"Viens je t'emmène" | © Les Films du Losange

Queer Lisboa ’22 | Viens je t’emmène, em análise

“Viens je t’emmène,” também conhecido como “Nobody’s Hero,” foi selecionado como o filme de abertura para a secção Panorama da Berlinale. Uns meses depois, o filme chega a Portugal com antestreia nacional no Queer Lisboa, onde passou em programa não-competitivo. O novo filme de Alain Guiraudie conta com Jean-Charles Clichet e Noémie Lvovsky nos papéis principais.

O humor se Alain Guiraudie não é para toda a gente. Seco como o Sahara, há um jeito minimalista nas suas sensibilidades cómicas, uma atitude inexpressiva que procura provocar o riso pelo desconforto e incongruência na reação. Seu filme mais famoso, “O Desconhecido do Lago,” exibe essa vertente na figura de um polícia que, ciclicamente, lá aparece na zona de cruising onde uma onda de homicídios tem pontuado as escapadelas sexuais. No seu mais recente trabalho, o realizador francês trabalha dentro do mesmo registo, expandindo o tenor humorístico de uma só figura à totalidade do filme. Sendo humor subjetivo, os resultados são difíceis de avaliar.

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© Les Films du Losange

Como no thriller queer de 2013, também “Viens je t’emmène” parte da premissa sexual antes de expandir os horizontes narrativos. Em Clermont-Ferrand, no centro de França, as manhãs desenrolam-se frias e com ruas vazias. Num miradouro despido, Médéric deambula sem destino até se aproximar de outra transeunte. O homem desenxabido na casa dos 30 quer comprar os serviços de Isadora, trabalhadora sexual de meia-idade que conjuga o ofício carnal com a vida de mulher casada. A interação é estranha, como se ambas as personagens fossem alienígenas tentando replicar o comportamento humano, bem naquele estilo desafetado que Guiraudie tanto ama.

Da rua ao quarto de hotel onde se cobra à hora, Médéric e Isadora deixam-se levar pela fantasia do desejo, um sonho em tons escarlates e pele pálida despida. Faz-se o sexo oral e fala-se do amante vigoroso, ela promete que está a ter tanto prazer que nem irá aceitar o dinheiro, mas o espetáculo é interrompido pela notícia chocante. Na TV, divulga-se um ataque terrorista que assolou a pequena cidade e todo o hotel parece em polvorosa. Ou, pelo menos, a versão de polvorosa que existe no ecossistema cinematográfico deste autor. Lá aparece o marido da prostituta e corta-se o encontro antes de tempo.

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Médéric assim volta a casa ainda com tesão, frustrado e cheio de confusas interseções entre o desejo e o afeto. Não obstante os avisos de um hoteleiro amigável, ele está a apaixonar-se por Isadora. Ou talvez seja obsessão em lugar de amor. A verdade do sentimento não interessa, só o efeito corrosivo que tem para este triste panhonha com demasiado tempo livre nas mãos. Regressado ao domicílio, contudo, outra figura aparece para quebrar a rotina do nosso anti-herói em jeito de zé-ninguém. Ele é Selim, um jovem sem-abrigo de traços árabes que procura guarida no bloco de apartamentos. Está frio e ele tem fome, tem sono e quer resguardar-se da intempérie.

Mas será ele inocente ou um desses terroristas foragidos de que se falava no noticiário? A paranoia é muita e o stress do orgasmo negado não ajuda. Inicialmente, Médéric chama a polícia como o ‘cidadão exemplar’ que é, mas o regresso noturno do miúdo depressa suscita novas reações, tanto dele como da vizinhança. Há quem se deixe levar pela islamofobia da França contemporânea e seja incapaz de mirar Selim sem nele ver um monstro. Outros, são mais generosos, mas só até um certo ponto. Ora a dormir nas escadas do edifício ou no sofá-cama de Médéric, o jovem torna-se numa figura ambígua sobre a qual cada um projeta as suas inseguranças e preconceitos.

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© Les Films du Losange

Como um crítico social com olho astuto, Guiraudie usa estes três indivíduos – Médéric, Isadora e Selim – para desenhar uma pintura meio grotesca da sociedade francesa. O protagonista é uma espécie de ponto médio entre classes, enquanto a prostituta representa uma vertente suburbana do ecossistema económico francês. O sem-abrigo, obviamente, está em forma de símbolo de uma comunidade imigrante denegrida e forçada a viver na miséria, julgados até pelos mais singelos atos de comunhão por quem não os compreende. Médéric certamente não entende esses mundos paralelos ao seu, mas tenta imiscuir-se qual intruso em ambos os mundos.

A câmara segue-o na viagem, traçando a planta de Clermont-Ferrand em movimentos de escalda ou descida social. Em atos finais, as realidades múltiplas refugiam-se num ponto único, tentando criar uma dimensão alternativa de sociedade idealizada que a sociedade real não tolera ou deixa existir. Faz-se o gesto para a putativa utopia, mas os paradigmas de Guiraudie são meio infantis no que revelam sobre os milieux estudados. Sente-se a vontade de dizer algo importante sobre uma França à beira do precipício, mas as negociações de drama e humor, tragédia e comédia, desnorteiam o esforço e descabam o edifício fílmico. Disperso e desequilibrado, “Viens je t’emmène” é objeto fascinante, mas dificilmente irá satisfazer quem não for fã ferrenho de Alain Guiraudie.

Viens je t'emmène, em análise
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Movie title: Viens je t'emmène

Date published: 29 de September de 2022

Director(s): Alain Guiraudie

Actor(s): Jean-Charles Clichet, Noémie Lvovsky, Ilies Kadri, Michel Masiero, Dora Tillier, Renaud Rutten, Philippe Fretun, Farida Rahouadj, Miveck Packa, Yves-Robert Viala

Genre: Comédia, 2022, 100 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

Menos formalmente rigoroso que trabalhos passados, mas tão empenhado em explorar sensibilidades estranhas, “Viens je t’emmène” representa um novo capítulo na odisseia cinematográfica de Alain Guiraudie. Desta vez, os truques e manias do autor francês provam ser traiçoeiras, diluindo o poder de uma critica social. Aprecia-se o humor desconfortável, mas queremos mais.

O MELHOR: As composições não primam pela complexidade, mas há muito a apreciar na fotografia de Hélène Louvart. Suas divagações entre o sonho e o mundano são especialmente belas, assim como a poesia cromática no quarto do hotel e as linhas sociológicas que se traçam pelas ruas de Clermont-Ferrand.

O PIOR: Os inúmeros fios narrativos deixados soltos pelo meio desta tapeçaria. Também a figura de Médéric deixa muito a desejar enquanto não-herói deste conto com aspirações utópicas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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