"Esther Newman Made Me Gay" | © Queer Lisboa

Queer Lisboa ’22 | Esther Newton Made Me Gay, em análise

Esther Newton Made Me Gay” de Jean Carlomusto foi a obra escolhida para encerrar a 26ª edição do Queer Lisboa. Antes de chegar ao Cinema São Jorge, já o filme tinha passado por outros festivais pelo mundo fora, incluindo em Provincetown onde ganhou o prémio da Audiência. Este documentário sobre uma pioneira queer enquadra-se muito bem nos temas basilares do Queer Lisboa 26, representando um apelo contra o esquecimento e a favor da História comunitária.

A programação do Queer Lisboa em 2022 apoiou-se em ideias ligadas à memória, tanto ao nível do indivíduo como do coletivo. Nas palavras publicitadas pelo festival “negar a memória é desonrar e não reconhecer quem permitiu que estivéssemos onde estamos hoje.” Contra o negacionismo se manifestam as obras escolhidas para as várias secções desta festa do cinema queer, quer seja de modo direto ou não. Honram-se os antecessores e pioneiros de modo a compreender-se o hoje, o agora. Faz-se o exercício na tentativa de contradizer o privilégio do esquecimento que tantas vezes veste um figurino progressista, finge ser subversivo quando, na realidade, é reacionário e leva à marginalização.

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© Queer Lisboa

Temos que saber a nossa História, portanto, e a expressão cinematográfica pode ser ferramenta para promover o conhecimento. Isso faz-se de múltiplas maneiras, mas o documentário é quiçá o modelo fílmico mais óbvio quando o objetivo abrange uma justaposição do gesto artístico e o projeto educação. Por isso mesmo, parece-nos justificada a decisão de encerrar o festival com “Esther Newton Made Me Gay,” obra documental de Jean Carlomusto que, na sua pesquisa, acaba por englobar as ideias principais nesta edição do Queer Lisboa. Isso não significa que seja obra-prima cinematográfica, é claro.

Mas, antes de falar dos méritos do trabalho enquanto cinema, talvez seja bom estabelecer quem é essa Esther Newton do título. Como nos explica a fita, Esther Newton é uma académica e antropóloga cultural cujo trabalho de foro etnográfico ajuda a iluminar a História queer. Lésbica assumida, Newton teve sempre alguma dificuldade em integrar-se nos preceitos tradicionais da feminilidade. De facto, ao conhecer drag queens pela primeira vez, a estudiosa quase experienciou autoidentificação, reconhecendo-se a si mesma no ato de vestir a ideia de mulher como um figurino.

Antes desse contacto, contudo, Newton sofreu e resistiu, experienciando as forças destrutivas da vergonha, essa tão poderosa pressão social. A vida familiar não ajudou, mesmo que o padrasto se tenha evidenciado como uma figura aspiracional para a jovem. Newton veio a estudar História na Universidade do Michigan e, na década de 60, começou seus estudos antropológicos sob a supervisão de David M. Schneider. Foi durante este período que ela começou a encarar a comunidade queer numa mistura de interesse pessoal e olho académico. Foi essa a base da sua tese, sobre o mundo drag e a subcultura queer, a performance de género, a teatralidade enquanto movimento de resistência.

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Esse e outros trabalhos formam a base de “Mother Camp: Female Impersonators in America,” livro publicado em 1972 cuja importância histórica não pode ser ignorada. Em certa medida, Newton plantou a semente de onde cresceu a floresta de estudos queer e de género que, hoje em dia, se fazem ouvir no panorama académico por todo o mundo. Nomes tão grandes como Judith Butler citaram Newton aquando da teorização sobre a performatividade de género e papéis sexuais, enquanto o segundo livro “Cherry Grove, Fire Island: Sixty Years in America’s first gay lesbian town” é uma documentação essencial no entendimento da História LGBT+ em contexto americano.

Tudo isto é discutido no documentário, ora pela própria Esther Newton ou por testemunhos dos mais variados setores. Através de particular perspetiva, poder-se-ia dizer que, através de Carlomusto, a académica está a realizar mais um estudo antropológico. Desta vez, contudo, a procura do conhecimento aglutina-se à autobiografia, sendo ela mesma o sujeito da tese filmada. Apelando à imagem de arquivo e cinema observacional, à entrevista e à citação direta da obra escrita, “Esther Newton Made Me Gay” é homenagem e é dissecação, tanto para a mulher ao seu centro como para as figuras que a influenciaram.

Nesse sentido, o filme é um triunfo comovente. Contudo, queremos um objeto de cinema tão arrojado quanto o trabalho de Newton. Alguns desvios pelo mundo do show canino – herança maternal que Newton perpetua – dão originalidade à estrutura, mas o resto é muito convencional. Também há pouco diálogo entre ideias, a não ser em dois momentos precisos que, como seria de esperar, se afirmam como duas das melhores cenas do filme. O primeiro acontecimento ocorre em cenário glamouroso, a exposição do MET sobre camp que, ao invés de mencionar os estudos pioneiros de Newton, centra todo o projeto nas notas de Susan Sontag.

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© Queer Lisboa

A figura central do documentário não revela passividade perante este esquecimento. Refere-se como a tese original de Newton precede os escritos de Sontag e como, nas “Notes on Camp,” se regista uma desassociação perniciosa do tema e a comunidade gay. Antes dessas notas, antes de Stonewall, já Newton dava tese concreta sobre o camp enquanto algo que transcendia a sensibilidade esotérica e era, na verdade, uma resposta perante repressão. Há aqui uma acusação de desonestidade, especialmente quando Newton lê, em voz alta, um texto nas paredes do museu que, em jeito absurdo, questiona se o camp é necessariamente gay – para a autora, não há questão mais idiótica. Claro que é!

Noutra cena memorável, Esther Newton aparece perante um grupo de estudantes, muitas gerações mais novas que ela. Ao invés de ser como outros ícones queer da mesma época, existe uma enorme aceitação pela parte de Newton para com a juventude atual e suas explorações de género. Não há aqui retórica transfóbica, muito pelo contrário, sendo que a própria autora tende a considerar a sua pessoa num espectro não totalmente separado de masculinidade trans. A surpresa deleitada dos ouvintes é palpável, e a maravilha de Esther Newton também se sente nos ossos, no coração, no âmago da alma. Bom ao mau cinema, este documentário merece aplausos pelo modo como vai introduzir esta grande mulher a novas mentes.

Esther Newton Made Me Gay, em análise
esther newton made me gay critica queer lisboa

Movie title: Esther Newton Made Me Gay

Date published: 29 de September de 2022

Director(s): Jean Carlomusto

Genre: Documentário, 2022, 92 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Segundo Esther Newton, o camp tem que ser teatral, divertido e incongruente. Não seria fantástico se um documentário sobre ela tivesse a mesma atitude? Infelizmente, “Esther Newton Made Me Gay” resvala no conservadorismo formalista, falhando a sua personagem central nesse aspeto. Contudo, trata-se de uma boa introdução aos seus estudos, ideias e personalidade, quase um reflexo antropológico em gesto de introspeção.

O MELHOR: A questão do camp e Sontag, a palestra com os estudantes, as palavras embevecidas sobre suas amigas defuntas. Uma passagem sobre Kay, qual lésbica de Cherry Grove, é especialmente comovente.

O PIOR: A displicência formal, a estrutura corriqueira, a montagem desinspirada.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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