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Recreio, em análise

Recreio, o filme escolhido para representar a Bélgica na categoria de Melhor Filme Internacional na mais recente cerimónia dos Óscars, chega agora a Portugal.

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Era uma vez dois irmãos, um rapaz e uma rapariga. Ela mais nova do que ele, mas não muito mais. Ele mais imaturo do que ela; de facto, somos levados a pensar que assim seja face ao comportamento pueril e pseudo-viril que adopta com o intuito de proteger a irmã, nomeadamente no recreio da escola que ambos frequentam, sem que isso no entanto o livre de complicações com os colegas que nesse mesmo espaço sobre ele exercem uma constante e pouco racional pressão, a mais pura e dura manifestação de um bullying rasca e canalha. Não sabemos muito sobre o enquadramento familiar daqueles miúdos, na verdade o filme nunca sai ou raras vezes sai do espaço cercado de uma escola. Sabemos apenas que ambos são acompanhados pelo pai (Karim Leklou), que os vai levar e buscar, um pai ainda jovem que naturalmente se preocupa em saber se o dia lhes correu bem, mesmo quando os sinais no rosto dos filhos lhe dizem o contrário. Nunca veremos a mãe, e deste modo a realizadora e argumentista propõe, com esta ausência intencional, que o espectador possa ir congeminando uma série de especulações, que vão desde o pai estar separado ou divorciado da mãe, ou então desempregado, como algumas colegas da rapariga afirmam com ar sarcástico e risinhos algo perversos (sim, as criancinhas podem ser cruéis), as mesmas que despejam frases feitas sobre os desempregados serem pessoas que não querem fazer nada.

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Mas o que realmente importa e faz a diferença no filme, produção belga intitulada UN MONDE (RECREIO), 2021, primeira longa-metragem de Laura Wandel, são os muito jovens actores que assumem os papéis protagonistas, quer o expressivo Gunter Duret no papel de Abel, quer sobretudo a maravilhosa Maya Vanderbeque no papel de Nora, sem sombra de dúvida a mais significativa e poderosa interpretação que podemos ver nesta obra onde as restantes personagens infantis e juvenis, assim como os adultos que actuam num plano secundário, apesar de indispensável para o fluir narrativo, cumprem exemplarmente a missão que lhes foi confiada. No seu conjunto, o elenco escolhido consegue sem grande esforço dar corpo e alma a uma ficção delineada pela ideia de se encontrarem num mundo fechado sobre si mesmo, um complexo em que os caminhos cruzados de um estabelecimento escolar, nas suas diferentes componentes, vão das aulas propriamente ditas ao refeitório, acabando no recreio, sendo neste último espaço, que deveria ser palco de momentos de descontracção e lazer, que se desencadeiam algumas das mais difíceis contradições e conflitos, muitas vezes, situações autenticamente “caídas do céu” por razões que a razão desconhece. Por exemplo, Nora vê o irmão ser violentamente agredido e, ao contrário do que se poderia esperar, procura intervir para o salvar das garras de um punhado de imbecis que se julgam muito poderosos por exercer actos de violência sobre os colegas. Mas Abel, que aguenta as agressões sem reagir, quer que a irmã se vá embora e não quer que ela repita o gesto de o ir proteger, nem sequer que denuncie o que acabara de presenciar. Escrevi que não era expectável a atitude de Nora, pelo menos da maneira decidida com que assume a sua investida junto dos rufias, porque ela fora nas primeiras sequências alvo de um foco especial que incidia sobre a sua alegada “fragilidade” feminina, quando as lágrimas que lhe vimos cair pelo rosto nos pareciam indicar o estatuto de rapariguinha, meio frágil, meio perdida, pela natural ausência do progenitor que ficara na porta da escola. Mas pouco depois esta mesma personagem será a que melhor vai superar a separação, a que melhor se vai enquadrar na escola e que melhor vai superar os problemas inerentes ao processo de integração. Não por acaso, o filme foi realizado por uma mulher e isso, digam o que disserem, provavelmente conta. Desde o início, aliás, será muito interessante o modo como Laura Wandel nos introduz nesse mundo da escola primária. Não faz o que seria rotineiro, ou seja, plano geral do recinto, os miúdos a correr de um lado para o outro, plano de conjunto de um ou outro grupo. Preferiu, ao longo dos adequados setenta e dois minutos do filme, concentrar a atenção no rosto de Nora. E a actriz não profissional que aqui se estreia aguenta de forma admirável a presença da objectiva. Não estamos no modelo “olha para aqui, vai até acolá, e depois logo se vê na montagem”. Não, Maya Vanderbeque foi bem dirigida e representa mesmo. São excelentes as variações do seu rosto, dando a perceber sentimentos que mesmo alguns actores veteranos nem sempre conseguem alcançar com idêntica eficácia. Poucas vezes se abandona a escala que corresponde ao plano próximo e grande plano, e a Direcção de Fotografia de Frédéric de Noirhomme, usa a profundidade de campo apenas necessária para nos dar Nora e as atmosferas dos décors circundantes. Por este motivo há quem veja nesta obra um “mergulho imersivo” no mundo da escola ao nível do olhar das crianças. Muitas vezes ao longo do visionamento lembrei-me de certas bandas desenhadas, como os PEANUTS, salvaguardadas as devidas distâncias, claro, porque não estamos propriamente no domínio da comédia de cambiantes subtis, embora possa sobressair aqui e além alguma subtileza no humor inerente a situações que nos deixam igualmente perplexos, em especial quando a inclusão no grupo se faz através de brincadeiras próprias da idade de Nora e Abel e de rituais que, mesmo nos dias electrónicos que correm, parecem persistir diante da ditadura dos ecrãs para os quais converge a atenção obsessiva dos mais novos.

