por interesses pessoais, mas toma-os como facto, mesmo assim. Até diz que o legado de Clift é mais ofuscado pela sua morte que o de James Dean – algo estapafúrdico.

Tudo isso resulta num retrato de Montgomery Clift que não nos dá nenhuma ideia concreta do ator. De facto, a intenção de “Making Montgomery Clift” parece ser o de rasurar e não o de construir. No fim, o que sobra é uma tela em branco de mistério e os realizadores parecem contentes com isso, alegando que uma admissão de ignorância face à vida daqueles que já morreram será a maior dignidade que lhes podemos dar. Tais conclusões podem ser encaradas como válidas, ou não, mas o que salta à vista é que o filme não nos mostra de modo algum quem Montgomery Clift realmente foi. A obra desmistifica o seu legado sem nos dar uma alternativa e falha redondamente como uma proposta biográfica.

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© Limbic Productions

No entanto, “Making Montgomery Clift” é uma estupenda biografia de Brooks Clift e de como a História de um indivíduo é moldada na mente daqueles que lhe eram mais próximos. Por vezes, quando Robert Clift defende as metodologias do tio acaba por inadvertidamente revelar mais sobre a sua família do que sobre Montgomery. As escolhas da estrela e suas exigências parecem o pesadelo de qualquer cineasta, mas, aos olhos daqueles que o amavam, tudo é obviamente justificável e ele era um anjo. Além do mais, os realizadores muito falam de separar o legado de Clift da sua sexualidade, mas se há algo que o documentário faz é vincular essa mesma associação. “Making Montgomery Clift” é um fracasso e, devido a esse fracasso, é uma obra muito mais valiosa e fascinante do que seria se tivesse sido uma biografia competente.

Making Montgomery Clift, em análise
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Movie title: Making Montgomery Clift

Date published: 24 de September de 2019

Director(s): Robert Anderson Clift, Hillary Demmon

Genre: Documentário, 2018, 88 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

“Making Montgomery Clift” tenta refazer o legado de Montgomery Clift, reduzindo-o a uma tela em branco de ambiguidades infinitas. No entanto, o que faz é construir um estudo sobre uma família moldada pelo legado do seu mais famoso membro, sobre um clã incapaz de assimilar as contradições de uma estrela.

O MELHOR: O retrato complicado que a obra nos desenha da família Clift e de Brooks, em particular. Isso e a riqueza de material de arquivo em evidência.

O PIOR: O fracasso do filme como uma biografia de Montgomery Clift.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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