"Les Meilleures" | © Tripode Productions

Queer Lisboa ’22 | Les Meilleures, em análise

“Les Meilleures,” também conhecido como “Besties,” é a primeira longa-metragem de Marion Desseigne-Ravel, promovida como uma espécie de “Romeu e Julieta” para a geração do Instagram. A obra estreou no Festival du Film Francophone d’Angoulême e tem feito carreira no circuito, tendo já passado por Talin, Londres, Seoul e outros que tais. Agora é a vez do filme passar em festival português, no Queer Lisboa 26 onde integra a Competição de Longas-Metragens.

Perspetivas pós-coloniais têm vindo a fazer-se sentir no cinema francês, reconfigurando a imagem do país no grande ecrã. Uma sociedade multicultural vai lentamente sendo refletida pela sétima arte, normalmente em registos de realismo social que se inserem numa tradição do cinema europeu em século XXI. “Les Meilleures” faz parte desta nova onda, onde a representatividade e não a audácia formalista é a palavra de ordem. Em certa medida, o filme parece uma variação sobre os mesmos temas que marcaram “Girlhood” de Céline Sciamma, só que mais abertamente queer e romântico também.

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© Tripode Productions

O cenário é a Paris moderna, zonas suburbanas que fogem à imagem de postal e revelam colisões entre culturas, religiões e etnias. A protagonista é Nedjma, adolescente no precipício da idade adulta que vive na companhia da mãe e sua irmã, passando os dias com o seu gangue de amigas delinquentes. Há um lugar para todos e todos têm o seu lugar próprio, o espaço subjugado às hierarquias da gente. Por exemplo, para o gangue de Nedjma, um banco de jardim é parte sacrossanta do seu território e violar sua propriedade é afronta imperdoável. O verão é assim passado em manutenção da regra assumida.

Trata-se de um espetáculo de poder urbano pequeno e mesquinho, sem importância a não ser para aquelas que encontram propósito nisso. Há preocupações maiores, contudo, como a impossibilidade de passar férias fora de casa quando o dinheiro é pouco. Fala-se de uma viagem à Normandia, para ir à praia, mas nada é certo e a precaridade económica é uma sombra que se abate sobre todo o sonho e fantasia. No que se refere à vizinhança, ela é daquelas em que todos se conhecem uns aos outros e há um sentido de comunidade permeando o ar, brilhando um holofote desconfortável sobre qualquer forasteiro que se tente imiscuir na ordem presente.

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Assim acontece quando, Zina aparece, nova vizinha e colega que depressa encontra lugar dentro de um gangue rival ao de Nedjma. Sua beleza é inegável e é fácil verificar como os olhos da nossa heroína se deixam cativar pela nova presença, mesmo quando ela faz tudo para esconder o interesse. Inicialmente, Nedjma é participante ativa da praxe contra Zina, inclusive difundindo um vídeo cruel enquadrado para dar a impressão que a rapariga fazia sexo oral a um sujeito em plena rua. O antagonismo é subterfúgio frágil, contudo, e depressa se esfarrapa sob a pressão do desejo. Gradualmente, inimigas tornam-se amigas e, eventualmente, algo mais.

Desseigne-Ravel e suas atrizes constroem uma fascinante ligação entre as duas raparigas, encontrando o milagre da intimidade pela qual o indivíduo descobre a verdade que mantinha escondida até de si mesmo. Lina El Arabi é especialmente fantástica no papel de Nedjma, delineando um arco de autodescoberta tão marcado pela liberação pessoal como pela dor de rejeições sociais. Quando se revela a traição da rapariga para com o gangue, sua tribo, o crime da paixão proibida põe tudo de pernas para o ar e é como se forças invisíveis se apertassem em torno da jovem. O desespero sente-se visceralmente, tão bem exposto pela atriz em suplício.

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© Tripode Productions

Suas qualidades são tão evidentes em passagens mais ardentes, como em cenas onde a subtileza reina. Certa conversa com a mãe é dolorosa de ver, palavras de amor e conforto tornadas em punhaladas acidentais, uma lágrima por derramar brilhando no olho de Arabi. Noutro instante, a tentativa de provar a heterossexualidade, a si mesma quiçá, vale pelo transtorno do desejo inexistente, o pânico, o terror da rapariga desamparada e incapaz de negar a realidade dos fatos. Mais tarde, quando a história se precipita para a conclusão aberta, a atriz negoceia as ambivalências do texto com a confiança de uma veterana do plateau, trazendo uma maturidade essencial a uma narrativa marcada pela imaturidade da adolescência.

Ao longo de tudo isto, a realizadora está ao lado da atriz enquanto negociadora de tonalidades complexas. Há uma clara limitação na estética realista escolhida para o projeto, mas Desseigne-Ravel encontra formas de circum-navegar o dogma aborrecido. A abordagem é corriqueira de forma geral, mas há elegância na realização e no modo como o dispositivo realista traduz a subjetividade das personagens. Sinta-se a evolução da música, ou os laivos de expressividade na fotografia de Lucile Mercier. Um ponto alto do engenho ocorre quando a vibração do telemóvel se parece converter num terramoto. Outra cena prima pela beleza da simplicidade. Uma tenda no telhado é uma privacidade improvisada que abre as portas a uma dimensão alternativa onde o amor acontece sem percalços ou juízos alheios.

Les Meilleures, em análise
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Movie title: Les Meilleures

Date published: 23 de September de 2022

Director(s): Marion Desseigne-Ravel

Actor(s): Line Al Arabi, Esther Bernet-Rollande, Kiyane Benamara, Mahia Zrouki, Tasnim Jamlaoui, Laetitia Kerfa, Zoé Marchal, Mariama Gueye, Azize Diabaté Abdoulaye, Fadela Bouanati

Genre: Drama, Romance, 2021, 80 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“Les Meilleures” é cinema francês num tenor de realismo-social com dimensões românticas e questões de juventude queer entrelaçadas por entre a sua tapeçaria temática. Desseigne-Ravel mostra ser capaz de criar comoventes histórias, enquanto Lina El Arabi se afirma como uma nova estrela cheia de potencial.

O MELHOR: Um final feliz, talvez. É agridoce e surpreendente – a vida continua, mesmo que escondida do público. Aqui sim, o realismo do filme marca a diferença, mantendo um toque de dor mesmo quando o sorriso se esboça na cara das nossas queridas personagens.

O PIOR: Há uma qualidade meio anónima que varre todo o projeto, a impressão de que já vimos tudo isto noutros filmes. Escolhas formalistas diferentes poderiam ter colmatado essa sensação, mas, para bem e mal, Desseigne-Ravel mostra-se adepta da convenção.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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