Rainha do Deserto, em análise

Werner Herzog traz a vida de Gertrude Bell ao cinema com Rainha do Deserto, onde Nicole Kidman encarna a figura histórica com uma presença de gélida imperiosidade.

rainha do deserto

É extremamente difícil perceber que tipo de audiência ficará satisfeita com Rainha do Deserto, um docudrama sobre Gertrude Bell que conta com Nicole Kidman no papel principal e Werner Herzog na cadeira de realizador. Por exemplo, é impossível imaginar que os fãs do visionário cineasta alemão não ficarão desapontados com o abjeto convencionalismo deste filme em relação ao resto da sua filmografia. No entanto, quem for ver o Rainha do Deserto na esperança de assistir a uma versão cinematográfica da vida histórica de Gertrude Bell, ficará certamente desapontado com o modo como o filme persistentemente a reduz a uma figura romântica, singularmente motivada pelos eventos da sua vida amorosa. Mas também quem procurar um romance histórico, dificilmente ficará satisfeito com a falta de estrutura dramática do filme. Talvez fãs de Nicole Kidman e do restante elenco, que inclui James Franco e Robert Pattinson, encontrem grandeza no filme, mas mesmo assim Rainha do Deserto acaba sempre por se revelar como uma obra de relativa mediocridade.

No entanto, na sua mediocridade, Rainha do Deserto consegue afirmar-se também como um dos mais interessantes filmes dos últimos tempos. Falta de qualidade e incongruência cinemática nem sempre são condutores de criatividade ou de uma experiência negligenciável, e este é o perfeito exemplo disso mesmo. Tanto nos seus pequenos triunfos, como nos seus esmagadores fracassos, Rainha do Deserto é um fascinante objeto que convida a apreciação crítica da sua audiência, especialmente dos espetadores que conheçam os estilos e filmografias dos cineastas envolvidos.

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Apesar de superficialmente o filme ser sobre a vida de Gertrude Bell, a exploradora, cartógrafa, antropóloga e historiadora que teve um papel fulcral na definição de fronteiras e novas ordens políticas no rescaldo da Primeira Grande Guerra, Werner Herzog parece estar completamente desinteressado no dramatismo inerente à sua história humana. Basta olharmos para as cenas em que Gertrude começa a desenvolver o seu romance com um irreverente viciado no jogo, interpretado por James Franco. Uma das suas interações ocorre frente a uma falésia rochosa por nenhuma razão aparente, e a câmara está posicionada de tal modo que é a paisagem natural o foco da composição e não os dois apaixonados que são quase esmagados pela força visual do deserto iraniano. Noutra ocasião, o realizador, como um miúdo a sofrer de défice de atenção, vira a sua câmara para o tecto durante uma cena de confrontação política, tornando a arquitetura árabe numa espécie de luxuosa caverna esculpida e ignorando os jogos de poder em ação.

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Tal como seria de esperar pela sua filmografia, Herzog está muito mais focado na impiedosa magnitude do mundo natural e dos ambientes físicos que propriamente em açucaradas histórias de amor semi-históricas. O resultado final deste tipo de abordagem estilística é um filme que parece ser produto de um argumento escrito na era dourada de Hollywood, e dirigido por um dos mais vanguardistas autores da atualidade cinematográfica. Esta dissonância é tão grande que ultrapassa a mera incongruência e chega a um patamar superior, algo magistralmente confuso e contraditório.

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A complementar a sua visão fortemente física e monumental do mundo em que Bell se inseriu, Herzog tem a ajuda de uma formidável equipa, que inclui o diretor de fotografia Peter Zeitlinger e a figurinista Michele Clapton que têm aqui algum do melhor trabalho das suas respetivas carreiras. Zeitlinger, um regular do cinema de Herzog, encontra uma beleza quase lírica nas paisagens desérticas, e trata de modo igualmente formidável os ambientes urbanos e europeus que vamos ocasionalmente vislumbrando. Clapton, por seu lado, é fulcral na definição dos mundos em conflito na narrativa, a rígida sociedade britânica e a exótica e libertadora realidade das comunidades árabes.

O elenco de Rainha do Deserto também contém pequenas doses de genialidade, sendo que apenas James Franco se poderá envergonhar com a sua prestação desastrosa, completa com um dos sotaques britânicos menos convincentes dos últimos tempos. Robert Pattinson, é de particular destaque positivo, tendo a impossível tarefa de encarnar T. H. Lawrence, uma personagem que já foi perfeitamente trazida ao cinema por Peter O’Toole. Mesmo assim, Pattinson consegue colocar a sua marca pessoal em Lawrence, encontrando nele uma figura estranhamente removida do drama em seu redor e que parece estar sempre num patamar de conhecimento superior a todos os que o acompanham e o confrontam, uma postura tão nobre como arrogante.

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Igualmente portadora de uma presença imperiosa é Nicole Kidman no papel titular. É certo que a atriz é demasiado velha para interpretar Bell no início do filme e que raramente ela traz alguma complexa interioridade à sua personagem, mas sua presença lembra a de estrelas da Hollywood do passado. Ela é como Greer Garson renascida e temperada por uma frieza que corta alguns dos tons mais sacarinos e desinteressantes do argumento. Envolta em esvoaçantes lenços, Kidman aparece nos tableaux desérticos como uma figura de poder inquestionável, tornando percetível no seu olhar toda a força e inteligência que o texto de Rainha do Deserto parece decidido a lhe roubar

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Tudo isto conjuga-se num filme que, infelizmente, nunca consegue ser mais do que meramente interessante, o valor das suas partes infinitamente superior ao seu todo. O seu argumento, em particular, é demasiado terrível para ser completamente salvável, e por muito fascinantes que sejam as escolhas de Herzog, a sua abordagem nunca consegue justificar toda a mediocridade em que se insere. Tal como Wim Wenders, talvez fosse melhor que Herzog evitasse os projetos de Hollywood e se limitasse aos seus maravilhosos documentários experimentais, pois é aí que o seu estilo consegue realmente brilhar e não em inconsistentes dramas de prestígio como Rainha do Deserto.

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O MELHOR: As paisagens do deserto e toda a sua grandiosidade natural.

O PIOR: Mais irritantemente sacarino que o argumento é a banda-sonora de Klaus Badelt, cujas melodias chorosas são tão lamechas que quase trazem uma ironia acidental a todo o filme.


 

Título Original: Queen of the Desert
Realizador:  Werner Herzog
Elenco: Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattinson, Damian Lewis
NOS | Drama, Histórico, Romance | 2015 | 128 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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