Raiva

Raiva, em análise

Raiva” de Sérgio Tréfaut é uma tragédia alentejana com origens históricas e uma mensagem de revolta social que ainda é relevante nos dias de hoje. Infelizmente, é bem capaz de ser uma mensagem que será sempre relevante enquanto a humanidade existir.

“Raiva”, a segunda aventura de Sérgio Tréfaut pela ficção numa carreira dominada pelo documentário, começa com uma das grandes sequências do ano. Trata-se de um prólogo sanguinário em que testemunhamos dois assassinatos na calada da noite. Quem morre é um grande senhor das terras alentejanas e seu filho. Assim é feito pela mão de um camponês cujo fado está traçado desde o momento em que prime o gatilho. Com fogo e tiros a rasgar a penumbra, monta-se um cerco, incendeia-se uma casa e o assassino encontra o seu fim. Depois disto, a narrativa circular do filme vai perscrutar tudo o que levou aos eventos dessa noite, que só por si representa uma história simples, quase folclórica, de retribuição e justiça violenta.

A economia e precisão formal que Trefáut traz a estes momentos evoca o classicismo cinematográfico de outros tempos e géneros, sendo uma sinfonia cinematográfica sem uma nota fora de sítio, perdida ou desperdiçada. É fácil imaginar que, se John Ford se tivesse aventurado pelas paisagens alentejanos ao invés do Monument Valley, os efeitos seriam algo semelhantes a esta abertura de “Raiva”. Certamente a fotografia de Acácio de Almeida transpira virtuosismo clássico na sua pintura do Alentejo em gradações cortantes de cinza, branco e preto. Quando se acrescenta a tal estética a severidade prototeatral da mise-en-scène do cineasta português, temos um cocktail estilístico que nos pode inicialmente lembrar Ford, mas deixa na língua o sabor de Bresson.

Raiva critica
Um filme com ar de John Ford e sabor a Robert Bresson.

Tais comparações têm os seus limites, mas ajudam a aludir à atmosfera bem particular que Tréfaut e companhia conjuraram para esta tragédia alentejana. O filme é uma adaptação de “Seara de Vento”, romance do jornalista Manuel da Fonseca que foi originalmente publicado nos anos 50. Por sua vez, o livro foi baseado numa história verídica que o Estado Novo tentou apagar. Aconteceu em 1933, quando um camponês assassinou um proprietário e seu filho e depois se escondeu no casebre que partilhava com a família. A luta foi grande e teve até de ser chamado o exército que fez chover chumbo por cima do esconderijo desse homem que meses antes tinha sido preso por furto de cereais.

As autoridades triunfaram sobre o criminoso, mas, para espanto de muitos, seu funeral não foi o de um pária com sangue nas mãos, mas sim um concorrido evento de homenagem a um herói local. Daí floresceu o mito e o ideal romântico de um homem da terra a desafiar as hierarquias de poder quase feudalistas de um Portugal retrógrado e injusto. O livro perdurou tal noção, mas o filme de Tréfaut vem complicar esses idealismos. Não é que o cineasta negue ou contrarie a mensagem mitificada pelo legado popular da história. Simplesmente apresenta tais conceitos da forma mais seca imaginável.

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À já mencionada severidade formal, junta-se um registo tonal que despe o enredo do seu potencial melodramático e deixa para trás uma documentação de sofrimento e miséria nunca contaminado pelos excessos do sensacionalismo sentimental. Considerando alguma da imagética da fita e o contexto histórico em que “Seara de Vento” se insere, seria fácil ver aqui uma manifestação de neorrealismo e até de miserabilismo narrativo. Contudo, essa conclusão é redutora, pois ignora o modo como Tréfaut, não obstante o seu uso de localizações reais e alguns atores amadores, tende a construir os seus projetos num gesto de distanciamento do real.

A depuração que o cineasta faz da tragédia não é uma procura pelo verismo cru, mas sim uma síntese dramática das ideias principais da narrativa através do mecanismo antinaturalista. O preto-e-branco é manifestação disso mesmo e a cuidadosa disposição do elenco nos tableaux de Tréfaut também. De certo modo, o realizador tira desta tragédia o artifício do realismo, encontrando aí algo meio primitivo e primordial, como se víssemos uma lenda antiga nascida da terra, do sangue e do suor de gerações ancestrais que muito precedem os eventos históricos.

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Tréfaut rejeita o artifício do realismo.

Este é um filme que nos fala de fome, mas não se presume capaz de nos imergir na real experiência dessa dor através de gramáticas audiovisuais. Por isso, limita-se a dramatizar sem aparato e com austeridade solene a história de quem anseia ardentemente pelo sustento de um bocado de pão seco. Há dignidade em tal escolha e até é possível que assim se diga mais sobre a pobreza do que com escolhas mais aparatosas. Não é um discurso que apele a uma experiência sensorial ou fácil gratificação do espectador. Por outro lado, é um discurso cinematográfico que exige da audiência uma apreciação cerebral, mas não por isso menos visceral dos seus temas, sua história e seus sôfregos protagonistas.

Por outras palavras, “Raiva” não é um filme fácil e não convida, nem mesmo o público cinéfilo, a tirar prazer da sua construção. A história é triste e violenta, tão áspera e anti sentimental como a matriarca amarga a que Isabel Ruth dá vida, com aquele que é o desempenho mais extraordinário num filme recheado de admiráveis esforços por parte do elenco. Com isso dito, tal como o espectador não consegue resistir ao magnetismo cáustico de Ruth, também não ficará indiferente ao apelo de “Raiva”. O título é bem escolhido, pois Tréfaut tipifica bem essa emoção nesta obra, mesmo que não o faça de modo vistoso ou explosivo. Esta não é a raiva de quem grita e vocifera o seu descontentamento. É a raiva de quem passa uma vida a suportar injustiças de boca fechada, até ao dia em que todas as células do seu ser vibram com a fúria todo-poderosa que tanto torna homens em monstros como os transforma em mitos.

Raiva, em análise
raiva

Movie title: Raiva

Date published: 2018-10-31

Director(s): Sérgio Tréfaut

Actor(s): Hugo Bentes, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Adriano luz, Lia Gama, Sergi López, Catarina Wallenstein, Rogério Samora, Caio Cesar, Herman José, Catarina Santos

Genre: Drama, 2018, 84 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO

“Raiva” é uma espiral de desgraça, miséria e injustiça social num Alentejo de outros tempos que mais parece um reino sob regime feudal. Entre detalhes precisos como o uso do capote alentejano somente pelas classes altas e a teatralidade austera da mise-en-scène, este é um exercício em antinaturalismo cinematográfico como veículo para a dramatização do desespero humano. Tréfaut prova aqui que o seu génio não é em nada dependente do registo documental que caracteriza a maior parte dos seus trabalhos.

O MELHOR: A fotografia monocromática.

O PIOR: Ocasionalmente, o contraste entre atores profissionais e não-profissionais é notório de um modo mais prejudicial que benéfico. Também a escolha de caras bem famosas do público português para cameos só serve de distração.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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