Suzannah Mirghani, Qatar/Sudan 2021 © Suzannah Mirghani

Crónicas de Oberhausen | Internationale Kurzfilmtage (Parte 1)

A Alemanha abre portas a mais uma edição do Internationale Kurzfilmtage Oberhausen, com novas curtas-metragens para desfrutar!

Fundado em 1954, o FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURTAS-METRAGENS DE OBERHAUSEN (Alemanha), apresentou-se em 2022 com um modelo híbrido de organização, uma componente online e outra presencial que, a manter-se nos próximos anos, irá ampliar de forma muito consistente a exposição dentro e fora das fronteiras alemãs do seu núcleo duro de programação, nomeadamente da competição nacional e internacional. Esta inovação recolheu a experiência adquirida durante os piores dias da pandemia e, numa altura em que muitos recuaram ou cancelaram, Oberhausen resistiu dando as voltas ao COVID, sendo um dos primeiros a ir online, nunca interrompendo o fluxo das iniciativas, dos encontros, dos debates e, obviamente, da fruição geral dos filmes que desde há muito fazem incidir a atenção no mais antigo festival de curtas do mundo e um dos pioneiros da valorização sistemática do cinema de vanguarda. Para além do mais, o festival alberga igualmente o maior mercado especializado em curtas da Alemanha, e a sua importância estratégica para obras de vincada orientação artística e autoral rivaliza com outros mercados de maior dimensão mas não necessariamente mais decisivos para quem compra ou programa, como o mercado de Clermont-Ferrand. Por esta razão, como as andorinhas no início da Primavera, ano após ano lá rumo a uma cidade que, de um ponto de vista pessoal, não apresenta grandes motivos de interesse a não ser o certame em causa. Para melhor a situar a quem não saiba onde fica, digamos que as duas grandes e muito mais desejadas cidades são Dusseldórfia e Munique. Dito isto, aqui fica a minha opinião sobre o que este ano nos foi dado ver. Não fiz a contabilidade geral mas sim a parcelar, fruto de uma selecção rigorosa, como faria se estivesse a programar para o meu ONDA CURTA.

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©Internationale Kurzfilmtage Oberhausen

Passemos então a uma abordagem crítica da primeira metade da COMPETIÇÃO INTERNACIONAL:

DAYS OF THE NEW, 2021, Keith Deligero (Filipinas): Fotografia a preto e branco para acentuar a atmosfera de filme policial e definir por contrastes de luz e sombra as silhuetas urbanas de uma metrópole moderna assaltada por um conjunto de episódios macabros entre o bizarro (penetrando a certa altura no surreal quando surge a imagem de uma mulher cortada ao meio mas bem viva) e o simplesmente difícil de enquadrar numa lógica narrativa que aponta aqui e além para situações plausíveis mas que a certa altura, pensando melhor, deixam de o ser. Na verdade, nos caminhos percorridos pelas personagens que vamos encontrando, sobressai uma dupla de polícias que investiga a hipotética pista de um crime, alegadamente inspirado pela pintura de um artista pouco convencional, sendo esta missão a porta de entrada sem saída para uma realidade que não parece real, mas enfeitiçada pelo domínio do onírico. Um exercício divertido de desconstrução fílmica, com a eficácia necessária para ser credível nos seus escassos 18 minutos. Diz a sinopse deste filme em jeito de síntese, entre outras palavras mais ou menos de circunstância, “Bem-Vindo ao Novo Mundo depois da pandemia”. Surreal, mas interessante. Fica na memória de quem o viu.

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Entretanto, FERIADO, 2021, de Azucena Losana (Argentina), usa imagens urbanas em sobressalto intermitente misturando o concreto com o orgânico para, sobre uma espécie de espectro electro-magnético, sobrepor uma mensagem visualmente forte conjugada com uma incisiva banda sonora onde se ouve uma voz brasileira ler com vigor militante o poema “E se Jesus fosse Preto?”, escrito por Bruno Negrão. Não se pense que há subversão pela subversão, antes um claro desejo de humanizar a figura habitualmente divinizada do filho de Deus, mas dizendo as coisas como elas são, directas e sem rodriguinhos, e deixando no ar a ideia de que hoje Jesus passaria um mau bocado, precisamente, se fosse preto e fosse confrontado com o racismo endémico que permanece vivo em muitas sociedades e muitos países.

