Raised by Wolves | © HBO Portugal

Raised by Wolves T2, primeiras impressões

Raised by Wolvesregressa aos serões licantrópicos da HBO, com uma parentalidade menos alienígena, mas nem por isso menos mordaz, introspetivando-se, ainda mais, no impulso primitivo das emoções humanas perspetivadas em torno de uma divindade. Estes dois primeiros episódios contêm-se na excentricidade artística, sobrevalorizando a exuberância de um cenário tropical comunitário, que cheira menos a “Alien” e mais a pecado original…

Por esta altura, “Raised by Wolves” já terá cimentado um lugar cativo no âmago dos adeptos mais puristas do sci-fi, não estivéssemos a falar de uma obra televisiva com altíssimos valores de produção e com o dedinho mágico de Ridley Scott, pese embora a sua participação nesta segunda temporada seja mais nominal, com o conceituado realizador Ernest Dickerson (The Walking Dead) a assumir as rédeas do espicaçante enredo de Aaron Guzikowsky. Recuando ao último episódio, Mother (Amanda Collin) e Father (Abubakar Salim) mergulharam aquele seu charuto metálico de nave espacial no poço ardente de Kepler 22-b, pondo termo às suas vidas artificiais depois de Mother dar à luz uma aberração destrutiva. A ameaça à vida humana em forma de serpente – um claro aceno à alegoria do pecado original -, constitui o mote de “The Collective”, que no respaldo ameno de um terreno florestal fecundado num deserto banhado por um mar acídico, devolve a andróide matriarcal inanimada de bateria à sua forma primária, agora sob o cuidado do “Fundo” – um supercomputador quântico que gere o dia-à-dia de uma coletividade pacífica de ateístas, na chamada “zona tropical” do planeta.

Raised by Wolves T2 Corpo
Raised by Wolves | © HBO Portugal

Quer isto dizer que, basicamente, os acontecimentos passados serviram somente o propósito de substituir uma comunidade de colonos ateístas por uma já colonizada, remetendo a ordem religiosa dominante dos mitraicos à condição de subjugados. Nessa linha de pensamento, a inversão de papéis dos detentores do poder local, continua a perpetuar a luta teológica que alimenta o persuasivo lado místico e esotérico de “Raised by Wolves”, não se vislumbrando ao certo como isso engrandecerá objetivamente a intriga, correndo-se o risco de deambularmos excessivamente na sua plataforma psicadélica e onírica, como de resto se sentiu amiúde na temporada transata. Veremos como Guzikowsky irá montar o clímax doutrinário, que relega no solitário Marcus (Travis Fimmel) a herança de fazer vingar o mitraismo, agora numa franja societária nada complacente com os ensinamentos de “Sol”, e sem o poder exterminador de Mother a minar-lhe os planos. Aliás, esse detalhe é uma das grandes incógnitas por desvendar nesta leva fresquinha de novos episódios, já que Mother – um ciborgue inteligente concebido com a odiada tecnologia mitraica -, é reprogramada como mero robô serviçal, tal como Father já o era, e acolhida no seio ateu com os seus fedelhos impuros como heroína da guerra contra os mitraicos, o que para alguns residentes soou a infâmia. E é neste tipo de querelas, até algo contraditórias, que Guzikowsky marca pontos ao bicar a narrativa com nuances de cariz ético e moral, já que a repulsa não se verifica pelo ato em si, mas de onde o ato provém, como se a própria máquina fruísse de uma alma infiel incapaz de redenção, nem fosse ela o resultado consciente de uma vontade humana ou de uma sua projeção virtual.

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Outro aspeto deveras interessante de acompanhar nesta iteração de “Raised by Wolves”, tem que ver com a paridade de competências e capacidades parentais entre Father e Mother, que depois deste primeiro ter exprimido um sentimento simulado de rejeição perante a presença alfa da sua congénere, agora os dois progenitores parecem estar mais em pé de igualdade, sendo que Mother continua a assumir a dianteira das intervenções educacionais e a emanar o seu sexto sentido ultra protetor. Ainda mais agora, que tem debaixo da sua alçada meia dúzia de crianças mitras, com o introvertido Paul (Felix Jameson) a revelar uma insistente resistência à desvinculação dogmática de “Sol Invictus”, confiando que a imparcialidade e bom senso do jovem Campion (Winta Mcgrath) sejam o arquimédico ponto de equilíbrio das vozes interiores que comandam a vontade dissidente de Paul. Mas o mesmo chamamento, digamos, divino, atormenta Marcus que ao aterrar nesta espécie de “ilha paradisíaca”, esbarra numa cientista infértil (Decima) que se faz acompanhar da sua “filha” andróide (Vrille), libertando-as do jugo ateísta sob a liderança militar de Cleaver (Peter Christoffersen) para ingressarem na sua causa.

