"O Rei Leão" / "Jungle Emperor Leo" | © Disney/© Tezuka Productions

Simba vs Kimba | O Rei Leão é plágio?

O Rei Leão”, que está de volta aos cinemas numa nova versão hiperrealista, é um dos maiores clássicos da Disney. Contudo, desde a sua estreia que o filme tem estado no centro de uma polémica. Afinal, será que o filme da Disney é fruto de plágio?

Osamu Tezuka é uma das figuras mais importantes na História da Animação japonesa e, por consequência, na História da Animação de forma geral. Muitos entendidos chamam-lhe o “padrinho do manga” ou mesmo o “pai do anime”, sendo que foi a adaptação televisiva da sua magnum opus, “Astro Boy” que definiu um modelo comercial e artístico para o anime e despoletou uma indústria que dura até aos dias de hoje. Por isso mesmo, o artista veio a conquistar mais algumas alcunhas e títulos chamativos, incluindo o de “Walt Disney do Japão”, algo que lhe deve ter agradado, considerando que Osamu Tezuka tinha sempre expressado grande respeito e admiração pela Disney e seus clássicos animados.

Nos anos 50, o amor pelos filmes da Disney foi somente exacerbado, quando a companhia americana o contratou para adaptar “Bambi” a um manga, de modo a obter mais fãs no mercado japonês. Em 1964, Tezuka chegou mesmo a conhecer o seu ídolo e o próprio Walt Disney expressou grande respeito pelo trabalho do japonês, tendo até dito que, um dia, gostaria de produzir algo como o “Astro Boy” de Tezuka. Esse menino robótico e suas aventuras, publicadas nos anos 50 e animadas, pela primeira vez, em 1963, é a criação mais conhecida de Tezuka, tanto dentro como fora do Japão, tanto pelo seu apelo popular como pela sua importância histórica.

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“Jungle Emperor Leo” | © Tezuka Productions

Contudo, entre o público nipónico, há outra criação de Tezuka cuja popularidade é verdadeiramente inescapável. Leo, ou Kimba na versão anglófona, é o protagonista do manga e anime “Kimba, o Leão Branco”, um leão que reina na selva e procura trazer harmonia a todos os seres seus súbditos. A série animada estreada em 1965 e produzida pela Fuji Television foca-se principalmente nas aventuras do leão enquanto uma cria. O manga representa uma história muito mais longa, chegando à idade adulta deste imperador leonino e à educação da próxima geração de leões destinados a reinar. Essa narrativa mais matura só viria a ser animada após a morte de Tezuka, em 1989, quase na forma de uma homenagem ao legado do lendário mangaka.

Entretanto, enquanto um estúdio enlutado começava a produção de “Jungle Emperor Leo” no Japão, do outro lado do Pacífico, a Disney Animations preparava-se para entrar na fase mais áurea da sua História graças ao sucesso de uma sereia apaixonada. Mesmo antes de “A Pequena Sereia” estrear e dar início à Renascença Disney, já uma série de outros projetos tinham sido postos em desenvolvimento pela nova administração que havia chegado à Disney anos antes, durante a caótica produção de “Taran e o Caldeirão Mágico”. Um desses projetos iria ser uma história original centrada em personagens animais, uma espécie de “Bambi” africano, com leões ao invés de veados.

Como é evidente, quando um filme é feito pelo maior estúdio de animação do mundo e financiado por uma das grandes potências de Hollywood, a sua produção acabará por ser mais rápida do que a de um modesto projeto japonês. Assim foi e, em 1994, três anos antes de “Jungle Emperor Leo” estar completo, “O Rei Leão” chegou aos cinemas. A Disney, num gesto de flagrante revisionismo histórico, publicitou o épico animado como a sua primeira narrativa original (“A Dama e o Vagabundo” não existe, aparentemente) e, rapidamente, o filme alcançou o título de filme de animação mais lucrativo de sempre, foi aclamado pela crítica, ganhou vários prémios, incluindo dois Óscares, e até foi adaptado à Broadway.

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“O Rei Leão” | © Disney

Para a maior parte do mundo, não havia nada de estranho neste fenómeno, mas, no Japão, a história foi bem diferente. Mesmo antes do filme estrear, quando só havia material promocional divulgado, muitos foram aqueles que mostraram surpresa face a “O Rei Leão” e suas semelhanças para com a obra de Osamu Tezuka. Há que se entender que há merchandise com a imagem de Kimba em todo o lado no Japão e até uma equipa de basebol usa o pequeno leão branco como sua mascote. Assim sendo, num abrir e fechar de olhos, o maior sucesso da Disney ficou emaranhado numa controvérsia internacional e acusações de plágio.

Com o passar dos anos e a acumulação de entrevistas com animadores e divulgação de storyboards e arte concetual para “O Rei Leão”, as semelhanças entre as duas obras vão-se tornando cada vez mais difíceis de negar. Muita da iconografia de Kimba está presente na obra da Disney, incluindo o início da história com o nascer do sol na forma de uma semiesfera de luz a pintar de vermelho uma paisagem africana com árvores em silhueta. Até as personagens são semelhantes como, por exemplo, interesses românticos que os leões conheceram na infância, um babuíno místico, um javali amigável e um vilão avermelhado com uma cicatriz no olho esquerdo que emprega hienas nos seus esquemas maldosos.