Blink in the Desert
Shinobu Soejima, Japan 2021
© Shinobu Soejima

Já que falamos de quem sabe dar sentido ao que diz, VIRTUAL VOICE, 2021, de Suzannah Mirghani (Qatar/Sudão), pega numa boneca estilo Barbie e faz-nos o retrato de uma mulher que assim a usa como avatar da sua própria personalidade fazendo-a percorrer os algoritmos das redes sociais. Iremos ver como se indigna com as causas do momento numa militância que acaba por resultar num activismo superficial e sobretudo emocional, sem nunca colocar em risco a sua zona de conforto. Neste caso o da classe média bem instalada nos apartamentos mais altos de um edifício de luxo com vista para aquilo que passa por progresso, uma grande área comercial, não obstante as guerras sociais que de vez em quando explodem lá em baixo, por detrás do vidro protector, a outra realidade onde as pessoas de carne e osso vivem a sua vida material. Filme cáustico e divertido sobre a vacuidade de certas vozes virtuais, saídas da boca de gente de plástico.

No campo do experimental puro, não podemos esquecer que o Festival de Oberhausen constitui uma das principais plataformas por onde passa algum do mais surpreendente e radical cinema de vanguarda. TENDER, 2021, de Lucy Latimer (Canadá), usa parcelas da nota de dólar canadiano, que imprime por contacto em película de 16mm, para a seguir e através do movimento e sem som, só imagem, nos dar a ver o que podia ser um quadro futurista em movimento. Uma animação, ou melhor, uma ilusão animada pelo movimento da projecção fílmica. Podia ser exposto num museu numa continuidade visual obtida pelo efeito de loop? Quem sabe?

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No magnífico LA DISTANCIA DEL TIEMPO, 2021, de Carlos Ormeño Palma (Peru), vemos ao início um rapaz a procurar agarrar um passarinho. Estava ali, apareceu voando de algum lado, fugiu da gaiola? Não sabemos, nem precisamos de saber, porque a ave não se deixa enganar com as manobras para o apanhar, e esse momento de simplicidade existencial vale mais do que mil perguntas. Finalmente, com jeito e paciência, o jovem lá consegue o que parecia quase impossível e, pouco depois, iremos vê-lo junto de um amigo que está no hospital com aquilo que parece ser, pela debilitada condição física e cabeça rapada do acamado, provavelmente SIDA. São amantes, são simplesmente amigos? Na verdade, mais uma vez isso não importa porque a força das imagens e dos sons ultrapassa as nossas sucessivas interrogações. De regresso a casa, vemos que o passarinho está agora numa gaiola. Vemos as grades e pensamos na vida daqueles dois jovens adultos e ainda na liberdade e no desejo de mudar as coisas, nas formas de contornar a fatalidade e o destino. O rapaz leva o amigo para o exterior do hospital e ele não se aguenta em pé e cai. Não sabemos ao certo, mas parece óbvio que não resistiu, por aquela ou outra razão, e morreu. O rapaz abre a gaiola, pega no passarinho e poisa as frágeis patas do animal agora livre num pedaço de madeira junto a uma janela que dá para o exterior banhado por uma luz filtrada mas intensa, típica de Lima, capital do Peru. No final, vemos uma procissão em que no meio da multidão se ouve uma voz que diz, mais palavra menos palavra: “Senhor dos Milagres, quero agradecer-te e quero que nos ouças. Cuida de nós nesta vida e na próxima. Dá-nos a salvação e a vida eterna. Sabemos que as provas a que nos submetes são uma forma de seguirmos em frente”. Mesmo para quem não siga qualquer religião, esta oração faz o máximo sentido e fecha com chave de ouro uma obra muito bem fotografada, montada, sonorizada e interpretada. Pontuação alta. Na nomenclatura MHD dou-lhe um 80.

The Dress
Ken Kobland and EJay Sims, USA 2021
© Ken Kobland/EJay Sims
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Pelo contrário, MAX ET LES ÉTRANGES, 2021, de Nathan Clement (Suíça), podia ser um 70 mas fica-se pelos 50 basicamente porque esta viagem de um rapaz pelos subterrâneos da realidade em busca da sua identidade possui energia q. b. para fazer concorrência ao coelhinho daquela marca de pilhas que não vou aqui mencionar, muitas ideias e algumas boas do ponto de vista plástico, uma boa equipa, com especial destaque para o montador, mas no final das contas o que se revela não vai muito mais além da chamada acumulação primitiva de capital criativo, mas sem plano de investimentos que o eleve a obra cinematograficamente sustentável. É pena, mas acontece muito frequentemente nas curtas e não poucas vezes nas longas.

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