Queer Lisboa ’22 | Neptune Frost, em análise

“Neptune Frost” é um dos filmes mais estranhos do ano, imaginando um musical africano cruzado com a ficção-científica. Esta obra de Saul Williams e Anisia Uzeyman tem feito fama no circuito dos festivais, tendo passado primeiro em Cannes antes de partir para outros eventos pelo mundo inteiro. Recentemente, chegou o filme a Portugal, através do Queer Lisboa, onde integra a competição Queer Art da sua 26ª edição. Na verdade, o filme ganhou essa secção do festival, tendo sido premiado pelo júri oficial.

Saul Williams e Anisia Uzeyman, os realizadores de “Neptune Frost,” têm vindo a questionar classificações do seu filme enquanto parte de uma tradição Afrofuturista. Esse movimento estético não fazia parte das intenções dos cineastas, que nem sequer consideraram a ficção-científica enquanto objetivo ou paradigma no qual enquadram o seu trabalho. Dito isso, a vontade do artista só vai até um certo ponto, e há que se aceitar como este intimidante feito de cinema se insere, em certa medida, numa linha contínua de produções que vão desde as antípodas da literatura do século XX até obras de Hollywood como “Black Panther.”

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© Carte Blanche

Num paradigma mais lusitano, podemos olhar sobre o projeto épico de Cleo Diária, Isabé Zuaa e Nádia Yracema no teatro. Seus espetáculos “Aurora Negra” e “Cosmos” vão buscar elementos ao Afrofuturismo no mesmo gesto em que ponderam o passado. Considera-se o amanhã para articular o ontem e entender o hoje, partindo de uma perspetiva pós-colonialista onde os imperialismos são renegados. Encarando o filme de Williams e Uzeyman, podemos contextualizá-lo neste movimento internacional e interdisciplinar, nesta vontade de contar histórias sobre a diáspora africana usando a fantasia para esboçar liberação, transcendendo os limites da História e do presente.

Indo além desses fatores, o cinema Afrofuturista, em particular, consegue esboçar a narrativa além da dramatização da dor e dos códigos audiovisuais estabelecidos para histórias de gente branca. Há um valor revolucionário na expressão de felicidade vivida fora da sombra da opressão, concetualizações da força africana que excisam personagens exteriores ou os expulsam para presenças invisíveis fora de cena. Sente-se o sabor da revolta em jeito de celebração, ou quiçá o festejo que é rebeldia, o êxtase que é desafio. “Neptune Frost” é tudo isso e muito mais, aparecendo-nos enquanto um épico de ficção-científica em forma de musical.

Também é um poema, desenrolando-se consoante lógicas de sonho e esquemas líricos, ocasionalmente dançando no precipício da incoerência. Trata-se de um filme cheio de ideias e um repúdio da convenção, vontade essa tão forte que se torna na missão do cineasta. Todo o aparato cinematográfico remete para a materialidade palpável deste mundo vindouro, mas também se verifica uma dança em torno do literal, procurando formas de linguagem evocativa e estruturas efémeras. Ou seja, este é um desses complicados objetos que demandam a atenção do espetador, qual sereia seduzindo um marinheiro a perder-se nas ondas.

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Imergindo-nos no foro mitológico de “Neptune Frost,” damos por nós numa Ruanda feita abstrata pela deslocação temporal. Deambulando pela paisagem, os dois protagonistas vivem vidas paralelas, destinadas a cruzarem-se num epíteto de romance. Mataluda é um mineiro cujo espírito tem sido escoriado pela morte em seu redor, toda a pobreza e miséria, fome e desespero que caracterizam a comunidade que escava a terra em busca de minérios valiosos. Tudo isso eles fazem em nome de uma Autoridade distante, talvez um pesadelo de força Ocidental que encara África e sua gente como um poço sem fundo de recursos. Até o corpo humano é comodidade.

Neptune, por seu lado, é um indivíduo interssexo interpretado por dois atores que se dedica ao trabalho de hacker e experiência uma existência marcada pela solubilidade identitária. Elx é espírito livre e personificação de uma África que vira as armas da opressão contra o opressor, dominando a tecnologia em gesto militante. Quando se encontram, a paixão floresce entre os dois heróis de “Neptune Frost” e o par acaba por achar novo lar dentro de uma comuna de hackers com nomes simbólicos. Entre a magia e a tecnologia, os hackers construíram um paraíso terreno onde se podem render ao prazer da carne e da imaginação. A folia é rainha e só a ameaça da Autoridade macula este novo Éden.

O argumento do filme, escrito por Williams que também assinou as canções, é uma maravilha de invenção, mas o maior valor da obra está nos visuais concebidos pela equipa. Com Uzeyman a servir de diretora de fotografia, a fita caracteriza-se pela flexibilidade estilística, oscilando entre registos e matizes, pintando pele escura em tons de ultravioleta e azul noturno. Quiçá uma maior precisão nos enquadramentos fosse preferível, mas aplaudimos a energia febril de uma câmara que rejeita a estagnação. Tal como as personagens, parece estar sempre na busca de um ideal difícil de agarrar, de prender, de cristalizar em cinema digital.

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© Carte Blanche

Contudo, beleza da música aparte e fotografia já discutida, convém prestar especial homenagem ao maior responsável pelo milagre visual de “Neptune Frost.” Trabalhando enquanto cenógrafo e figurinista, Cedric Mizero apela à fantasia de um futuro incerto e à robustez plástica do presente reciclado. Desde o primeiro plano, quando olhos nos fitam através de uma máscara entre a espinha e o esqueleto, que as criações do artista provocam a imaginação. Mais à frente, ele dá forma sólida à utopia hacker, usando fios de cobre e computadores desconstruídos como forma de combinar desenho orgânico com as máquinas do progresso. Os heróis do filme parecem monumentos coloridos cobertos pela pátina que cresce no limbo que separa o ser humano do engenho tecnológico. Feito o ecrã passerelle e instalação de museu, “Neptune Frost” é um daqueles filmes com imagens tão fortes que jamais serão esquecidas, visões gravadas na memória a ferro e fogo, um sussurro de fantasia que ecoa pelo âmago do espetador sortudo.

Neptune Frost, em análise
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Movie title: Neptune Frost

Date published: 25 de September de 2022

Director(s): Anisia Uzeyman, Saul Williams

Actor(s): Cheryl Isheja, Elvis Ngabo, Bertrand Ninteretse, Eliane Umuhire, Dorcy Rugamba, Rebecca Mucyo, Trésor Niyongabo, Eric Ngangare, Cecile Kayiregawa, Natasha Muziramakenga, Ekaterina Baker

Genre: Musical, Ficção-Científica, 2021, 109 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Um poema de ultravioleta refletido na pele escura, azuis da noite africana e o beijo verdejante da paisagem, rasgos de cobre em verso material desenhados pelo ecrã – assim é “Neptuno Frost,” um poema épico na tradição Afrofuturista. Feito fascinante, este é daqueles filmes que todos deviam ver, tanto pelo seu discurso concetual como pela novidade estilística que traz à conjetura atual, uma brisa de ar fresco vinda diretamente da floresta Ruandesa.

O MELHOR: O trabalho de Cedric Mizero no cenário e figurinos. Que assombração!

O PIOR: A simbologia no texto faz dos primeiros 45 minutos um problema difícil de decifrar. Também sentimos falta de composições arrojadas o suficiente para chegar ao mesmo nível que a música e o design.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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