"Une Dernière Fois" | © Canal+

Queer Lisboa ’22 | Une Dernière Fois, em análise

Em estilo de documentário falseado, Olympe de G. assina uma espécie de homenagem cinematográfica à atriz pornográfica Brigitte Lahaie. “Une dernière fois,” também conhecido como “One Last Time,” teve a sua estreia na televisão francesa, mas agora integra a programação de um festival de cinema. No Queer Lisboa 26, o filme faz parte da competição Queer Art.

Brigitte Lahaie, nascida Brigitte Lucie Jeanine Van Meerhaeghe, foi uma das grandes vedetas da pornografia francesa no século XX. A sua carreira foi propulsionada pelo movimento porno chic dos anos 70 e pela legalização da pornografia hardcore pelo Governo Francês. Ao longo da sua carreira, ela entrou em mais de uma centena destas produções, garantindo um lugar de honra na história do género. O seu sucesso na área depressa se traduziu em sucesso mais mainstream, com filmes de terror a servirem de ponte entre culturas. Hoje em dia, ela continua a ser personalidade mediática, publicando livros e apresentando o seu próprio programa de rádio onde explora temas sobre a sexualidade.

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Em resumo, Lahaie é uma figura de considerável fama e importância, especialmente quando consideramos a representação de sexo no cinema, ora em produção pornográfica ou em contextos mais convencionais. Tal ícone merece um filme feito à sua imagem, obra que considere o legado e importância da pessoa, que faça a metástase de temas longevos e lhes dê forma definitiva no paradigma do cinema. É isso mesmo que a realizadora Olympe de G. se propõe a fazer, construindo “Une dernière fois” em jeito de resumo e reflexo final – um verdadeiro filme testamento para a vedeta em jeito semelhante ao que “A Morte de Luís XIV” representa para Jean-Pierre Léaud.

A obra parte de uma premissa documental, com Lahaie no papel de Salomé, uma mulher de 69 anos que decidiu pôr fim à vida. Inspirada por outras histórias de suicídio assistido na Suíça, a senhora planeia a morte como forma de escapar à velhice, ao degredo do corpo, da mente, à crueldade de uma sociedade que tende a ignorar seus cidadãos idosos. A data está marcada para daí a seis meses, mas, entretanto, Salomé quer celebrar a vida através de um projeto peculiar. Damos sempre tanta importância à primeira vez – que tal dar o mesmo valor à última vez? Especificamente, ao último ato sexual, reflexo final e invertido de uma virgindade perdida.

“Une dernière fois” toma a forma desse projeto, aliando o engenho de uma documentarista chamada Sandra aos planos desejosos de Salomé. O mockumentary dedica-se a um processo de conversas, entrevistas e audições, pelas quais se encontrará aquele que será o derradeiro parceiro sexual da protagonista. Em cena inicial, fala-se de um anúncio no jornal pelo qual se encontraram os candidatos interessados, cada um deles entrando no filme para singulares episódios sexuais. Antes disso, contudo, a cineasta estabelece a intimidade entre a câmara e seu sujeito através do ato masturbatório, um momento estranhamento terno em termos de diálogo, conjugando o ato putativamente sórdido com a autorreflexão partilhada.

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Logo aqui, Lahaie prova ser uma estrela formidável, magnetizando o ecrã com puro carisma e um candor carnal que tanto surpreende como deleita. Como iremos descobrir, algumas das passagens mais interessantes da obra são os interlúdios passados entre Sandra e Salomé, a primeira mulher sempre invisível até uma sequência final. Antes desse último fulgor, contudo, há que se desenrolar as audições, começando com um antigo canalizador em cadeira de rodas que muito tenta inspirar o orgasmo com os dedos hábeis. Para primeiro encontro, trata-se de um fascinante fracasso com traços de tragicomédia. De facto, todo o filme é delicadamente humorístico, não obstante a premissa tão pesada, tão próxima do fatalismo.

Uma segunda audição introduz outro candidato, mais novo e confiante, mas com uma terrível falta de jeito no que toca ao diálogo. Aqui se introduz a ideia do corpo envelhecido enquanto objeto fetichista, ponto crítico onde a pena e o desejo lascivo fazem desconfortável justaposição. Dito isso, estas máculas do homem excitado não o impedem de ser bom amante ou de beijar como um deus. Em passagem memorável, Olympe de G. captura o orgasmo feminino com câmara oscilante, ora fascinada pela cara da mulher num prazer que quase é choro ou pela mão do homem que afaga o sexo através das calças. Mais tarde, esta filmagem é avaliada em retrospetiva, um cinema sobre cinema sobre cinema que, novamente, traz humor ao exercício.

Outras cenas se desenrolam, ora em tom de humor ou de introspeção. Um homem mentiu sobre a idade e ainda por cima tentou bloquear a visão da câmara. Salomé recusa-o, mas Sandra acha-o charmoso. Noutra ocasião, as duas colaboradoras são surpreendidas por um casal exibicionista que tem sexo à sua frente, enquanto Salomé se masturba. A ideia de voyeurismo intensifica-se com esse evento, mas também com os limites da protagonista que não quer os genitais filmados e se inflama de indignação quando a realizadora a interroga sobre a escolha do suicídio. “Sandra, este filme não é sobre a minha escolha.” – diz ela. Certamente tem razão, mas também não é necessariamente só sobre o sexo enquanto afirmação da vida.

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Ao invés de se reduzir a qualquer descrição singela, “Une dernière fois” assume-se enquanto meditação sobre mortalidade e autonomia, sobre o poder de escolher como encarar cada dia e desfrutar do corpo. Essas ponderações inspiram o riso, mas também explodem em prazer. Um candidato final coloca questões de género pela sua mera aparência, maquilhagem carregada e roupa provocante, resvalando a fita numa troca de posições onde Sandra se torna protagonista do próprio filme. À beira da abstração, é como se a câmara em si sentisse a euforia do ato sexual, o prazer distorcendo a realidade e as normas do engenho documental. Aqui sim a fita assume a sua forma final enquanto uma conversa cheia de paixão, não entre Salomé e os seus candidatos, mas entre as duas mulheres artistas, entre a atriz e a câmara. Liberta do estilo falseado da não-ficção, o edifício cinematográfico implode em espetacular forma, voando pelo espaço numa assombração onde a carne se torna alma e a pornografia se torna arte.

Une Dernière Fois, em análise
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Movie title: Une Dernière Fois

Date published: 23 de September de 2022

Director(s): Olympe de G.

Actor(s): Brigitte Lahaie, Alexandra Cismondi, Heidi Switch, Philippe Sivy, Arsène Laclos, Francis Mischkind, Misungui Bordelle, Rico Simmons, Mélodie Giraud

Genre: Drama, Pornografia, 2020, 70 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Quiçá o filme mais sexy da competição Queer Art do festival, “Une Dernière Fois” representa um fascinante exercício sobre performance explícita e os elos complicados que se estabelecem entre quem está por trás e quem está em frente à câmara. Em jeito de não-ficção enganadora, a narrativa serve de homenagem máxima à sua atriz principal, comentando o legado de Brigitte Lahaie por linhas oblíquas.

O MELHOR: A relação entre artistas ficcionadas. O momento em que, casting terminado, a câmara se libera do modelo mockumentary e se deixa levar pelo desejo alado, pelo romance piroclástico de um orgasmo vulcânico.

O PIOR: A qualidade de imagem é um problema intenso e o som também não ajuda. Por outro lado, confere a todo o filme a estranha intimidade do home video, talvez uma sex tape secreta. Enfim, sendo este um documentário falseado, esperávamos mais aprumo formalista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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