"Enfant Terrible" | © QueerLisboa

QueerLisboa ’21 | Enfant Terrible, em análise

Um dos primeiros filmes a passar na secção Panorama do QueerLisboa 2021 foi “Enfant Terrible”, um filme biográfico sobre Rainer Werner Fassbinder. A obra de Oskar Roehler fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes no ano passado.

Quiçá num desejo de contextualizar a estreia portuguesa de “Enfant Terrible”, o QueerLisboa programou a última obra de Rainer Werner Fassbinder, “Querelle”, como filme de abertura. As intenções são louváveis, mas não fazem nenhuns favores à fita biográfica que Oskar Roehler assinou o ano passado. Ao invés de iluminar as potenciais observações do biopic, a comparação dos dois filmes só revela a superficialidade do trabalho mais recente.

Talvez mais marcadamente, ilumina a vacuidade na estética fotocopiada que Roehler tentou aplicar ao seu “Enfant Terrible”. Como que evocando o artifício brechtiano de “Querelle”, a nova obra passa-se num espaço hermeticamente fechado dentro de um cosmos de falsidade teatral. Não há céu neste paradigma cenográfico, somente os tetos claustrofóbicos do estúdio. Até as janelas são pinturas cruas e nada convincentes, somente indicações primitivas de um exterior a que nunca se tem acesso.

enfant terrible critica queerlisboa
© QueerLisboa

Apesar desse registo demonstrativamente abstrato, não há grande estilização no desenho. Muito menos há a opulência camp que o cinema cruel de Fassbinder tantas vezes alcança. O mesmo ocorre com a fotografia executada com anémica inspiração por Carl-Friedrich Koschnick. As alucinações de gel colorido que Michael Ballhaus trouxe ao cinema de Fassbinder, suas refrações espelhadas e ângulos cortantes – todas essas maravilhas não aparecem em “Enfant Terrible”.

O que fica é um fantasma esbatido de glórias perdidas, um pingo de perpétua frustração, da cópia mal feita. Irrita que nesta configuração uma biografia de Rainer Werner Fassbinder não tem de se parecer com um trabalho desse autor. O erro de “Enfant Terrible” não é o fracasso em ser imagem perfeita de “Querelle” ou da Trilogia BDR. O amargo sabor da desilusão ocorre porque essa parece ter sido a única ideia formal que Roehler trouxe ao projeto.

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Nesta conjetura, a imperfeição da imitação torna-se num erro e não numa escolha deliberada. Por outras palavras, esteticamente, este biopic recebe aplausos por tentar algo fora da convenção, mas ganha apupos pela incapacidade de fazer vingar essas ambições. Oxalá pudéssemos dizer que os problemas da fita ficam por aí. Em termos textuais, o filme tenta abordar toda a carreira de Fassbinder, explorando os anos turbulentos de atividade cinematográfica.

Começa nas filmagens da primeira longa-metragem do autor e acompanha-o até à morte, semanas antes da estreia de “Querelle”. Pelo caminho, acompanhamos vários pontos importantes no percurso como sua primeira participação na Berlinale ou a aclamação efusiva que “Ali: O Medo Come a Alma” recebeu aquando da sua estreia no Festival de Cannes de 1974. O que vemos da metodologia cinematográfica é uma caricatura de tirania petulante, um retrato de Fassbinder enquanto monstro.

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© QueerLisboa

Nem Roehler, nem o argumentista Klaus Richter, nem Oliver Masucci no papel principal tentam pesquisar a interioridade da personagem histórica. Todos eles se ficam pelo terror que o artista induzia nos seus colaboradores, mas jamais interrogam a razão pela qual esse cinema de Fassbinder era tão poderoso – é tão poderoso, de facto, pois seu impacto não esmoreceu de forma alguma. Ao invés, temos encenações pueris do trabalho de estúdio, da interação vil com as equipas de atores e técnicos.

Além de gritos e abusos, nada vemos do processo que criou arte tão sublime como “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” ou “Berlin Alexanderplatz”. O pior de tudo é que Fassbinder já fez um grande filme sobre como é viver durante as filmagens de uma das suas obras. “Cuidado Com Essa Puta Sagrada” já desmascara o lado feio de Fassbinder enquanto colaborador, ao mesmo tempo que nos deixa perscrutar alguma da camaradagem desesperada que se forma durante o lavoro de criar um filme. Vejam esse clássico de 1971 ao invés de “Enfant Terrible”, pois este novo projeto não tem nada de novo ou valioso para oferecer.

Enfant Terrible, em análise
enfant terrible critica queerlisboa

Movie title: Enfant Terrible

Date published: 20 de September de 2021

Director(s): Oskar Roehler

Actor(s): Oliver Masucci, Hary Prinz, Katja Riemann, Felix Hellmann, Anton Rattinger, Erdal Yldiz, Markus Hering, Michael Klammer, Lucas Gregorowicz, Jochen Schropp

Genre: Drama, Biografia, 2020, 134 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO:

Há melhores maneiras de se conhecer o processo de Fassbinder, seus lados hediondos e injustiças ditatoriais. “Enfant Terrible” não se decide entre ser exposé acusatório e ser homenagem babada, acabando por fracassar nas duas medidas. É um crime um filme sobre cineasta tão ousado ser tão entediante e inconclusivo.

O MELHOR:  A franqueza sexual da fita e o modo como recusa a estigmatização de tais impulsos, de tais desejos. É um apontamento importante e uma faceta que seria facilmente deturpada por moralismos, mesmo num contexto do cinema queer.

O PIOR: A monotonia do exercício e quão superficial acaba por ser. Descobrimos mais sobre o Fassbinder por detrás das câmaras através da sua filmografia. “Enfant Terrible” nunca ultrapassa a redundância.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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