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No final, porque no filme não há lugar para a filosofia castradora dos bons e dos maus, Abel, vítima sistemática de bullying, passa para o lado dos carrascos com a desculpa mais filha da mãe que podia inventar, ou seja, se não for ele a dar nos colegas, será ele a receber. Dito de outro modo, assim se perpetua um sistema de valores que não fica nada bem numa escola de um país que alberga em Bruxelas o democrático Parlamento Europeu. Nada mais digo e deixo, para quem quiser ver, o modo como Nora, imbuída de uma inegável força redentora, dará ao irmão e aos espectadores, através de pequenos sinais e num simples e derradeiro gesto, a esperança de acreditarmos que não é impossível alcançar um ponto de equilíbrio num mundo mais justo e solidário.
Em resumo, RECREIO constitui uma bela surpresa nesta cascata de estreias de Verão, algumas oriundas de muitas e diversificadas nacionalidades, cujas propostas fílmicas são por vezes bem mais interessantes dos que as da maioria dos blockbusters destinados a preencher o cartaz da rotineira oferta do período estival.

Recreio, em análise
Recreio

Movie title: Un monde

Director(s): Laura Wandel

Actor(s): Maya Vanderbeque, Günter Duret, Lena Girard Voss

Genre: Drama, 2021, 72min

  • João Garção Borges - 75
  • José Vieira Mendes - 75
75

Conclusão:

PRÓS: Muito da classificação vai para a notável interpretação de uma muito jovem actriz, Maya Vanderbeque, mas igualmente para a estrutura fílmica, sobretudo a montagem e a Direcção de Fotografia, que nos dão uma indispensável coerência das matérias ficcionais do primeiro ao derradeiro plano de UN MONDE (RECREIO).
Foi a longa-metragem seleccionada pela Bélgica para representar o país na corrida aos Óscares, na categoria de Melhor Filme Internacional.
Recebeu em 2021, no Festival de Cannes, o Prémio FIPRESCI (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica).
Na Bélgica, recebeu um prémio similar, o PRIX ANDRÉS-CAVENS, atribuído pelos críticos de cinema baseados em Bruxelas.

CONTRA: Nada que impeça o usufruto de uma obra, simultaneamente sensível e contundente, que nos revela um universo infantil e juvenil muito longe dos lugares-comuns de certas produções que olham para a pré-adolescência como os melhores anos da vida das crianças. Nem sempre as coisas se podem assim definir, nem mesmo na chamada Europa civilizada.

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