Regresso a Ítaca, em análise

Em Regresso a Ítaca, o realizador Laurent Cantet observa uma festa num terraço de Havana, onde um grupo de amigos se reencontra depois de um deles ter estado 16 anos em exílio.

regresso a Ítaca Laurent Cantet

É muito comum ler-se numa crítica de cinema que um particular filme é demasiado teatral ou que se assemelha a uma peça filmada. Tais descrições são sempre empregues num sentido pejorativo e demarcam, mais do que qualquer apreciação cinematográfica, uma imensa ignorância sobre teatro. Mas afinal de que teatro falam essas análises? Certamente não serão os espetáculos que têm marcado a evolução do teatro moderno já desde os anos 50 do século passado. Não, o que essa descrição vê como teatro é somente o conceito mais clássico do termo, uma visão quase aristotélica de unidade de espaço, tempo e ação, onde a palavra é rainha.

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Como tal, aqui não será empregue essa crítica a Regresso a Ítaca, um filme que já por muitos foi acusado de ser pouco mais que uma peça de teatro filmada num terraço de Havana. No entanto, isso não faz deste projeto algo perfeito ou desprovido de defeitos. Pelo contrário, este filme realmente demonstra o tipo de displicência visual normalmente associada a essa errónea crítica, não tanto pela sua natureza verbosa ou os seus limites de elenco, espaciais e temporais, mas sim pelo registo de naturalismo pueril a que Laurent Cantet, o seu realizador, se rendeu.

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Antes de nos debruçarmos sobre a falta de dinamismo cinemático do filme, convém esclarecermos afinal do que é que trata Regresso a Ítaca. A narrativa é quase totalmente restrita a esse já referido terraço na capital de Cuba e foca-se num grupo de cinco amigos durante uma tarde, noite e alvorada. Amadeo (Néstor Jiménez) é o Ulisses que regressa a casa depois de uma longa ausência, tendo estado 16 anos exilado em Madrid depois de ter saído de Cuba durante o apogeu da catastrófica crise que assolou o país a seguir à queda da União Soviética. Aqui ele é acompanhado por um grupo dos seus amigos mais próximos, Tania (Isabel Santos), Rafa (Fernando Hechavarria), Aldo (Pedro Julio Díaz Ferran) e Eddy (Jorge Perugorría). Todos eles foram em tempos fervorosos jovens revolucionários, estando alguns dos membros envolvidos no mundo das artes, mas a realidade presente é muito distinta do passado e não é somente amistosa celebração que espera Amadeo aquando deste retorno.

Mesmo antes de Eddy chegar a festa, já Tania começa a fazer perguntas desconfortáveis ao convidado de honra. As suas perguntas sobre a atitude de Amadeo, que não se dignou a voltar a Cuba durante o doloroso definhar e eventual morte da sua esposa devido ao cancro, não são o único interrogatório a amargar o que deveria ser uma festa. Rapidamente, as cicatrizes do passado são levantadas e antigos ressentimentos ganham nova intensidade à medida que se vai construindo um retrato da vida deste grupo de amigos e do seu país. O texto que Cantet escreveu em colaboração com o autor cubano Leonardo Padura demonstra o usual domínio que o francês tem dos ritmos naturalistas do diálogo e da interação humana, mas padece de uma verbosidade um pouco didática demais. Depois de Foxfire ter apresentado semelhantes problemas, começa-se a impor a questão se este realizador, que até já venceu a Palme D’Or em 2008, não será um pouco prejudicado pela tentativa de trabalhar em idiomas que não a sua língua materna.

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É claro que não é no argumento que estão os aspetos mais questionáveis de Regresso a Ítaca. Pelo contrário, o elenco e os diálogos são os pontos fortes do filme enquanto a sua execução formal é o indisputável elo mais fraco. O diretor de fotografia Diego Dussuel captura o sol do entardecer e as suaves tonalidades da manhã com grande virtuosismo, mas a insistência de Cantet em filmar quase todos os diálogos somente com planos médios acaba por se revelar como um problema fraturante. Tentar estabelecer o mundo exterior a partir da acumulação de informação dada pelas reminiscências das personagens é uma ideia de valor, mas situar tal construção num palco rodeado pela vida urbana de Havana faz com que a dependência da palavra e do plano médio, longe de serem uma escolha inteligente, parecem apenas marcas de casmurrice diretorial ou então uma triste falta de atenção às possibilidades visuais do cenário. A sonoplastia é algo ainda mais infeliz com os sons de Havana a serem calados em favor da claridade dos atores em cena, e apenas alguns momentos pontuais em que realmente sentimos que a ação está a ocorrer no meio da maior cidade de Cuba. Até a matança de um porco e uma festa paralela ao centro da ação parece inaudível a não ser quando as personagens a observam ou comentam.

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Os limites formais de Regresso a Ítaca são numerosos e difíceis de ignorar, mas isso não invalida o valor de algum do seu texto, mesmo que este esteja também longe de ser perfeito. Com a clara exceção dos seus momentos finais, o modo como Cantet nos introduz ao mundo destas personagens e suas psicologias é digno de admiração. Saímos do cinema com a sensação de conhecermos estas pessoas de modo íntimo, como se a tela tivesse sido uma janela aberta para as suas existências dolorosas que outrora vibraram com o espírito revolucionário antes de serem cansados e derrotados pelo medo humano, pela opressão do seu governo e pelo cansaço que vem com o passar do tempo. Aliás, na sua representação da amizade de pessoas na casa dos 50, uma faixa etária muito ignorada pelo cinema, e da vida mundana numa sociedade raramente mostrada com tanta franqueza, Regresso a Ítaca acaba por se evidenciar como uma obra de considerável importância e relevância, especialmente se considerarmos os mais recentes desenvolvimentos políticos e económicos de Cuba.

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O MELHOR: Todos os atores se mostram capazes de suportar o registo naturalista e cheio de texto que Cantet privilegia, mas Isabel Santos é de especial destaque. Quando o tom do filme ainda é leve e risonho, ela tem de ser a nota de amargura dissonante, e quando já tudo se virou para a acusação agressiva, é ela que se mostra como a mais vulnerável do grupo. Uma conversa entre ela e Amadeo sobre os filhos da oftalmologista é uma contida explosão de anos de desespero acumulado.

O PIOR: Para um filme que investe tanta energia na criação de personalidades multifacetadas e em construir um retrato complexo da sociedade cubana, a resolução final da história de Amadeo é um pouco desapontante. Ele é desculpabilizado na totalidade e as consequências das suas ações nos seus amigos são varridas para debaixo do tapete de um modo demasiado despachado para ser dramaticamente orgânico.


 

Título Original: Retour à Ithaque
Realizador:  Laurent Cantet
Elenco: Néstor Jiménez, Isabel Santos, Fernando Hechavarria, Pedro Julio Díaz Ferran, Jorge Perugorría
Midas Filmes | Drama | 2014 | 95 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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One thought on “Regresso a Ítaca, em análise

  • Com toda a certeza que não é uma superprodução. Antes pelo contrário. Filme de orçamento baixíssimo. Sendo eu um leigo em matéria duma visão mais tècnica do filme, e pronunciando-me como mero espectador, acho o filme enquadrado nos filmes tipo “Cineclube” Realizar um filme, passado num terraço, e só no terraço, devo dizer-vos que gostei de o ver. Leitura fácil, bons actores, argumento realista, enfim, eu gostei do filme.

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