Raised by Wolves T2 Corpo
Raised by Wolves | © HBO Portugal

Assim, é num sistema politeísta de valores e crenças, que Guzikowsky aposta em dinâmicas já estabelecidas, sobretudo as que dizem respeito à convivência entre os pequenos humanos e as suas máquinas protetoras, que encontrarão nesta comunidade já enraizada, o derradeiro teste à coesão do seu imprevisível e famigerado grupo, que fora de uma bolha vivencial, ficam indubitavelmente expostos ao livre arbítrio de qualquer ameaça individual. Aliás, a questão da liberdade de escolha é imperativamente aflorada neste novo “status quo”, já que o modelo  societário averso a um Deus sobrenatural, encarrega uma inteligência artificial do ónus da governabilidade de seres pensantes, o que não deixa de ser mais uma afronta paradoxal de Guzikowsky, que sugere uma intrusiva interdepência profunda entre homem e máquina. Mas, neste pano de fundo naturo-científico de perceções dúbias e intensões nubladas, enquanto tivermos uma Amanda Collin num fato de licra a contorcer o pescoço altivo em mil e uma expressões autómatas, com aquela voz de mãe galinha e uma postura pseudo-maternal que esconde um desvario impulsivo algures naqueles circuitos leitosos, só ela sozinha comanda as atenções em “Raised by Wolves”. Claro que o mesmo poderá ser dito da deliciosa parceria com Abubakar Salim, já que ambos entrosam-se numa química estonteante de se ver.

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Contudo, o facto de os dois serem os grandes “lobos” do ecrã, já que o grosso da narração gira completamente em seu redor, isso leva-nos a admoestar o guião de Aaron Guzikowsky no que toca ao “character development” das restantes personagens, cuja existência parece perder-se numa visão abstrata ao serviço da veia conspirativa da novela, que tendenciosamente veicula a evolução dos papéis da parelha protagonista. Mas aguardemos para apreciar como é que algumas “side-plots” se irão desenrolar, sobretudo as que envolvem os atores de palmo e meio, nomeadamente a relação entre Campion e a serpente (tecnicamente sua meia-irmã) por mais obsceno que isso possa soar. Enquanto Mother reage com repulsa à sua cria assassina e tenta proteger o seu único “filho” do assédio do réptil voador. É neste suspense especulativo que vamos avidamente furando pela obscuridade de uma trama geral por vezes convoluta, mas que paulatinamente vai destecendo a sua teia com uma lucidez eficiente alicerçada na extravagante apresentação visual, mesmo que esta não atinja totalmente o mesmo grau de consistência nas mãos de Ernest Dickerson. Ainda assim, “Raised by Wolves” é suficientemente arrojado e inteletualmente estimulante para continuar a merecer a nossa total DEVOÇÃO!

“Raised By Wolves” de Aaron Guzikowksy é uma das séries sci-fi mais promissoras do momento, tendo arrecadado já quatorze nomeações, uma delas para um “Emmy”. Os dois primeiros episódios já se encontram disponíveis na plataforma da HBO Portugal.

Miguel Simão

Raised by Wolves T2 | Primeiras Impressões
Raised by Wolves

Name: Raised by Wolves

Description: Na segunda temporada de "Raised by Wolves", a série dramática original da HBO, os parceiros androide Mother (Amanda Collin) e Father (Abubakar Salim), juntamente com a sua ninhada de seis filhos humanos, juntam-se a uma nova colónia ateísta na misteriosa zona tropical de Kepler 22b. Mas, enquadrarem-se nesta nova sociedade é só o começo das suas preocupações, já que o filho natural de Mother ameaça conduzir o pouco que resta da raça humana à sua extinção.

Author: Miguel Simão

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  • Miguel Simão - 75
75

CONCLUSÃO

Depois de uma estreia auspiciosa com o cunho pessoal de Ridley Scott, a segunda temporada continua a explorar os temas da parentalidade e da inteligência artificial com engenho argumentativo e exotismo estético, que aposta na imprevisibilidade para agarrar o espetador. Os dois primeiros episódios enquadram satisfatoriamente os acontecimentos passados com interesse e expetativa, mas só o tempo dirá se a execução da história, quer em termos de cadência, quer em termos de conteúdo, chega a bom porto sem deambular compulsivamente numa vertente mais letárgica de contemplação.

Pros

  • Amanda Collin e Abubakar Salim
  • Enredo cativante
  • Visuais distintos
  • Banda sonora atmosférica

Cons

  • Inconsistência visual/interpretativa
  • Desenvolvimento das personagens
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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