Também há composições que são estonteantemente semelhantes, nomeadamente na cena da morte de Mufasa, na introdução de Timon e Pumba, a aparição do pai de Simba nos céus e na luta entre Simba e Scar. Tais semelhanças são particularmente visíveis em storyboards e, em arte concetual, até podemos encontrar imagens de Simba como um leão branco extremamente reminiscente de Kimba. Contudo, desde 1994 que a Disney afirma que não há nenhuma ligação entre a animação japonesa e “O Rei Leão”.  Os próprios realizadores negaram qualquer tipo de inspiração ou plágio e afirmaram mesmo que não sabiam da existência de Kimba. A Disney veio mesmo dizer que ninguém na equipa conhecia o anime.

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Perdoem-nos a frontalidade, mas a Disney provavelmente está a mentir. Um dos correalizadores de “O Rei Leão”, Roger Allers, passou anos, durante a década de 80, a trabalhar como um animador no Japão, sendo que é muito pouco provável que ele não conhecesse o trabalho do pai da animação japonesa. Alguns animadores do projeto têm contradito as palavras de ordem da companhia, apesar de continuarem a negar o plágio. Numa entrevista dada ao Huffington Post, por exemplo, Tom Sito afirmou que conhecia Kimba e que outros animadores provavelmente também, considerando que a série tinha passado na televisão americana durante a sua infância. O mesmo aconteceu com Matthew Broderick, um fã de Kimba e a voz adulta de Simba na versão original de “O Rei Leão”.

O realizador Rob Minkoff admitiu, em 1994, que é possível que Tezuka tenha sido uma inspiração antes de ele entrar no projeto. Mark Kausler, em 1997, admitiu que tinha visto “Kimba, o Leão Branco” quando era pequeno. Sadao Miyamoto, um animador de origem nipónica que trabalhou no filme da Disney, disse que se espantou com as semelhanças entre os storyboards de “O Rei Leão” e as histórias de Kimba. O mais caricato de tudo é que, em 1993, numa entrevista televisiva, Roy Disney enganou-se e chamou ao protagonista de “O Rei Leão” Kimba ao invés de Simba. O momento ganhou tamanha infâmia que até “Os Simpsons” fizeram referência a isso num episódio emitido em 1995.

Pode não ter sido intencional ou deliberado pela equipa de “O Rei Leão”, mas pensamos que houve uma clara influência tirada do trabalho de Osamu Tezuka. Essa influência, contudo, restringiu-se a aspetos visuais, sendo que, em termos narrativos, os dois projetos são muito distintos. “Kimba, O Leão Branco” é quase uma subversão dos temas explorados em “Bambi” e o seu conflito principal é a relação entre o ser humano e a natureza. “O Rei Leão”, pelo contrário, é uma espécie de versão episódica de “Hamlet” com um toque de folclore africano metido pelo meio. O que queremos com isto dizer é que não acreditamos que “O Rei Leão” tenha sido o fruto de plágio.

Tirar inspiração de outra obra e fazer referência às suas imagens não é plágio, especialmente quando essa iconografia é apresentada num contexto completamente diferente. O problema é a reação da Disney, suas insanas negações e ataques ao próprio legado de Osamu Tezuka. Em 1997, aquando da estreia de “Jungle Emperor Leo” no Japão, um festival de cinema em Toronto decidiu exibir a obra japonesa e foram logo alvo de ações judiciais por parte da Disney. De repente, era como se o filme japonês, por ter estreado três anos depois do americano, fosse ele mesmo fruto de plágio ilegal. Provavelmente amedrontados pelo poder da Disney, nunca nenhuma distribuidora americana comprou os direitos do filme japonês.

Várias respostas contraditórias têm vindo a sair da Tezuka Productions acerca desta controvérsia. Yoshihiro Shimuzo disse que se sentia desconfortável com as semelhanças, mas que os estúdios não tinham meios para construírem um caso contra a Disney. Takayuki Matsutani, pelo contrário, nega qualquer problema entre as empresas e disse mesmo que Osamu Tazuka teria ficado feliz com a mera ideia de um dos seus trabalhos poder ter sido uma leve inspiração para a Disney. A parte mais triste desta história é que isso é muito provavelmente verdade.

O Rei Leão
“O Rei Leão” | © Disney

Tezuka amava a Disney e admitiu que “Bambi” tinha vindo a inspirá-lo durante toda a carreira. A equipa de “O Rei Leão”, talvez por pressão administrativa, nunca ofereceu a Tezuka o mesmo respeito. De certo modo, é compreensível. Afinal, a Disney tinha promovido tanto “O Rei Leão” pela sua qualidade original que admitir inspiração num anime japonês podia ter parecido hipócrita. É claro que o cúmulo da hipocrisia é uma empresa como a Disney, que já por duas vezes levou à mudança de leis de direitos de autor para não perder copyrights sobre Mickey Mouse, jurar a pés juntos que não existem semelhanças entre estas duas propriedades.

Seria fácil imaginar a Disney a confirmar a inspiração e a comprar os direitos de distribuição para “Jungle Emperor Leo”. Podiam tê-lo promovido como uma das inspirações para o seu maior triunfo e até ter ganho uma pequena fortuna com isso. Mas não o fizeram, preferiram negar e acabaram por criar um escândalo que dura até aos dias de hoje e que nunca teria existido se alguém do estúdio tivesse logo admitido a semelhança entre as duas obras. Enfim, nada disto prejudicou a Disney que está mais poderosa que nunca, que acabou de estrear um remake de “O Rei Leão”, por isso, pelo que lhes compete, deduzimos que não haja grandes arrependimentos ou consciências pesadas.

O que pensas sobre esta controvérsia? Achas que “O Rei Leão” é plágio? Se desejares saber mais, existem inúmeros vídeos no youtube sobre o tema, muitos artigos publicados desde 1994 e até várias entrevistas, tanto de jornais como em livros sobre História de Animação. Muitos desses recursos foram usados para elaborar este artigo.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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